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segunda-feira, dezembro 08, 2008

Condição Humana - I.A.

Sou um homem, nasci indefeso e dependente dos laços que me prendem desde o ventre da minha mãe.
Sou um produto do meu ambiente, a educação que recebi, o sítio onde cresci, o que me foi oferecido e aquilo de que me privaram fizeram de mim o que sou hoje.
Mas não só, há mais mistério em mim e em todos os outros, não sou a soma de umas partes, nenhum homem é conta certa, a minha alma nada quer com a matemática, e não se compromete com a harmonia que parece reger a natureza que nos pariu a todos.
Somos todos filhos das estrelas, mas a constatação desse facto faz de nós diferentes das outras grandes bestas que caminham a Terra. O nosso engenho é maior, mas maior é também a nossa dor, somos o trágico bicho que sonha, mas que sabe que morrerá.
Então sonhamos mais… Esquecemos a sentença embriagados em mais sonhos de prazer, poder e conhecimento, esquecemos a morte e procuramos a imortalidade (essa força maior que pertence apenas ao Universo) dos nossos nomes, obras e actos.
Também sei que o Mundo não nos pertence, já há muito que pulsava vida quando o primeiro homem sonhou com o conceito de Propósito, e continuará a viver quando os últimos de nós chorarem a sua miséria.
E nem esta Grande Esfera, este chão onde piso, este sol que nasce todos os dias, escaparão desta fragilidade que nos une, tudo perecerá, é só uma questão de tempo… Nem essa ilusão nos resta.
Por isso somos assim, eternamente confusos com o nosso papel, “Porquê saber estas coisas que não podemos controlar?”, não faz sentido nas nossas mentes fanfarronas, cheias da vaidade típica de quem domina sem concorrência.
Nunca saberemos, possivelmente não existe uma razão, talvez não sejamos assim tão especiais e importantes, talvez não haja um propósito maior à nossa espera além das estrelas ou nos Divinos que inventamos. Vivemos em dúvida, dúvidas profundas que nos dilaceram por dentro e que fazem de nós crianças perigosas, somos o elemento caótico do mundo.
O caos habita realmente em nós, o tipo de caos que faz de um aluno de artes um comandante louco assassino de milhões. As nossas mentes libertaram-nos, mas os grandes mistérios persistem, e por maior que seja o nosso engenho, nunca conseguiremos criar algo que não dominamos nem percebemos.
Todas as nossas máquinas são e sempre serão reflexos pálidos e básicos da complexidade humana.
Ideias de máquinas que amam e que se emocionam são mais sonhos tolos das mesmas mentes que imaginaram Deuses e a Astrologia.
Homem! Sonha mas não te iludas! Queres fazer máquinas amar quando tu próprio não controlas o amor?

domingo, outubro 12, 2008

Jazz Gritante

Jazz Gritante

Entras assim, histérica e de cabelo desgrenhado, atiras a porra dos sapatos na minha direcção e a parede recebe o golpe que me era destinado, oferecia-te uma bebida mas acho que já tomaste o suficiente.
Deduzo que te estás a pôr confortável, melhor assim descalça? Assim com esses pés perfeitos no meu soalho sujo?
Que diz esta mulher? Os lábios dela mexem, vejo perfeitamente que chocam um no outro, sei que está a insultar-me de alguma forma e que as palavras se lhe atropelam da boca para fora já pintadas pelo vermelho do batom.
Agora puxa os seus próprios cabelos, enquanto chamas vindas dos olhos incendeiam a sala, caminha furiosamente junto à mesa, e enquanto o faz o vestido negro roça-lhe nas coxas perfeitas.
Que faz ela agora? Um segundo atrás sentia-lhe o cheiro de perfume e tabaco enquanto se movia, agora está quieta e chora lágrimas que logo ficam negras do rímel dos olhos, escorrem-lhe lentamente pela cara como se estivessem a apreciar cada segundo da viagem.
Preparo um copo para mim e carrego no play, um jazz gritante e rápido invade a sala e quando me volto para ela, continua a olhar para mim, mas é um fogo diferente. Que criatura esta… Tão desesperadamente incompleta, tão carente e instável, tão estúpida e perigosa. Puxo-a para mim com uma mão na cintura e outra no pescoço, prendo-a num beijo longo e violento e fodemos ao som dos sopros furiosos da música.

