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quarta-feira, julho 26, 2006

O Teu Grito


Cada um de nós tem um grito, descobrir o grito que se tem cá dentro é descobrires-te a ti próprio, é saberes quem és, a que é que soas até onde estás disposto a ir.
Quem não acha o seu grito terá de se resignar a uma vida de tom murmurado, tímido e esquecível, nunca estará seguro do que diz nem saberá da liberdade exultante que existe em encontrar o método o caminho e as pessoas simplesmente “deitando cá para fora” naquele tom que só te pertence a ti, afastando esse nevoeiro que esconde o que está mesmo à tua frente para agarrar.
O conforto no grito é também o conforto no sussurro, no murmúrio e na palavra doce. É a chave para o equilíbrio.
Aconselho a procura do grito descomplexado...esse que te liberta.

sábado, julho 15, 2006

Os Perus


Quando era um miúdo fiquei muito curioso em relação aos perus que a minha mãe decidiu criar, Quando se é uma criança de seis anos o galinheiro não desperta mais atenção do que tudo o resto, de certa maneira tinha-me já acostumado à presença das galinhas, mas estes novos e recém-chegados animais eram uma novidade, eram diferentes.
Havia muita coisa que tornava os perus mais interessantes do que as galinhas, eram maiores, mais coloridos e enchiam o quintal com sons desafiadores impossíveis de confundir, tinham aquele aspecto estranho e na altura da matança era sempre obrigatório embriagá-los primeiro para que as suas patas fortes e corpos maciços oferecessem menos resistência no momento em que a faca fazia o que as facas fazem.
Mas o que mais me intrigava nos perus era a relação deles com as urtigas, lembro-me da minha mãe colher grandes molhos de urtigas que aquelas ainda pequenas aves debicavam com apetite.
O mais surpreendente de tudo aquilo foi o que ela me revelou nesses tempos, aqueles pequenos perus não eram imunes às picadas da famigerada erva e se porventura um deles se picasse ao ingeri-la, uma morte certa o esperaria.
Não sei dizer se na altura fiquei desiludido por saber que aquela estranha ave na verdade não era imune àquela peste que tantas vezes nos picava as pernas, ou se pelo contrário senti um crescente respeito ao saber que mesmo vulneráveis e ainda pequenos, se arriscavam a tão trágico e repentino fim para desfrutar de algo que lhes agradava.
A verdade é que nunca mais os esqueci enquanto que das galinhas não reza a historia.

terça-feira, julho 11, 2006

O Pintor – Episodio 1 – “Prelúdio da Exposição”



Nunca uma exposição minha atraiu tanta gente, a notícia do meu comportamento errático depressa se espalhou e o lixo que produzi é objecto de grande curiosidade.
A arte estagnou há muito tempo, tornou-se um passatempo elitista de quem tem mais tempo livre do que merece. Todos procuram a algo de novo, não interessa que seja repugnante de tão vazio. Assim que entro na galeria sei automaticamente o que vai acontecer, idiotas pretensiosos em roupas ridículas vão-me partilhar as suas impressões das telas…vão utilizar estrangeirismos e comparações e encontrar um significado no lixo que se lhes apresenta…vão comentar o meu comportamento em sussurros…Mulheres que até aqui me ignoravam vão sentir-se intrigadas por mim…negociantes de arte aconselharão o meu trabalho dizendo que sou um Jim Morrison da pintura, usarão palavras como provocador, poético, evocativo e sexual…deixarão no ar a ideia de que morrerei novo e em êxtase como a minha obra…que serei indissociável da minha arte, que me tornarei uma estatua elegante jovem e rebelde para todo o sempre…”um óptimo investimento e rentável a curto prazo” dirão eles.
Esta maldita falta de lógica do mundo tem tanto de entediante como de previsível, caminhei entre os homens, amei carinhosamente mulheres que me traíram, fui bom, sensato e apaziguador, respeitei as leis dos homens escritas e não escritas, e no entanto a sabedoria e o amor pacífico não me foi devolvido.Hoje espezinho o chão com estrondo, sou rude e vulgar, não acredito no que faço e tão pouco assumo as consequências dos meus actos e no entanto nunca fui tão adorado como agora…Malditos sejam todos vocês!

