Domingo, Março 22, 2009

Mistério em ti


Oh Deus como estou dormente... Como estou dormente...

E agora não estou dormente, e não procuro Deus, nem sinto a dormência, assim sem aviso, sem introdução ou desenvolvimento, somente e apenas luz alva e salvadora do branco da página e todo um Universo de possibilidades que se esvai de mim, o peso de milhões de mundos e poeiras que me pesavam no peito e que faziam de andar direito algo difícil demais.

O que é escrever para mim? Não sei, está sempre a mudar. Hoje é flutuar, é o êxtase da fé recompensada, é o baptismo consciente nas primeiras águas do Mundo, é o instante-intervalo entre nós dois, sempre curto, sempre longo demais... Amo-te.

Ainda há momentos operavas a tua magia, tornaste-te uma névoa perante os meus olhos, eras fumo e mistério à minha volta e nem sabia se deveria suster a minha respiração ou encher os pulmões de ti, como procurei eu então pistas nos teus olhos de névoa, como fui estúpido no meu medo, ali estava um milagre a acontecer á minha frente e eu preocupado, quando tudo o que deveria fazer era manter os olhos abertos.

Como eu gosto de mistérios amor, e que mistério enorme é este, o de tu adivinhares isso em mim...

E de repente és carne de novo, és quente e vibrante, procuro lamber o brilho dos teus olhos, sonho em ser eu e meu cada sorriso teu, e da crista da onda que cavalga sem nunca se partir, prometo-te o amor dos poetas.

Segunda-feira, Dezembro 08, 2008

Condição Humana - I.A.

Sou um homem, nasci indefeso e dependente dos laços que me prendem desde o ventre da minha mãe.
Sou um produto do meu ambiente, a educação que recebi, o sítio onde cresci, o que me foi oferecido e aquilo de que me privaram fizeram de mim o que sou hoje.
Mas não só, há mais mistério em mim e em todos os outros, não sou a soma de umas partes, nenhum homem é conta certa, a minha alma nada quer com a matemática, e não se compromete com a harmonia que parece reger a natureza que nos pariu a todos.
Somos todos filhos das estrelas, mas a constatação desse facto faz de nós diferentes das outras grandes bestas que caminham a Terra. O nosso engenho é maior, mas maior é também a nossa dor, somos o trágico bicho que sonha, mas que sabe que morrerá.
Então sonhamos mais… Esquecemos a sentença embriagados em mais sonhos de prazer, poder e conhecimento, esquecemos a morte e procuramos a imortalidade (essa força maior que pertence apenas ao Universo) dos nossos nomes, obras e actos.
Também sei que o Mundo não nos pertence, já há muito que pulsava vida quando o primeiro homem sonhou com o conceito de Propósito, e continuará a viver quando os últimos de nós chorarem a sua miséria.
E nem esta Grande Esfera, este chão onde piso, este sol que nasce todos os dias, escaparão desta fragilidade que nos une, tudo perecerá, é só uma questão de tempo… Nem essa ilusão nos resta.
Por isso somos assim, eternamente confusos com o nosso papel, “Porquê saber estas coisas que não podemos controlar?”, não faz sentido nas nossas mentes fanfarronas, cheias da vaidade típica de quem domina sem concorrência.
Nunca saberemos, possivelmente não existe uma razão, talvez não sejamos assim tão especiais e importantes, talvez não haja um propósito maior à nossa espera além das estrelas ou nos Divinos que inventamos. Vivemos em dúvida, dúvidas profundas que nos dilaceram por dentro e que fazem de nós crianças perigosas, somos o elemento caótico do mundo.
O caos habita realmente em nós, o tipo de caos que faz de um aluno de artes um comandante louco assassino de milhões. As nossas mentes libertaram-nos, mas os grandes mistérios persistem, e por maior que seja o nosso engenho, nunca conseguiremos criar algo que não dominamos nem percebemos.
Todas as nossas máquinas são e sempre serão reflexos pálidos e básicos da complexidade humana.
Ideias de máquinas que amam e que se emocionam são mais sonhos tolos das mesmas mentes que imaginaram Deuses e a Astrologia.
Homem! Sonha mas não te iludas! Queres fazer máquinas amar quando tu próprio não controlas o amor?

Domingo, Outubro 12, 2008

Jazz Gritante

Jazz Gritante

Entras assim, histérica e de cabelo desgrenhado, atiras a porra dos sapatos na minha direcção e a parede recebe o golpe que me era destinado, oferecia-te uma bebida mas acho que já tomaste o suficiente.
Deduzo que te estás a pôr confortável, melhor assim descalça? Assim com esses pés perfeitos no meu soalho sujo?
Que diz esta mulher? Os lábios dela mexem, vejo perfeitamente que chocam um no outro, sei que está a insultar-me de alguma forma e que as palavras se lhe atropelam da boca para fora já pintadas pelo vermelho do batom.
Agora puxa os seus próprios cabelos, enquanto chamas vindas dos olhos incendeiam a sala, caminha furiosamente junto à mesa, e enquanto o faz o vestido negro roça-lhe nas coxas perfeitas.
Que faz ela agora? Um segundo atrás sentia-lhe o cheiro de perfume e tabaco enquanto se movia, agora está quieta e chora lágrimas que logo ficam negras do rímel dos olhos, escorrem-lhe lentamente pela cara como se estivessem a apreciar cada segundo da viagem.
Preparo um copo para mim e carrego no play, um jazz gritante e rápido invade a sala e quando me volto para ela, continua a olhar para mim, mas é um fogo diferente. Que criatura esta… Tão desesperadamente incompleta, tão carente e instável, tão estúpida e perigosa. Puxo-a para mim com uma mão na cintura e outra no pescoço, prendo-a num beijo longo e violento e fodemos ao som dos sopros furiosos da música.

Não ouvi uma palavra do que disse, mas o cheiro dela é musica para os meus ouvidos.

