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domingo, outubro 15, 2006

"O Lobo Solitário" - Homenagem a José Lobo

Sou um grande amigo do José e foi com grande pesar que soube da morte da sua mãe.
Não o soube por ele, mas também não o estranhei, por estes lados um funeral não é uma festa e o José sempre foi uma daquelas pessoas que partilha de bom grado as alegrias mas que encerra em si as tristezas. Um bom homem.
Um funeral é uma cerimónia à qual não faço questão de chegar cedo, quando cheguei encarei com uma imagem que na sua simplicidade descrevia o íntimo do José e do que nos habituámos a gostar nele, ele lá estava, alto e direito com os seus ombros largos e constituição forte, o rosto dele estava direito e seguro e nenhuma lágrima lhe escorria pela face quadrada, a mulher dele com os olhos molhados procurava-lhe as mãos e os olhos e numa expressão de suplica e de conforto parecia tentar retirar alguma emoção dele mas tudo o que conseguiu foi um olhar terno e triste com o qual ele parecia se desculpar pelo seu modo fechado de ser.
No fim da cerimónia depois de quase todos terem partido tive finalmente o meu momento com o José, ele não estava muito comunicativo, mas disse-me que nessa mesma noite ele queria juntar os rapazes do costume, no sítio do costume para uma “noite cigana”.
Noite cigana é um conceito criado por um grupo de 6 rapazes à anos atrás quando eram ainda bastante jovens, em certas noites estes embrenhavam-se nas florestas locais e aí montavam um acampamento no qual se faz um fogo, se bebe, e se luta. As fileiras sofreram algumas alterações durante os anos, mas o núcleo duro manteve-se e apesar de actualmente passarem-se meses entre essas noites mágicas, nenhum destes agora homens por momento algum sequer considerou que as noites tinham acabado.
Nessa noite bebemos e recordámos…Recordámos de porque é que estamos ali e os nossos espíritos arderam tanto quanto a fogueira que acendemos, exaustos e intoxicados batemo-nos em lutas e sangrámos… O vinho, o sangue e a lama cobriam-nos e sentimo-nos tão vivos e fortes como quando éramos miúdos que procuravam um sentido.
Num momento mais sossegado da noite vi o José a afastar-se do acampamento, ia de peito nu e sujo com uma garrafa na mão direita e parecia focar um ponto invisível na floresta escura que se estendia à sua frente, naquele momento preocupei-me e dirigi-me a ele, perguntei-lhe se estava bem e onde ia, foi aí que ele me disse:
- “Foi uma grande noite e sinto-me um homem de sorte de vos ter aqui comigo…Sinto uma grande dor e sei que tenho que a tenho que deitar para fora, tenho de o fazer porque estou vivo e agora que estou aqui com vocês tenho a certeza disso… E para poder continuar a ser o homem que sou para aqueles que amo preciso de me vencer, tenho de contrariar a minha natureza e expulsar a dor que encerrei no peito”
Olhei-o a afastar-se enquanto desaparecia pela floresta adentro, imagino-o a caminhar até se sentir só e aí finalmente quebrar a armadura que lhe pesa no peito, imagino-o a chorar as lágrimas sem testemunhas…imagino o Lobo a uivar.