sábado, julho 08, 2006

O Homem no Comboio


Numa tarde de um dia qualquer há uns anos atrás encontrava-me dentro da carruagem de um comboio a fazer a viagem que liga S. Bento a Aveiro, ia sentado sozinho a olhar pela janela quando um homem com passos lentos de muletas se senta à minha frente.
“Está tudo bem?” pergunta-me ele enquanto me olhava fixamente nos olhos, respondo-lhe que sim e ele diz-me “Quem me dera poder dizer que está tudo bem…Tenho uma doença que os médicos não conhecem”, o homem falava muito devagar e sem ritmo, não era velho nem jovem, alto ou baixo, nem gordo ou forte ou especialmente magro, segurava as muletas nas mãos e olhava-me fixamente com aqueles olhos azuis enormes sem qualquer tipo de embaraço ou qualquer outra expressão.
Não sabia o que lhe dizer, concordei com ele dizendo que era realmente uma situação difícil e que lhe desejava as melhoras, dito isto o homem levanta-se, despede-se e abandona a carruagem da mesma forma que nela entrou.Coisas que não significam nada podem adquirir um significado profundo se a isso estivermos predispostos.

Deus Conduz Um Automóvel

“Uma ave feliz” era como se podia caracteriza-la, pertencia à comum classe do pardal e na manhã de 10 de Março, encontrava-se nas imediações das arvores que se acostumou a frequentar.
Nessa manhã de 10 de Março pode-se dizer que dentro da sua limitada percepção de ave, este era um Pardal mais feliz do que o habitual, acabara de ter um encontro com uma fêmea e com ela nas imediações da estrada que liga a localidade de Lavos à de Franco no Município da Figueira da Foz, as duas aves dançavam a dança da reprodução, voando voos baixos em perseguição uma da outra, ensaiando manobras aéreas acrobáticas e pouco habituais, adaptadas à importância daquele momento, que será talvez o mais importante da sua vida até então.

Raios…Atrasado outra vez! Pensava o condutor enquanto acelerava mais do que o habitual. Enquanto conduzia com a sua mente ainda meia adormecida pela manhã, pensava em resoluções para se deixar de se colocar a si próprio na posição do funcionário frequentemente atrasado, “ O despertador do telemóvel não resulta mesmo…E também deveria deitar-me mais cedo e dormir mais horas…Mas porque raio transmitem a série “Perdidos” tão tarde?

Enquanto fazia a já habitual transição de culpar-se a si próprio, para culpar o ambiente, a sociedade, ou uma qualquer instituição, é interrompido durante um instante por um par de pardais que voam de forma descuidada e baixa no meio da estrada, sente perfeitamente o som do embate da ave no carro, pensa durante um segundo no cómico da situação, esboça um sorriso e continua a sua viagem que termina pouco depois.“Estou atrasado” pensa ele enquanto se precipita pelas escadas da empresa, sem saber que na grelha do seu Automóvel jaz um pardal que estava a ter o melhor dia da sua vida.

quarta-feira, julho 05, 2006

O Molhe


ELA – “É bonito isto aqui não achas?”
ELE – “É...Muito bonito, foi uma boa ideia vir cá.”
ELA – “Em que estas a pensar? Tas tão silencioso”
Diz ela enquanto repousa a cabeça no ombro dele.

Ele continua a mirar o horizonte, silencioso e concentrado como antes. Ele percebeu perfeitamente a pergunta e pela primeira vez na sua vida sente que teria uma resposta para ela, no entanto está demasiado a acontecer dentro de si e a toda a volta. Na verdade ele já tinha uma resposta para ela muito antes da pergunta ser feita, esta surgiu-lhe momentos depois da caminhada que conduz ao fim do molhe, quando finalmente se sentaram e sentindo-a encostada a si, conseguiu pela primeira vez viver o momento.
Esta resposta ela não ouvirá, encerrado em si próprio e em tudo o que estava a sentir ele decide no entanto responder-lhe em pensamento:

“Não me apetece falar, não podes antes ler-me os gestos?”
“Olha o que eu olho, vê as ondas a correrem para de seguida se partirem nas pedras”
“Cheira a maresia na brisa que sopra e sente-a pousar na tua pele...Estou feliz, dou por mim a ver tudo isto e sei que o devo a ti, vivo pela primeira vez...Despertei para o mundo e foste tu que me acordaste!”
“Devo-te tudo o que tem valor para mim.”

ELA – “Então amor?...Não estas a pensar em nada” Diz ela com a cabeça ainda pousada no seu ombro mas agora procurando os olhos dele com os seus.

Ele olha-a nos olhos por um segundo, esboça-lhe um sorriso e abraça-a com um braço apertando-a ainda mais para junto de si.

ELE – Estava a pensar que devíamos ir comer um gelado! Que achas amor?

terça-feira, julho 04, 2006

Ouvi por aí...


- (...)
- Tás a transformar-te num metódico do caraças!
- Ainda bem que falaste! Isso faz-me lembrar que está quase na hora da minha masturbação das 15:05!