Terça-feira, Outubro 07, 2008

O beijo salgado de Outubro

Entrei sozinho numa praia de Outubro, e com passos lentos mas firmes avancei pela areia até ao mar com os meus olhos presos no horizonte.
Pelo caminho, despia o fato negro que me pesava nos ombros, foi com ele que me despedi de ti e pesa-me mais aqui e agora do que qualquer outro peso que já tive de suportar.
Entrei nas águas frias e escuras, e atrás de mim o sol quente tenta-me a deitar-me na areia. Digo-lhe que não, avanço com abandono e mergulho.
E então… Sinto a escuridão, a ausência de som, e todo o meu corpo envolto pelo abraço frio do mar. Deixo-me levar, sinto o meu último fôlego preso dentro de mim, aguento-o até ao limite e depois aguento um pouco mais, despeço-me da dor, da insegurança, despeço-me da fraqueza.
E então tu minha mãe, senhora do mar, empurras-me de volta para a superfície e dizes-me que sou o teu filho favorito, falas com orgulho de mim, beijas-me mil vezes, dizes-me que não há bem nem mal e contas-me pedaços de tudo o que ainda me espera.
Quando te despediste de mim deixaste-me um sorriso tão aberto quanto forte, nas minhas costas direitas os ombros tornaram-se mais largos, fiquei mais alto e o cabelo molhado escorria-me pela cara de onde os meus olhos brilhavam mais do que nunca.

Enquanto fazia o caminho de volta, as palavras da minha mãe ainda ressoavam nos meus ouvidos: “Estás pronto para ser o homem que sempre soubeste que serias” e eu beijo-a ternamente na minha pele, e com um sorriso nos lábios sinto-lhe o sabor salgado.

Sexta-feira, Setembro 19, 2008

Solo Sagrado

Pudesse eu abdicar do oxigénio e sobreviver de dióxido de carbono, para que cada fôlego meu fosse antes teu, e que cada encher de peito carregasse tudo aquilo que és por dentro e que me escapa enquanto me perco nos pormenores do teu rosto, da tua voz e da tua pele.
És Solo Sagrado, aqui e agora és perfeita, e eu, penitente e comovido pela fé comungo de ti todos os dias, ajoelho-me no altar da minha devoção e rogo para que o mundo não corrompa o nosso amor...
-Consegues sentir? Consegues sentir o meu amor? Pergunta-lhe ele no escuro enquanto a aperta de encontro a si.
Ela diz-lhe que sim, mas não é verdade.

Quinta-feira, Junho 12, 2008

O Meu Amor Louco Pela Mulher Serpente

Os olhos dela são vivos e electrizantes e atraem-me como o placar luminoso do único bar na cidade mais quente do mundo. E se esta mulher fosse um bar, serio o tipo de sítio onde toda a gente quer espreitar mas onde poucos têm coragem de entrar.
Por um instante observo-a escondido, deleito-me neste instante mágico tentanto talvez entendê-la. Daqui estou perto o suficiente para a admirar da cabeça aos pés, e longe o suficiente para não lhe sentir o perfume venenoso que me prende a cada olhar e palavra sua.
É inutil, não sou mais senhor de mim, cada momento sem a tocar é tortura, e sem que me possa valer estou já a caminhar as brasas que me separam dela.
“ Miles Runs the Vodooo down”, é esse tipo de feiticaria que ela fez gritar dentro de cada nervo no meu corpo. Ela é todas as mulheres da história que alguma vez destruíram um homem, juro aqui e agora que foi sempre ela todos estes anos e lugares, aposto que se recolhe em buracos frescos durante as horas mais quentes, e que percorre a terra no fresco da noite, mudando de pele conforme lhe convém.
Também eu vou cair, sou um bom soldado numa missão suicida, amar esta mulher com loucura é a minha missão, e o resto pode ir para o inferno.

Quarta-feira, Dezembro 05, 2007

Bons Rapazes

Qualquer designer de interiores teria um colapso nervoso se entrasse aqui e imagino que em termos feng shuianos este seja realmente um sítio de más energias, porém, até onde os meus olhos alcançam é relativamente limpo e o único sítio que conheço onde se pode comer um prego no prato e uma bilha de vinho, da casa claro, por apenas 4,5 € onde se incluí ainda as melhores natas do céu da Cidade e café.
Para se realmente apreciar um estabelecimento destes deve-se sentar ao balcão após a refeição, pedir mais uma bilha e meter conversa com os empregados, só assim, ao falar com estes homens de meia idade, de bigodes mais velhos do que eu e vozes destiladas se pode ter acesso aos factos. De que outra forma poderia eu saber que nunca na história deste país alguém alguma vez bebeu mais vinho do que os condutores de comboios dos anos 60 e 70? Como poderia eu saber, que neste preciso momento, em sítios como Póvoa do Lanhoso caminham ainda homens capazes de beber 5 Lt. de vinho em questão de minutos e não vacilar?... Não poderia, Titãs caminham a Terra, eles andam por aí nas suas camisas de flanela a pairarem sobre balcões onde o cheiro do ajax se mistura com o do vinho, em intensas orgias de tinto, fritos e sueca.
Nós somos um pequeno punhado de rapazes, bons rapazes claro, dispostos a chafurdar na lama para que não se esqueça que esta gente existiu, temos um equilíbrio ajustável de rudeza e sofisticação que nos permite caminhar em ambos os mundos e testemunhar, no fim ao cabo somos umas bestas elegantes, e o entusiasmo com que mordemos malaguetas com um angolano qualquer que nos abraça porque somos os primeiros brancos que ele conhece que sabem o que é gindungo, é o mesmo com que discutimos questões humanistas.
No final da noite, enquanto conduzimos a 190 Km hora numa auto-estrada aos gritos, não é o álcool que nos arde nas veias, nem é tampouco o cavalgante rock electrónico que ressoa nas colunas. É o sermos novos, o fogo somos nós… E nesta profunda irmandade, vivemos as outras vidas com que a maioria apenas sonha.

