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terça-feira, julho 04, 2006

O Homem Velho


Manuel é velho, e esse é o centro de todo o seu universo, ser velho é o que o define.
Se alguém realmente o olhasse sentado na sua cadeira com o seu ar desencantado, poderia reconhecer os ainda fortes contornos dos seus ombros ou as mãos que apesar de já não trabalharem, continuam duras, ásperas e grossas.
Manuel pensa no passado, já que o presente não lhe traz conforto, na sua vida lavrou a terra que lhe mandaram e matou na guerra para onde o enviaram, viu homens como ele a morrer ao seu lado sem aviso, casou, teve filhos e trabalhou durante longos meses em terras que lhe eram estranhas para que nada faltasse em casa.
Agora Manuel vive num sítio cheio de estranhos. Apesar de se reconhecer nos olhos da maioria, vive os mais longos dias de rotina prisional onde paga a ousadia de ter vivido tantos anos.
A casa que construiu com as suas mãos não existe mais e das terras que lavrou não se colhem mais frutos, Manuel viveu mais do que o seu mundo e agora é um estranho num sítio estranho.
Quando vê os seus netos nas raras visitas que recebe, diz-lhes que aproveitem o que a vida lhes dá, nos olhos deles reconhece uma expressão que já foi sua, agora é ele o velho, e os seus netos tal como ele muitos há muitos anos atrás, não têm tempo para os velhos.

2 comentários:

Duarte Grilo disse...

Lidando eu com textos deste género todos os dias, e lendo eu uns 3 livros, guiões, historias, por semana, atrevo-me a dizer que nao sentia tanto prazer na leitura e nao lia nada de tao genial faz uns 3 anos... Só espero que seja para continuar cada vez melhor!!!

Grande Urso!!!
you know what i mean!!!
Keep on the good work!
Um abração
Duarte Grilo

Maria Ninguém disse...

este da para ficar triste..
sempre tive pena das pessoas de mais idade..diz-se que é uma sorte chegar a tais idadese será realmente para alguns..mas para outros..vai ser assim como para o Sr Manuel..eu "ousou viver, adorei essa frase e a frase final..sao as duas que resumem todo o teu texto..fabulosamente descrito..imagino facilmente a Sr Manuel e facilmente me da vontade de o abraçar..
todos os dias quando ia para a escola secundaria fazia o memso caminho, tinha na verdade dois caminhos mas optava sempre pelo mesmo..nesse caminho enocntrava sempre uns velhinhus adoraveis que sorriam como se me beijassem cada vez que ouviam o meu Bom dia com um sorriso bem rasgado...e a mim...a mim sorria-m a alma por dentro so de saber o sorriso deles..por um simples bom dia da jovenzinha que por ali passava..coisas poucas, pormenores que para uns custam nada e para outros valem tanto..