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segunda-feira, maio 07, 2007

193 dias

Cheguei à hora planeada sem qualquer tipo de percalços, deixei as malas no carro e permiti-me uma ultima mirada no reflexo lustroso do meu automóvel, estava muito satisfeito com o fato novo que acabara de comprar e ajeitei o nó da gravata ao estatuto de impecável.
Entrei em casa, encarei-a por um momento e disparei sem hesitações o tiro que lhe explodiu no olho direito.
Esse foi o ponto alto de um plano por mim desenvolvido e do qual me orgulho muito, sem duvida um excepcional exercício de organização, e sem qualquer tipo de duvidas vos digo que planear a morte da minha esposa e a minha posterior migração livre de embaraços legais foi talvez dos projectos mais aliciantes que levei a cabo.
Aquando do clímax da sua morte, contabilizavam-se exactamente 193 dias que sabia da sua conduta adúltera, descobri por acaso um dia em que por questões profissionais não segui a minha habitual rota de quarta-feira e a vi a sair de um motel pendurada no pescoço de um sujeito, ora rindo, ora beijando-o de forma sôfrega.
Nessa noite, o que me foi mais chocante foi reparar que tudo estava igual…Ela chegou à mesma hora de sempre, não estava nem mais nem menos comunicativa, e o jantar decorreu sem qualquer incidente…Tive de concluir que o adultério durava há muito tempo e na manhã seguinte comecei de imediato a planear.
Hoje em dia, normalmente depois das minhas leituras da tarde, penso por vezes no que poderia ter feito diferente, pequenos ajustes que poderia ter feito no plano… Eu sei, perfeccionismo é sem duvida a minha máxima, no entanto, permitam-me só partilhar este pensamento que me surgiu completamente por acaso quase imediatamente após vê-la tombar no chão com o ar surpreendido que viria a ser a sua máscara fúnebre, achei engraçado o facto de depois de em ocasiões várias ela me acusar de ser previsível e rotineiro, fosse eu a dar-lhe a sua derradeira e maior surpresa de todas.
Lembro-me de abandonar a casa que um dia chamei de nosso lar de sorriso nos lábios e pensar:

“Os Calculistas fazem as melhores surpresas”

8 comentários:

Fonsini Martini disse...

Amigo... depois destas palavras só tenho mais uma:

BRUTAL!!!

Abraço
Fonsini Martini

p disse...

Que bela surpresa! Um bocadinho à Tarantino, porém... bj

Coccinellidae disse...

A ilustre leitora P roubou-me as palavras...
Tu estas um Tarantino...Ja te tinha dito que isso de acordares as 5h40 para veres o Kill Bill antes de ires trabalhar haveria de dar as suas recompensas! E ai esta... Um confissao brilhante... Rest in Peace Pamela!!

second thoughts disse...

estou curiosa quanto ao teu destino após esta confissão.. tens noção que este espaço é pseudo-publico e que, por um mero acaso, pode passar aqui algum agente da autoridade e transformar o teu 193 como "confissão virtual"?? isto já sem falar nos teus comentadores que facilmente podem ser julgados como cúmplices cibernauticos (ups.. mas espera.. também me podem incluir neste rol.. :|)

;)

*muito bom!

lu disse...

Se alguém aqui conhecer um Adriano, podem-lhe pedir o favor de me contactar?
Muito obrigada. xx

Gala disse...

mudei de sítio, agora estou aqui

beijinhos

delicatenose disse...

As pessoas afivelam uma máscara, e ao cabo de alguns anos
acreditam piamente que é ela o seu verdadeiro rosto. E quando a gente
lha arranca, ficam em carne viva, doridas e desesperadas, incapazes
de compreender que o gesto violento foi a melhor prova de respeito
que poderiamos dar. Miguel Torga

Coccinellidae disse...

Escreve...Tenho saudades dos teus textos! ;)