Sábado, Novembro 24, 2007

O Meio-Beijo


Algo me fez guiar até ti nessa noite, estava cada vez mais próximo da tua rua mas nem por isso o que diria ou faria ficava mais claro na minha cabeça.
Durante a tarde ligaste-me, disseste que ias partir na manhã do dia seguinte
“Fui colocada na ilha…é uma boa oportunidade…quis que o soubesses por mim”
Fui-me convencendo de que ia para me despedir de ti, de que o que havíamos sido um dia assim o exigia, mas a verdade é que não acredito em despedidas, e que para mim nada significam, em nada ajudam ou favorecem
Quando te encarei não consegui ser muito claro, muita coisa acontecia ao mesmo tempo dentro de mim coisas rápidas demais para que as pudesse reconhecer, então tive medo que percebesses a minha confusão e rapidamente me despedi.
O nosso beijo não foi nos lábios como os dos amantes, também não foi leve e simples como um beijo na face de amigos, o nosso foi um meio beijo, o beijo de quem nunca se definiu, de quem poderia ter sido mas que não foi.
Nós somos aquele beijo…algures entre os lábios e a face, e enquanto me afastava disse-te com um sorriso “Isto aqui não vai ter piada nenhuma sem ti” entretanto, dentro de mim um mundo ruía.

Segunda-feira, Maio 07, 2007

193 dias

Cheguei à hora planeada sem qualquer tipo de percalços, deixei as malas no carro e permiti-me uma ultima mirada no reflexo lustroso do meu automóvel, estava muito satisfeito com o fato novo que acabara de comprar e ajeitei o nó da gravata ao estatuto de impecável.
Entrei em casa, encarei-a por um momento e disparei sem hesitações o tiro que lhe explodiu no olho direito.
Esse foi o ponto alto de um plano por mim desenvolvido e do qual me orgulho muito, sem duvida um excepcional exercício de organização, e sem qualquer tipo de duvidas vos digo que planear a morte da minha esposa e a minha posterior migração livre de embaraços legais foi talvez dos projectos mais aliciantes que levei a cabo.
Aquando do clímax da sua morte, contabilizavam-se exactamente 193 dias que sabia da sua conduta adúltera, descobri por acaso um dia em que por questões profissionais não segui a minha habitual rota de quarta-feira e a vi a sair de um motel pendurada no pescoço de um sujeito, ora rindo, ora beijando-o de forma sôfrega.
Nessa noite, o que me foi mais chocante foi reparar que tudo estava igual…Ela chegou à mesma hora de sempre, não estava nem mais nem menos comunicativa, e o jantar decorreu sem qualquer incidente…Tive de concluir que o adultério durava há muito tempo e na manhã seguinte comecei de imediato a planear.
Hoje em dia, normalmente depois das minhas leituras da tarde, penso por vezes no que poderia ter feito diferente, pequenos ajustes que poderia ter feito no plano… Eu sei, perfeccionismo é sem duvida a minha máxima, no entanto, permitam-me só partilhar este pensamento que me surgiu completamente por acaso quase imediatamente após vê-la tombar no chão com o ar surpreendido que viria a ser a sua máscara fúnebre, achei engraçado o facto de depois de em ocasiões várias ela me acusar de ser previsível e rotineiro, fosse eu a dar-lhe a sua derradeira e maior surpresa de todas.
Lembro-me de abandonar a casa que um dia chamei de nosso lar de sorriso nos lábios e pensar:

“Os Calculistas fazem as melhores surpresas”

Quarta-feira, Abril 11, 2007

A Casa


Para quê falar, para quê escrever, nunca saberei mais do que hoje
Sei da tua cor escura, sei que fica e sei que dura
Lembro as paredes da casa agora, lembro os cheiros, os gostos…a hora
Mas sei que se fosse hoje me demoraria
Nos pormenores das paredes que uma só vez veria.

Em momentos lembro-me de um quarto, um som, uma janela
E por segundos estou lá de novo…
Mas quando volto tudo é pior
E mais fria me parece a rua onde moro.

Com o tempo perde-se o pormenor, da cada vez mais distante recordação
Mas esse é o mal menor… A grande perda é meu coração
Perdi-o na casa que fica junto ao mar
Aquela que nunca será o meu lar.

Segunda-feira, Março 12, 2007

O Espião


I'm a spy in the house of love. I know the dream, that you're dreamin' of. I know the words that you long to hear. I know your deepest, secret fear. I'm a spy in the house of love. I know the dream, that you're dreamin' of. I know the words that you long to hear. I know your deepest, secret fear. I know ev'rything. Ev'rything you do. Ev'rywhere you go. Ev'ryone you know. I'm a spy in the house of love. I know the dreams, that you're dreamin' of. I know the words that you long to hear. I know your deepest, secret fear. I know your deepest, secret fear. I know your deepest, secret fear. I'm a spy, I can see you What you do. And I know.



Soam os primeiros acordes e lá vamos nós outra vez…
Gosto da música, mas se hoje pudesse escolher provavelmente escolheria nunca a ter ouvido, acho que é a coisa mais parecida que tenho com um trauma.
Sinto-a imediatamente no peito e nos olhos, ela tortura-me e conforta-me ao mesmo tempo, mas porque raio a ouço tantas vezes? Será que quero purgar este demónio que se me instalou na alma? Ou será que estou a alimentar o sacana, e no fundo quero mesmo ser um daqueles tipos patéticos que querem sofrer, e que os entendam, e que no fundo apenas se distanciam porque querem que os outros se aproximem?

“…Vais viver em muitas casas e nenhuma será tua”
“…E nada jamais será teu, ninguém te pertencerá porque não te permites a isso”

A qualquer momento ela pode vir, ela está dentro de mim e as vezes parece que nunca a vou esquecer, esta tudo bem e então soa a voz…Está tudo perdido então.