A Máquina De Café


Dirijo-me à máquina de café assim que chego ao escritório, é assim à muitos anos, enquanto subo as escadas que dão acesso ao piso onde trabalho não é na minha agenda que penso mas sim no café quente que vou beber, no seu efeito despertador e na forma como o seu sabor combina de forma divina com o meu Ventil. Adaptei a minha vida, toda a minha rotina para que seja o primeiro a chegar à máquina de café, saio mais cedo de casa e dentro dos meus limites como aventureiro tentei alguns caminhos alternativos!
Vivo com um medo terrível... De um dia chegar ao escritório e a maquina não funcionar, de ser privado do sabor e do efeito a que me acostumei e do que acontecerá depois. O meu medo é real, sei que fatalmente isto irá acontecer e é esse o pensamento que me mantém acordado à noite com suores frios, sempre a mesma questão, o mesmo fim, e a mesma angústia, apenas mudam os actores e as situações, por vezes é um dos estagiários irresponsáveis do Design que no meio de uma correria provoca a queda da maquina, outras vezes é o maldito Silva da Contabilidade que numa provocação deliberada propõe a sua substituição por um modelo mais novo.
Todas as manhãs bebo o meu café, sabe-me a medo e permite-me que medo seja o que sinto, permite-me manter o meu trabalho e comportar-me de maneira adequada.
Ninguém sonha que não funciono sem aquele café, que sem ele não sou humano...que palavras escolherão quando diante dos seus olhos me transformar num monstro?

O Homem Velho


Manuel é velho, e esse é o centro de todo o seu universo, ser velho é o que o define.
Se alguém realmente o olhasse sentado na sua cadeira com o seu ar desencantado, poderia reconhecer os ainda fortes contornos dos seus ombros ou as mãos que apesar de já não trabalharem, continuam duras, ásperas e grossas.
Manuel pensa no passado, já que o presente não lhe traz conforto, na sua vida lavrou a terra que lhe mandaram e matou na guerra para onde o enviaram, viu homens como ele a morrer ao seu lado sem aviso, casou, teve filhos e trabalhou durante longos meses em terras que lhe eram estranhas para que nada faltasse em casa.
Agora Manuel vive num sítio cheio de estranhos. Apesar de se reconhecer nos olhos da maioria, vive os mais longos dias de rotina prisional onde paga a ousadia de ter vivido tantos anos.
A casa que construiu com as suas mãos não existe mais e das terras que lavrou não se colhem mais frutos, Manuel viveu mais do que o seu mundo e agora é um estranho num sítio estranho.
Quando vê os seus netos nas raras visitas que recebe, diz-lhes que aproveitem o que a vida lhes dá, nos olhos deles reconhece uma expressão que já foi sua, agora é ele o velho, e os seus netos tal como ele muitos há muitos anos atrás, não têm tempo para os velhos.

segunda-feira, julho 03, 2006

Sossega...


Pedro é um homem simples e este é o seu maior feito na vida, Neste mundo em que vivemos, fácil é ser complexo, ser um guisado de inseguranças, fobias e desencanto.
Livrem-se de pensar que Pedro não é inteligente ou até sensível, Pedro até gosta poesia só que nunca a escreveria, ele prefere vivê-la...
È elucidado o suficiente para saber quem realmente é e o que vale a pena perseguir neste mundo em que vivemos... Com essa naturalidade, conheceu a sua mulher, facilmente lhe reconheceu a inquietude de quem precisa de ser cuidada, e dela cuidou como um homem cuida de uma mulher, também ele se abriu para ela com o tempo, camada após camada ela continua a ser surpreendida, continua a descobrir coisas novas sobre ele e o mistério impele-a a recebe-lo à porta todos os dias mal sente os seus passos, já passou tanto tempo...ela ainda corre

O Cão De Cerâmica


Quando confrontado com o que considerava ser uma peça de um mau gosto aberrante, Jorge decide comentar o mau gosto do amigo (Artur) que não via desde os tempos de faculdade

