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terça-feira, outubro 07, 2008

O beijo salgado de Outubro

Entrei sozinho numa praia de Outubro, e com passos lentos mas firmes avancei pela areia até ao mar com os meus olhos presos no horizonte.
Pelo caminho, despia o fato negro que me pesava nos ombros, foi com ele que me despedi de ti e pesa-me mais aqui e agora do que qualquer outro peso que já tive de suportar.
Entrei nas águas frias e escuras, e atrás de mim o sol quente tenta-me a deitar-me na areia. Digo-lhe que não, avanço com abandono e mergulho.
E então… Sinto a escuridão, a ausência de som, e todo o meu corpo envolto pelo abraço frio do mar. Deixo-me levar, sinto o meu último fôlego preso dentro de mim, aguento-o até ao limite e depois aguento um pouco mais, despeço-me da dor, da insegurança, despeço-me da fraqueza.
E então tu minha mãe, senhora do mar, empurras-me de volta para a superfície e dizes-me que sou o teu filho favorito, falas com orgulho de mim, beijas-me mil vezes, dizes-me que não há bem nem mal e contas-me pedaços de tudo o que ainda me espera.
Quando te despediste de mim deixaste-me um sorriso tão aberto quanto forte, nas minhas costas direitas os ombros tornaram-se mais largos, fiquei mais alto e o cabelo molhado escorria-me pela cara de onde os meus olhos brilhavam mais do que nunca.

Enquanto fazia o caminho de volta, as palavras da minha mãe ainda ressoavam nos meus ouvidos: “Estás pronto para ser o homem que sempre soubeste que serias” e eu beijo-a ternamente na minha pele, e com um sorriso nos lábios sinto-lhe o sabor salgado.

5 comentários:

Lia Bettencourt disse...

a despedida mais digna que se pode imaginar.

deixa cair esse manto e trás ao ar essa pelezinha nova mas definitiva que te vai cobrindo a carne viva.

Sara disse...

Toda a despedida encontra-se munida de vários sentimentos, cada uma com o seu devido teor, umas menos nobres que outras, contudo sempre dificeis, por mais que não queiramos enfrentar essa faceta.

A renovação intrinsecamente ligada à despedida, convola-nos em seres diferentes, não melhores, nem piores, apenas diferentes, eventualmente com um gosto salgado.

Retrato e personificação da despedida dignos dos bons escritores que hodiernamente pisam o nosso chão.

Pedro Santos Cardoso disse...

Andas a escrever muito bem, pá.

Killer_Doll disse...

Muito fixe :D

Anónimo disse...

:)
Eu acho que consegues pôr-nos lá, nos sítios e momentos que falas :)
Marta