“…Abandona este lugar, tu não pertences aqui, toda a gente sabe quem tu és…Um espião só é útil enquanto consegue esconder a sua identidade”

Sinto-me como aquela personagem de banda desenhada, o Monstro do pântano, serei eu uma planta que um dia foi um homem, ou será que sou uma planta que tem a fantasia que foi um homem.

Tenho de sair daqui penso eu, para um sítio onde não se ouçam outras vozes, talvez não seja suposto ouvirmos tanta coisa... Sabermos tanto e de tanta gente diferente.

Sábado, Fevereiro 24, 2007

...

Quero reconhecer-te ao longe numa paisagem de Millet, mas que nela a luz amarela de van Gogh te envolva partida em mil pedaços...todos eles para te iluminarem...

Anda! Vamos viver o sonho azul de Chagall e nele flutuar sobre as cidades... Não tenhas medo de cair, no último momento prendo-te no beijo de Klimt...

Quarta-feira, Janeiro 31, 2007

Os Blues


Gosto de Blues

Sei que a maioria é triste, mas a mim quase todos os blues me fazem sentir bem.
Mesmo naquelas noites onde nada sabe bem…aquelas em que se fuma para empurrar a bebida e se bebe para empurrar o fumo, aqueles acordes despertam-me, puxam-me para o sítio onde estou e quando dou por mim estou a bater o copo com força na mesa.
Noites em que se entornam coisas, em que se puxam mulheres pelo braço, em que se rola por cima da mesa porque não se gostou do que aquele tipo disse, noites em que se sangra, noites de cabedal, de botas, de sítios que tresandam a álcool e fumo, noites de lama, de valetas, de quedas aparatosas, de riso alto e maneirismos rudes, noites de garrafas que voam e se partem, noites onde não sabes onde estão as tuas chaves e não te ralas com isso, noites de beijos de luxúria e punhos cerrados.
Pois é, o ritmo dos blues é o ritmo do coração, e do nada, quando os ouço dou por mim a viver.
Soam os primeiros acordes e quase que se adivinham os seguintes, quem disse que isso é mau?
É sangue compassado que bombeia do meu coração para tudo o resto.

Terça-feira, Novembro 07, 2006

1 + 1 = 3 "Poema para a minha sobrinha"


Não me falem do número um e da sua unidade.
Um posso ser, mas não o sinto...
E o que sinto é a minha verdade.

Ao número dois não pertenço,
não há conforto na dualidade.
Não separem o trigo do joio,
nem o campo da cidade.

Que sejamos o número três,
o milagroso número perfeito.
Que de ti venha ao mundo
e que seguro te mame no peito.

1 + 1 = 3... A vida o diz, a matemática rejeita
Nada é só número... amo-te muito.
És poesia feita.


Segunda-feira, Novembro 06, 2006

Passatempo Discurso Vitorioso com "Vês"

Á umas semanas atrás participei pela primeira vez na minha vida num concurso radiofónico. A rádio em questão era a antena 3 e o desafio consistia em escrever um discurso vitorioso (de tamanho limitado pelo regulamento) com o máximo de palavras começadas por “V” e assim habilitares-te a ganhar uma viagem a Veneza para duas pessoas.Esta não é uma daquelas histórias em que tudo corre bem, na verdade não venci o concurso e como é óbvio assassinei todos os responsáveis, no entanto decidi postar aqui o meu “discurso” para que não se perca na repartição pública que é o meu cérebro.

Vê vil vilão! Vislumbra a tua visão vergonhosa,
vergaste vinte vezes, findou vossa hora vitoriosa.

Venera agora com veemência, quem com vigor te venceu,
foi verga, varão ou vergasta?
Que como vento na vela sobre você se abateu.

Vestes de vigoroso vermelho para o vencedor
e vestido de veludo para o vencido,
vence o valor, a verdade e a valentia
neste verde verão de Vigo.

Vai vexante verme, já tive a minha vendetta,
volta para de onde vieste, rasteja para a tua valeta.

Domingo, Outubro 15, 2006

"O Lobo Solitário" - Homenagem a José Lobo

Sou um grande amigo do José e foi com grande pesar que soube da morte da sua mãe.
Não o soube por ele, mas também não o estranhei, por estes lados um funeral não é uma festa e o José sempre foi uma daquelas pessoas que partilha de bom grado as alegrias mas que encerra em si as tristezas. Um bom homem.
Um funeral é uma cerimónia à qual não faço questão de chegar cedo, quando cheguei encarei com uma imagem que na sua simplicidade descrevia o íntimo do José e do que nos habituámos a gostar nele, ele lá estava, alto e direito com os seus ombros largos e constituição forte, o rosto dele estava direito e seguro e nenhuma lágrima lhe escorria pela face quadrada, a mulher dele com os olhos molhados procurava-lhe as mãos e os olhos e numa expressão de suplica e de conforto parecia tentar retirar alguma emoção dele mas tudo o que conseguiu foi um olhar terno e triste com o qual ele parecia se desculpar pelo seu modo fechado de ser.
No fim da cerimónia depois de quase todos terem partido tive finalmente o meu momento com o José, ele não estava muito comunicativo, mas disse-me que nessa mesma noite ele queria juntar os rapazes do costume, no sítio do costume para uma “noite cigana”.
Noite cigana é um conceito criado por um grupo de 6 rapazes à anos atrás quando eram ainda bastante jovens, em certas noites estes embrenhavam-se nas florestas locais e aí montavam um acampamento no qual se faz um fogo, se bebe, e se luta. As fileiras sofreram algumas alterações durante os anos, mas o núcleo duro manteve-se e apesar de actualmente passarem-se meses entre essas noites mágicas, nenhum destes agora homens por momento algum sequer considerou que as noites tinham acabado.
Nessa noite bebemos e recordámos…Recordámos de porque é que estamos ali e os nossos espíritos arderam tanto quanto a fogueira que acendemos, exaustos e intoxicados batemo-nos em lutas e sangrámos… O vinho, o sangue e a lama cobriam-nos e sentimo-nos tão vivos e fortes como quando éramos miúdos que procuravam um sentido.
Num momento mais sossegado da noite vi o José a afastar-se do acampamento, ia de peito nu e sujo com uma garrafa na mão direita e parecia focar um ponto invisível na floresta escura que se estendia à sua frente, naquele momento preocupei-me e dirigi-me a ele, perguntei-lhe se estava bem e onde ia, foi aí que ele me disse:
- “Foi uma grande noite e sinto-me um homem de sorte de vos ter aqui comigo…Sinto uma grande dor e sei que tenho que a tenho que deitar para fora, tenho de o fazer porque estou vivo e agora que estou aqui com vocês tenho a certeza disso… E para poder continuar a ser o homem que sou para aqueles que amo preciso de me vencer, tenho de contrariar a minha natureza e expulsar a dor que encerrei no peito”
Olhei-o a afastar-se enquanto desaparecia pela floresta adentro, imagino-o a caminhar até se sentir só e aí finalmente quebrar a armadura que lhe pesa no peito, imagino-o a chorar as lágrimas sem testemunhas…imagino o Lobo a uivar.

