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segunda-feira, julho 03, 2006

Gengivas Sangrentas


João era um escritor e na sua busca de novos escritos tornou-se um homem demasiado fechado, o que acontecia à sua volta era sempre analisado segundo múltiplas perspectivas com o intuito de assim chegar a uma verdade maior, João gradualmente abandonou a o olhar e o reagir e passou a observar e a reflectir.
Com o tempo João tornou-se cada vez menos conversador, no Café sentava-se na mesma mesa com as mesmas pessoas de sempre, no entanto bebia as suas bebidas e fumava os seus cigarros de forma silenciosa.
Fumava cada vez mais enquanto os seus pensamentos viajavam nas questões sobre as quais escrevia, interessava-lhe escrever sobre como o Mundo forçava tantas gentes à loucura e a actos estranhos, interessava-lhe a Sociedade da Informação, a Mecanização do Homem, As Depressões, As Relações Humanas e todos os Comportamentos Humanos de Autodestruição, Comiseração e Violência Gratuita.
Uma noite ao chegar à sua casa vazia reparou que os cigarros lhe estavam a tingir os dentes de amarelo, pegou na sua escova e dentífrico e enquanto os escovava pensava os pensamentos do costume em silencio tendo apenas como barulho de fundo o som da escova a roçar os dentes.
Sem disso fazer ideia João esfregava os dentes de forma compulsiva há já 37 minutos, gotas de sangue escorriam-lhe pela boca e misturavam-se com a espuma da pasta, alheio a tudo João continuava a escovar os dentes enquanto focava um ponto invisível no azulejo, no canto da sua casa de banho junto ao bidé jazia o espelho que partira na noite anterior.

1 comentário:

Maria Ninguém disse...

conheço uma menina assim..que tem fases assim...e observa..reflecte e tenta encontrar explicaçoes e justificaçoes para tudo o que os sentimentos numa fase em que ainda sentia nao lhe conseguiam explicar...tornou-se assim escovadora de dentes ensanguentados amarelados porque preferia o sabor a sangue na boca ao sabor amargo da dor de sentir sentimentos..
talvez tambem o joao seja assim..talvez..