J – Um cão de cerâmica? Todos os anos gastos na faculdade a desenvolver um suposto espírito crítico e uma certa cultura de bom gosto na verdade não serviram de nada?
A – A Laica?... Este belíssimo exemplo de arte ocidental? É dos meus objectos preferidos.
J – Tenho a certeza que “A Laica” é tão ocidental quanto o Sumo! Não me admirava nada se lhe encontrasse um enorme “Made in China” algures.
A – Sabes Jorge, depois de vários anos à procura de algo acabei por chegar a uma linha de pensamento simples, “Existem poucas coisas realmente importantes na vida e para que esta tenha algum significado devemos procurar a beleza e o conforto nas coisas”.
J – Para mim essa peça parece tão confortante quanto um tumor nos testículos!
A – Libertei-me das convenções...já não escuto o que um qualquer crítico gay do outro lado do Atlântico tem a dizer acerca de como deve estar disposta a minha sala.
Acredito que exista uma espécie de gosto universal...uma espécie de programação orgânica que conduza uma grande maioria de pessoas a identificar um conjunto de linhas ou uma certa disposição de objectos como harmoniosa. Mas tenho a certeza que não existe uma fórmula de felicidade, esse para mim é um projecto unipessoal.
Aprendi a apreciar este cão de cerâmica, enchi-o de beleza e hoje em dia oferece-me bastante conforto, para além do facto de que tem um sentido muito prático, penduro muitas vezes o chapéu na Laica, assim sei sempre onde está.

Porque È Que Eu Adoro Serviços De Apoio Ao Cliente


Como tive um problema com a minha ligação à Internet decidi ligar para a linha de apoio ao cliente, claro que por esta altura todo o meu corpo tremia já de antecipação, que bom que vai ser! Pensava eu, foi mesmo para isto que adquiri uma ligação à Internet, para encetar conversas estimulantes ao telefone com perfeitos estranhos mal pagos que estão a trabalhar ao sábado à tarde, Sentindo-me de novo com 6 anos, pulei até ao telefone imaginando já múltiplos cenários agradáveis que terminavam ora em gargalhadas de grupo, em tardes na esplanada a beber joy laranja ou até em agradáveis serões à lareira com a rapariga do callcenter.
Adoro ouvir grandes êxitos da musica Pop em flauta, acho muito agradável, e penso até que a acústica do telefone lhe dá uma sonoridade especial ainda mais prazenteira chegando mesmo a competir com musica de natal nos altifalantes do hipermercado num sábado á tarde, por isso tenho que agradecer o facto de terem-me presenteado com 20 minutos de verdadeira terapia sonora, foi o tempo perfeito para rever as minhas questões, torná-las o mais fofas possíveis e colocar a minha voz num tom o mais simpático possível ajustado á época Natalícia.
Para mim, ligar para o serviço de apoio ao cliente, é um pouco como fazer amor, não é a realização que este proporciona que é importante, mas sim o convívio.

Gengivas Sangrentas


João era um escritor e na sua busca de novos escritos tornou-se um homem demasiado fechado, o que acontecia à sua volta era sempre analisado segundo múltiplas perspectivas com o intuito de assim chegar a uma verdade maior, João gradualmente abandonou a o olhar e o reagir e passou a observar e a reflectir.
Com o tempo João tornou-se cada vez menos conversador, no Café sentava-se na mesma mesa com as mesmas pessoas de sempre, no entanto bebia as suas bebidas e fumava os seus cigarros de forma silenciosa.
Fumava cada vez mais enquanto os seus pensamentos viajavam nas questões sobre as quais escrevia, interessava-lhe escrever sobre como o Mundo forçava tantas gentes à loucura e a actos estranhos, interessava-lhe a Sociedade da Informação, a Mecanização do Homem, As Depressões, As Relações Humanas e todos os Comportamentos Humanos de Autodestruição, Comiseração e Violência Gratuita.
Uma noite ao chegar à sua casa vazia reparou que os cigarros lhe estavam a tingir os dentes de amarelo, pegou na sua escova e dentífrico e enquanto os escovava pensava os pensamentos do costume em silencio tendo apenas como barulho de fundo o som da escova a roçar os dentes.
Sem disso fazer ideia João esfregava os dentes de forma compulsiva há já 37 minutos, gotas de sangue escorriam-lhe pela boca e misturavam-se com a espuma da pasta, alheio a tudo João continuava a escovar os dentes enquanto focava um ponto invisível no azulejo, no canto da sua casa de banho junto ao bidé jazia o espelho que partira na noite anterior.

O Início

Este momento marca o lançamento do espaço “A Esquina”, este será um espaço de exposição de momentos, opiniões e de basicamente tudo o que estas personagens entenderem como publicável.
Não será de maneira alguma um espaço homogéneo, a diversidade de neuroses foi algo propositadamente procurado e o comentário por parte dos visitantes será sempre tolerado e em alguns casos até bem-vindo.
As esquinas são entendidas como cantos, como o encontro de duas paredes ou ruas, a esquina propriamente dita é um espaço independente e sem nome, um santuário não catalogado apenas baptizado pelas pessoas que por aí habitam e nunca pelos poderes instituídos.As esquinas são mal frequentadas...E ainda bem.