Terça-feira, Setembro 26, 2006

1:31

Foi numa hora como tantas outras e nada nela fazia prever nada de extraordinário.
A sua métrica nada significa, é desprovida de qualquer simbolismo, e apesar de aparentemente nada acontecer a solenidade do momento é quase palpável. O ar à minha volta fervilha de promessas que só eu posso ouvir, mas porquê agora? Porquê neste minuto e não noutro? E de onde vêm estas vozes? Como é possível que ecoem tão claramente na minha cabeça quando nelas não pensei?
Sei de imediato que não terei uma explicação e faço instintivamente o que tenho a fazer, encho os pulmões com o momento e carrego-o no peito até o sentir fazer parte de mim.

O momento agora sou eu e as questões cessaram.

Terça-feira, Agosto 22, 2006

As Aventuras dos 2 – “O Terrível Problema”

- Meu Deus e agora? Sabes o que nos vai acontecer quando se souber disto? Vamos ser linchados
- Linchados é pouco, com certeza haverá algo pior do que um linchamento…Sabes que apesar de iletradas, com a motivação certas as hordas de populares são capazes de pintar geniais quadros de puro sadismo com virtuoso pormenor.
-Cruzes homem…não temos que temer os populares…Os verdadeiros inimigos são os grupos homogéneos e organizados, de certo que nos estatutos deles existem alíneas detalhadas de como lidar com tipos como nós.
- …Feministas…Não…Lésbicas Amazonas de 1,90m, montadas em cavalos árabes…elas vão fazer de nós exemplos da devassidão masculina, vão aprisionar-nos em pelouros públicos enquanto ensaiam cortes de cabelo foleiros nas nossas cabeças.
- No meu cabelo não…um homem tem limites, se essas bruxas invasoras se aproximarem de mim vão encontrar resistência
- Gritos histéricos não te vão proteger delas meu caro, temos de nos acalmar e pensar com clareza, diplomacia pode ser a chave deste problema, precisamos de Adriana Calcanhoto, talvez assim nos tomem por simpatizantes da causa delas.
- Adriana Calcanhoto??? Onde raio pensas que estás? Se fores à casa de banho vais reparar que a tampa da sanita está levantada…e nem sugiras em fazer o download da Internet, tínhamos o SIS à perna em menos de um ápice.
- O que sugeres então? Uma morte heróica debaixo de uma chuva de balas? O nosso trabalho está longe de concluído e além disso os meus genes são importantes demais para o futuro deste país, não conseguiria viver comigo mesmo sabendo que estou morto.
- Só temos uma hipótese…temos de nos enrolar em papel de alumínio e escondermo-nos debaixo da cama. É a única maneira de despistarmos os satélites deles.
- Então vamos rápido pois não temos muito tempo. E já sabes, em caso de captura somos dois milionários excêntricos mas inofensivos numa demanda espiritual.

Sábado, Agosto 05, 2006

Deus Me Livre Deste Paraíso


Bom saber que certas coisas não mudam, fui presenteado recentemente com um folheto Jeová que alerta com letras garrafais “APROXIMA-SE O LIVRAMENTO”.
Mas o que realmente atrai um cínico como eu neste documento é a terrível e sempre imutável imagem de paraíso Jeová.
Como sempre é apresentada uma imagem de campos verdes regados por lagos onde flores abundam, os frutos são sempre maduros e viçosos, ao fundo, animais como tigres e leões vivem numa harmonia herbívora com vacas e ovelhas e as diferentes etnias humanas parecem ter ultrapassado qualquer preconceito que possa alguma vez ter existido e trabalham agora em prol do seu jardim do Éden rural.
Quem são estas pessoas? Onde arranjaram elas as suas camisas axadrezadas e camisolas de malha? E porquê estes sorrisos? Poderá o consumo exacerbado de drogas explicar esta pintura? Talvez…Mas sinto que nunca o saberemos.
Onde estão as orgias e os vinhos? Será que não existe alternativa a esta imortalidade de comida saudável e mulheres assexuadas? Estará aqui representado o Jeová citadino que aprecia comida de plástico e má programação televisiva?
Demasiadas questões para tão poucas respostas.

Quarta-feira, Julho 26, 2006

O Teu Grito


Cada um de nós tem um grito, descobrir o grito que se tem cá dentro é descobrires-te a ti próprio, é saberes quem és, a que é que soas até onde estás disposto a ir.
Quem não acha o seu grito terá de se resignar a uma vida de tom murmurado, tímido e esquecível, nunca estará seguro do que diz nem saberá da liberdade exultante que existe em encontrar o método o caminho e as pessoas simplesmente “deitando cá para fora” naquele tom que só te pertence a ti, afastando esse nevoeiro que esconde o que está mesmo à tua frente para agarrar.
O conforto no grito é também o conforto no sussurro, no murmúrio e na palavra doce. É a chave para o equilíbrio.
Aconselho a procura do grito descomplexado...esse que te liberta.

