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quarta-feira, dezembro 05, 2007

Bons Rapazes

Qualquer designer de interiores teria um colapso nervoso se entrasse aqui e imagino que em termos feng shuianos este seja realmente um sítio de más energias, porém, até onde os meus olhos alcançam é relativamente limpo e o único sítio que conheço onde se pode comer um prego no prato e uma bilha de vinho, da casa claro, por apenas 4,5 € onde se incluí ainda as melhores natas do céu da Cidade e café.
Para se realmente apreciar um estabelecimento destes deve-se sentar ao balcão após a refeição, pedir mais uma bilha e meter conversa com os empregados, só assim, ao falar com estes homens de meia idade, de bigodes mais velhos do que eu e vozes destiladas se pode ter acesso aos factos. De que outra forma poderia eu saber que nunca na história deste país alguém alguma vez bebeu mais vinho do que os condutores de comboios dos anos 60 e 70? Como poderia eu saber, que neste preciso momento, em sítios como Póvoa do Lanhoso caminham ainda homens capazes de beber 5 Lt. de vinho em questão de minutos e não vacilar?... Não poderia, Titãs caminham a Terra, eles andam por aí nas suas camisas de flanela a pairarem sobre balcões onde o cheiro do ajax se mistura com o do vinho, em intensas orgias de tinto, fritos e sueca.
Nós somos um pequeno punhado de rapazes, bons rapazes claro, dispostos a chafurdar na lama para que não se esqueça que esta gente existiu, temos um equilíbrio ajustável de rudeza e sofisticação que nos permite caminhar em ambos os mundos e testemunhar, no fim ao cabo somos umas bestas elegantes, e o entusiasmo com que mordemos malaguetas com um angolano qualquer que nos abraça porque somos os primeiros brancos que ele conhece que sabem o que é gindungo, é o mesmo com que discutimos questões humanistas.
No final da noite, enquanto conduzimos a 190 Km hora numa auto-estrada aos gritos, não é o álcool que nos arde nas veias, nem é tampouco o cavalgante rock electrónico que ressoa nas colunas. É o sermos novos, o fogo somos nós… E nesta profunda irmandade, vivemos as outras vidas com que a maioria apenas sonha.