Não ouvi uma palavra do que disse, mas o cheiro dela é musica para os meus ouvidos.

terça-feira, outubro 07, 2008

O beijo salgado de Outubro

Entrei sozinho numa praia de Outubro, e com passos lentos mas firmes avancei pela areia até ao mar com os meus olhos presos no horizonte.
Pelo caminho, despia o fato negro que me pesava nos ombros, foi com ele que me despedi de ti e pesa-me mais aqui e agora do que qualquer outro peso que já tive de suportar.
Entrei nas águas frias e escuras, e atrás de mim o sol quente tenta-me a deitar-me na areia. Digo-lhe que não, avanço com abandono e mergulho.
E então… Sinto a escuridão, a ausência de som, e todo o meu corpo envolto pelo abraço frio do mar. Deixo-me levar, sinto o meu último fôlego preso dentro de mim, aguento-o até ao limite e depois aguento um pouco mais, despeço-me da dor, da insegurança, despeço-me da fraqueza.
E então tu minha mãe, senhora do mar, empurras-me de volta para a superfície e dizes-me que sou o teu filho favorito, falas com orgulho de mim, beijas-me mil vezes, dizes-me que não há bem nem mal e contas-me pedaços de tudo o que ainda me espera.
Quando te despediste de mim deixaste-me um sorriso tão aberto quanto forte, nas minhas costas direitas os ombros tornaram-se mais largos, fiquei mais alto e o cabelo molhado escorria-me pela cara de onde os meus olhos brilhavam mais do que nunca.

Enquanto fazia o caminho de volta, as palavras da minha mãe ainda ressoavam nos meus ouvidos: “Estás pronto para ser o homem que sempre soubeste que serias” e eu beijo-a ternamente na minha pele, e com um sorriso nos lábios sinto-lhe o sabor salgado.

sexta-feira, setembro 19, 2008

Solo Sagrado

Pudesse eu abdicar do oxigénio e sobreviver de dióxido de carbono, para que cada fôlego meu fosse antes teu, e que cada encher de peito carregasse tudo aquilo que és por dentro e que me escapa enquanto me perco nos pormenores do teu rosto, da tua voz e da tua pele.
És Solo Sagrado, aqui e agora és perfeita, e eu, penitente e comovido pela fé comungo de ti todos os dias, ajoelho-me no altar da minha devoção e rogo para que o mundo não corrompa o nosso amor...
-Consegues sentir? Consegues sentir o meu amor? Pergunta-lhe ele no escuro enquanto a aperta de encontro a si.
Ela diz-lhe que sim, mas não é verdade.

quinta-feira, junho 12, 2008

O Meu Amor Louco Pela Mulher Serpente

Os olhos dela são vivos e electrizantes e atraem-me como o placar luminoso do único bar na cidade mais quente do mundo. E se esta mulher fosse um bar, serio o tipo de sítio onde toda a gente quer espreitar mas onde poucos têm coragem de entrar.
Por um instante observo-a escondido, deleito-me neste instante mágico tentanto talvez entendê-la. Daqui estou perto o suficiente para a admirar da cabeça aos pés, e longe o suficiente para não lhe sentir o perfume venenoso que me prende a cada olhar e palavra sua.
É inutil, não sou mais senhor de mim, cada momento sem a tocar é tortura, e sem que me possa valer estou já a caminhar as brasas que me separam dela.
“ Miles Runs the Vodooo down”, é esse tipo de feiticaria que ela fez gritar dentro de cada nervo no meu corpo. Ela é todas as mulheres da história que alguma vez destruíram um homem, juro aqui e agora que foi sempre ela todos estes anos e lugares, aposto que se recolhe em buracos frescos durante as horas mais quentes, e que percorre a terra no fresco da noite, mudando de pele conforme lhe convém.
Também eu vou cair, sou um bom soldado numa missão suicida, amar esta mulher com loucura é a minha missão, e o resto pode ir para o inferno.