Sábado, Julho 15, 2006

Os Perus


Quando era um miúdo fiquei muito curioso em relação aos perus que a minha mãe decidiu criar, Quando se é uma criança de seis anos o galinheiro não desperta mais atenção do que tudo o resto, de certa maneira tinha-me já acostumado à presença das galinhas, mas estes novos e recém-chegados animais eram uma novidade, eram diferentes.
Havia muita coisa que tornava os perus mais interessantes do que as galinhas, eram maiores, mais coloridos e enchiam o quintal com sons desafiadores impossíveis de confundir, tinham aquele aspecto estranho e na altura da matança era sempre obrigatório embriagá-los primeiro para que as suas patas fortes e corpos maciços oferecessem menos resistência no momento em que a faca fazia o que as facas fazem.
Mas o que mais me intrigava nos perus era a relação deles com as urtigas, lembro-me da minha mãe colher grandes molhos de urtigas que aquelas ainda pequenas aves debicavam com apetite.
O mais surpreendente de tudo aquilo foi o que ela me revelou nesses tempos, aqueles pequenos perus não eram imunes às picadas da famigerada erva e se porventura um deles se picasse ao ingeri-la, uma morte certa o esperaria.
Não sei dizer se na altura fiquei desiludido por saber que aquela estranha ave na verdade não era imune àquela peste que tantas vezes nos picava as pernas, ou se pelo contrário senti um crescente respeito ao saber que mesmo vulneráveis e ainda pequenos, se arriscavam a tão trágico e repentino fim para desfrutar de algo que lhes agradava.
A verdade é que nunca mais os esqueci enquanto que das galinhas não reza a historia.

Terça-feira, Julho 11, 2006

O Pintor – Episodio 1 – “Prelúdio da Exposição”



Nunca uma exposição minha atraiu tanta gente, a notícia do meu comportamento errático depressa se espalhou e o lixo que produzi é objecto de grande curiosidade.
A arte estagnou há muito tempo, tornou-se um passatempo elitista de quem tem mais tempo livre do que merece. Todos procuram a algo de novo, não interessa que seja repugnante de tão vazio. Assim que entro na galeria sei automaticamente o que vai acontecer, idiotas pretensiosos em roupas ridículas vão-me partilhar as suas impressões das telas…vão utilizar estrangeirismos e comparações e encontrar um significado no lixo que se lhes apresenta…vão comentar o meu comportamento em sussurros…Mulheres que até aqui me ignoravam vão sentir-se intrigadas por mim…negociantes de arte aconselharão o meu trabalho dizendo que sou um Jim Morrison da pintura, usarão palavras como provocador, poético, evocativo e sexual…deixarão no ar a ideia de que morrerei novo e em êxtase como a minha obra…que serei indissociável da minha arte, que me tornarei uma estatua elegante jovem e rebelde para todo o sempre…”um óptimo investimento e rentável a curto prazo” dirão eles.
Esta maldita falta de lógica do mundo tem tanto de entediante como de previsível, caminhei entre os homens, amei carinhosamente mulheres que me traíram, fui bom, sensato e apaziguador, respeitei as leis dos homens escritas e não escritas, e no entanto a sabedoria e o amor pacífico não me foi devolvido.Hoje espezinho o chão com estrondo, sou rude e vulgar, não acredito no que faço e tão pouco assumo as consequências dos meus actos e no entanto nunca fui tão adorado como agora…Malditos sejam todos vocês!

Sábado, Julho 08, 2006

O Homem no Comboio


Numa tarde de um dia qualquer há uns anos atrás encontrava-me dentro da carruagem de um comboio a fazer a viagem que liga S. Bento a Aveiro, ia sentado sozinho a olhar pela janela quando um homem com passos lentos de muletas se senta à minha frente.
“Está tudo bem?” pergunta-me ele enquanto me olhava fixamente nos olhos, respondo-lhe que sim e ele diz-me “Quem me dera poder dizer que está tudo bem…Tenho uma doença que os médicos não conhecem”, o homem falava muito devagar e sem ritmo, não era velho nem jovem, alto ou baixo, nem gordo ou forte ou especialmente magro, segurava as muletas nas mãos e olhava-me fixamente com aqueles olhos azuis enormes sem qualquer tipo de embaraço ou qualquer outra expressão.
Não sabia o que lhe dizer, concordei com ele dizendo que era realmente uma situação difícil e que lhe desejava as melhoras, dito isto o homem levanta-se, despede-se e abandona a carruagem da mesma forma que nela entrou.Coisas que não significam nada podem adquirir um significado profundo se a isso estivermos predispostos.

Deus Conduz Um Automóvel

“Uma ave feliz” era como se podia caracteriza-la, pertencia à comum classe do pardal e na manhã de 10 de Março, encontrava-se nas imediações das arvores que se acostumou a frequentar.
Nessa manhã de 10 de Março pode-se dizer que dentro da sua limitada percepção de ave, este era um Pardal mais feliz do que o habitual, acabara de ter um encontro com uma fêmea e com ela nas imediações da estrada que liga a localidade de Lavos à de Franco no Município da Figueira da Foz, as duas aves dançavam a dança da reprodução, voando voos baixos em perseguição uma da outra, ensaiando manobras aéreas acrobáticas e pouco habituais, adaptadas à importância daquele momento, que será talvez o mais importante da sua vida até então.

Raios…Atrasado outra vez! Pensava o condutor enquanto acelerava mais do que o habitual. Enquanto conduzia com a sua mente ainda meia adormecida pela manhã, pensava em resoluções para se deixar de se colocar a si próprio na posição do funcionário frequentemente atrasado, “ O despertador do telemóvel não resulta mesmo…E também deveria deitar-me mais cedo e dormir mais horas…Mas porque raio transmitem a série “Perdidos” tão tarde?

