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sábado, julho 08, 2006

O Homem no Comboio


Numa tarde de um dia qualquer há uns anos atrás encontrava-me dentro da carruagem de um comboio a fazer a viagem que liga S. Bento a Aveiro, ia sentado sozinho a olhar pela janela quando um homem com passos lentos de muletas se senta à minha frente.
“Está tudo bem?” pergunta-me ele enquanto me olhava fixamente nos olhos, respondo-lhe que sim e ele diz-me “Quem me dera poder dizer que está tudo bem…Tenho uma doença que os médicos não conhecem”, o homem falava muito devagar e sem ritmo, não era velho nem jovem, alto ou baixo, nem gordo ou forte ou especialmente magro, segurava as muletas nas mãos e olhava-me fixamente com aqueles olhos azuis enormes sem qualquer tipo de embaraço ou qualquer outra expressão.
Não sabia o que lhe dizer, concordei com ele dizendo que era realmente uma situação difícil e que lhe desejava as melhoras, dito isto o homem levanta-se, despede-se e abandona a carruagem da mesma forma que nela entrou.Coisas que não significam nada podem adquirir um significado profundo se a isso estivermos predispostos.

5 comentários:

Lia Bettencourt disse...

ninguem tem o direito de impor a sua própria vida a quem quer que seja. ao tinha culpa que ele fosse doente e também não queria saber da doença dele para nada. não gosto de pessoas que têm problemas e gostam de chafurdar neles.
já conhecia o texto e continuo a gostar dele.

FaTaGaGaS disse...

O mundo é feito de perspectivas... Não vejo esta situação como imposição, antes um exemplo de coração aberto, de contacto humano puro e sem agenda...
O dom de receber a perspectiva alheia, só nos ajuda a construir uma imagem mais completa do que é viver. Eu próprio já vivi situações idênticas... quando este tipo de perspectiva colide com o momento que sentimos... é como experienciar arte, a "nossa" arte.

Lia Bettencourt disse...

por amor de deus...

kika disse...

Concordo com o fatagagas!Acho mesmo que quem lê o texto e diz que não queria saber da doença dele para nada...enfim...palavras para quê? Por essas e por outras é que nos deparamos com situações dessas...se mais pessoas estivessem dispostas a "dar uma palavrinha" ao senhor que vinha no comboio ele não sentiria necessidade de falar sobre a sua "doença"...e entenda-se que ele não estava doente...se doença é querer conversar,é querer ter um bocadinho de atenção...epá,então eu ando doente todos os dias! Excelente Adriano,gostei muito ;) Pena o teu texto ter interpretações tão pobres..beixinho*

Anónimo disse...

É curioso....eu, que venho do futuro, acho engraçado que no início dos tempos, o amigo Adriano escrevia pequenos textos com muita regularidade...e depois, faz textos grandes mas poucos e de muito em muito tempo...
Que terá acontecido? :)
Marta