Enquanto fazia a já habitual transição de culpar-se a si próprio, para culpar o ambiente, a sociedade, ou uma qualquer instituição, é interrompido durante um instante por um par de pardais que voam de forma descuidada e baixa no meio da estrada, sente perfeitamente o som do embate da ave no carro, pensa durante um segundo no cómico da situação, esboça um sorriso e continua a sua viagem que termina pouco depois.“Estou atrasado” pensa ele enquanto se precipita pelas escadas da empresa, sem saber que na grelha do seu Automóvel jaz um pardal que estava a ter o melhor dia da sua vida.

Quarta-feira, Julho 05, 2006

O Molhe


ELA – “É bonito isto aqui não achas?”
ELE – “É...Muito bonito, foi uma boa ideia vir cá.”
ELA – “Em que estas a pensar? Tas tão silencioso”
Diz ela enquanto repousa a cabeça no ombro dele.

Ele continua a mirar o horizonte, silencioso e concentrado como antes. Ele percebeu perfeitamente a pergunta e pela primeira vez na sua vida sente que teria uma resposta para ela, no entanto está demasiado a acontecer dentro de si e a toda a volta. Na verdade ele já tinha uma resposta para ela muito antes da pergunta ser feita, esta surgiu-lhe momentos depois da caminhada que conduz ao fim do molhe, quando finalmente se sentaram e sentindo-a encostada a si, conseguiu pela primeira vez viver o momento.
Esta resposta ela não ouvirá, encerrado em si próprio e em tudo o que estava a sentir ele decide no entanto responder-lhe em pensamento:

“Não me apetece falar, não podes antes ler-me os gestos?”
“Olha o que eu olho, vê as ondas a correrem para de seguida se partirem nas pedras”
“Cheira a maresia na brisa que sopra e sente-a pousar na tua pele...Estou feliz, dou por mim a ver tudo isto e sei que o devo a ti, vivo pela primeira vez...Despertei para o mundo e foste tu que me acordaste!”
“Devo-te tudo o que tem valor para mim.”

ELA – “Então amor?...Não estas a pensar em nada” Diz ela com a cabeça ainda pousada no seu ombro mas agora procurando os olhos dele com os seus.

Ele olha-a nos olhos por um segundo, esboça-lhe um sorriso e abraça-a com um braço apertando-a ainda mais para junto de si.

ELE – Estava a pensar que devíamos ir comer um gelado! Que achas amor?

Terça-feira, Julho 04, 2006

Ouvi por aí...


- (...)
- Tás a transformar-te num metódico do caraças!
- Ainda bem que falaste! Isso faz-me lembrar que está quase na hora da minha masturbação das 15:05!

A Máquina De Café


Dirijo-me à máquina de café assim que chego ao escritório, é assim à muitos anos, enquanto subo as escadas que dão acesso ao piso onde trabalho não é na minha agenda que penso mas sim no café quente que vou beber, no seu efeito despertador e na forma como o seu sabor combina de forma divina com o meu Ventil. Adaptei a minha vida, toda a minha rotina para que seja o primeiro a chegar à máquina de café, saio mais cedo de casa e dentro dos meus limites como aventureiro tentei alguns caminhos alternativos!
Vivo com um medo terrível... De um dia chegar ao escritório e a maquina não funcionar, de ser privado do sabor e do efeito a que me acostumei e do que acontecerá depois. O meu medo é real, sei que fatalmente isto irá acontecer e é esse o pensamento que me mantém acordado à noite com suores frios, sempre a mesma questão, o mesmo fim, e a mesma angústia, apenas mudam os actores e as situações, por vezes é um dos estagiários irresponsáveis do Design que no meio de uma correria provoca a queda da maquina, outras vezes é o maldito Silva da Contabilidade que numa provocação deliberada propõe a sua substituição por um modelo mais novo.
Todas as manhãs bebo o meu café, sabe-me a medo e permite-me que medo seja o que sinto, permite-me manter o meu trabalho e comportar-me de maneira adequada.
Ninguém sonha que não funciono sem aquele café, que sem ele não sou humano...que palavras escolherão quando diante dos seus olhos me transformar num monstro?

O Homem Velho


Manuel é velho, e esse é o centro de todo o seu universo, ser velho é o que o define.
Se alguém realmente o olhasse sentado na sua cadeira com o seu ar desencantado, poderia reconhecer os ainda fortes contornos dos seus ombros ou as mãos que apesar de já não trabalharem, continuam duras, ásperas e grossas.
Manuel pensa no passado, já que o presente não lhe traz conforto, na sua vida lavrou a terra que lhe mandaram e matou na guerra para onde o enviaram, viu homens como ele a morrer ao seu lado sem aviso, casou, teve filhos e trabalhou durante longos meses em terras que lhe eram estranhas para que nada faltasse em casa.
Agora Manuel vive num sítio cheio de estranhos. Apesar de se reconhecer nos olhos da maioria, vive os mais longos dias de rotina prisional onde paga a ousadia de ter vivido tantos anos.
A casa que construiu com as suas mãos não existe mais e das terras que lavrou não se colhem mais frutos, Manuel viveu mais do que o seu mundo e agora é um estranho num sítio estranho.
Quando vê os seus netos nas raras visitas que recebe, diz-lhes que aproveitem o que a vida lhes dá, nos olhos deles reconhece uma expressão que já foi sua, agora é ele o velho, e os seus netos tal como ele muitos há muitos anos atrás, não têm tempo para os velhos.

Segunda-feira, Julho 03, 2006

Sossega...


Pedro é um homem simples e este é o seu maior feito na vida, Neste mundo em que vivemos, fácil é ser complexo, ser um guisado de inseguranças, fobias e desencanto.
Livrem-se de pensar que Pedro não é inteligente ou até sensível, Pedro até gosta poesia só que nunca a escreveria, ele prefere vivê-la...
È elucidado o suficiente para saber quem realmente é e o que vale a pena perseguir neste mundo em que vivemos... Com essa naturalidade, conheceu a sua mulher, facilmente lhe reconheceu a inquietude de quem precisa de ser cuidada, e dela cuidou como um homem cuida de uma mulher, também ele se abriu para ela com o tempo, camada após camada ela continua a ser surpreendida, continua a descobrir coisas novas sobre ele e o mistério impele-a a recebe-lo à porta todos os dias mal sente os seus passos, já passou tanto tempo...ela ainda corre

O Cão De Cerâmica


Quando confrontado com o que considerava ser uma peça de um mau gosto aberrante, Jorge decide comentar o mau gosto do amigo (Artur) que não via desde os tempos de faculdade

J – Um cão de cerâmica? Todos os anos gastos na faculdade a desenvolver um suposto espírito crítico e uma certa cultura de bom gosto na verdade não serviram de nada?
A – A Laica?... Este belíssimo exemplo de arte ocidental? É dos meus objectos preferidos.
J – Tenho a certeza que “A Laica” é tão ocidental quanto o Sumo! Não me admirava nada se lhe encontrasse um enorme “Made in China” algures.
A – Sabes Jorge, depois de vários anos à procura de algo acabei por chegar a uma linha de pensamento simples, “Existem poucas coisas realmente importantes na vida e para que esta tenha algum significado devemos procurar a beleza e o conforto nas coisas”.
J – Para mim essa peça parece tão confortante quanto um tumor nos testículos!
A – Libertei-me das convenções...já não escuto o que um qualquer crítico gay do outro lado do Atlântico tem a dizer acerca de como deve estar disposta a minha sala.
Acredito que exista uma espécie de gosto universal...uma espécie de programação orgânica que conduza uma grande maioria de pessoas a identificar um conjunto de linhas ou uma certa disposição de objectos como harmoniosa. Mas tenho a certeza que não existe uma fórmula de felicidade, esse para mim é um projecto unipessoal.
Aprendi a apreciar este cão de cerâmica, enchi-o de beleza e hoje em dia oferece-me bastante conforto, para além do facto de que tem um sentido muito prático, penduro muitas vezes o chapéu na Laica, assim sei sempre onde está.

Porque È Que Eu Adoro Serviços De Apoio Ao Cliente


Como tive um problema com a minha ligação à Internet decidi ligar para a linha de apoio ao cliente, claro que por esta altura todo o meu corpo tremia já de antecipação, que bom que vai ser! Pensava eu, foi mesmo para isto que adquiri uma ligação à Internet, para encetar conversas estimulantes ao telefone com perfeitos estranhos mal pagos que estão a trabalhar ao sábado à tarde, Sentindo-me de novo com 6 anos, pulei até ao telefone imaginando já múltiplos cenários agradáveis que terminavam ora em gargalhadas de grupo, em tardes na esplanada a beber joy laranja ou até em agradáveis serões à lareira com a rapariga do callcenter.
Adoro ouvir grandes êxitos da musica Pop em flauta, acho muito agradável, e penso até que a acústica do telefone lhe dá uma sonoridade especial ainda mais prazenteira chegando mesmo a competir com musica de natal nos altifalantes do hipermercado num sábado á tarde, por isso tenho que agradecer o facto de terem-me presenteado com 20 minutos de verdadeira terapia sonora, foi o tempo perfeito para rever as minhas questões, torná-las o mais fofas possíveis e colocar a minha voz num tom o mais simpático possível ajustado á época Natalícia.
Para mim, ligar para o serviço de apoio ao cliente, é um pouco como fazer amor, não é a realização que este proporciona que é importante, mas sim o convívio.

Gengivas Sangrentas


João era um escritor e na sua busca de novos escritos tornou-se um homem demasiado fechado, o que acontecia à sua volta era sempre analisado segundo múltiplas perspectivas com o intuito de assim chegar a uma verdade maior, João gradualmente abandonou a o olhar e o reagir e passou a observar e a reflectir.
Com o tempo João tornou-se cada vez menos conversador, no Café sentava-se na mesma mesa com as mesmas pessoas de sempre, no entanto bebia as suas bebidas e fumava os seus cigarros de forma silenciosa.
Fumava cada vez mais enquanto os seus pensamentos viajavam nas questões sobre as quais escrevia, interessava-lhe escrever sobre como o Mundo forçava tantas gentes à loucura e a actos estranhos, interessava-lhe a Sociedade da Informação, a Mecanização do Homem, As Depressões, As Relações Humanas e todos os Comportamentos Humanos de Autodestruição, Comiseração e Violência Gratuita.
Uma noite ao chegar à sua casa vazia reparou que os cigarros lhe estavam a tingir os dentes de amarelo, pegou na sua escova e dentífrico e enquanto os escovava pensava os pensamentos do costume em silencio tendo apenas como barulho de fundo o som da escova a roçar os dentes.
Sem disso fazer ideia João esfregava os dentes de forma compulsiva há já 37 minutos, gotas de sangue escorriam-lhe pela boca e misturavam-se com a espuma da pasta, alheio a tudo João continuava a escovar os dentes enquanto focava um ponto invisível no azulejo, no canto da sua casa de banho junto ao bidé jazia o espelho que partira na noite anterior.

O Início

Este momento marca o lançamento do espaço “A Esquina”, este será um espaço de exposição de momentos, opiniões e de basicamente tudo o que estas personagens entenderem como publicável.
Não será de maneira alguma um espaço homogéneo, a diversidade de neuroses foi algo propositadamente procurado e o comentário por parte dos visitantes será sempre tolerado e em alguns casos até bem-vindo.
As esquinas são entendidas como cantos, como o encontro de duas paredes ou ruas, a esquina propriamente dita é um espaço independente e sem nome, um santuário não catalogado apenas baptizado pelas pessoas que por aí habitam e nunca pelos poderes instituídos.As esquinas são mal frequentadas...E ainda bem.