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domingo, outubro 12, 2008

Jazz Gritante

Jazz Gritante

Entras assim, histérica e de cabelo desgrenhado, atiras a porra dos sapatos na minha direcção e a parede recebe o golpe que me era destinado, oferecia-te uma bebida mas acho que já tomaste o suficiente.
Deduzo que te estás a pôr confortável, melhor assim descalça? Assim com esses pés perfeitos no meu soalho sujo?
Que diz esta mulher? Os lábios dela mexem, vejo perfeitamente que chocam um no outro, sei que está a insultar-me de alguma forma e que as palavras se lhe atropelam da boca para fora já pintadas pelo vermelho do batom.
Agora puxa os seus próprios cabelos, enquanto chamas vindas dos olhos incendeiam a sala, caminha furiosamente junto à mesa, e enquanto o faz o vestido negro roça-lhe nas coxas perfeitas.
Que faz ela agora? Um segundo atrás sentia-lhe o cheiro de perfume e tabaco enquanto se movia, agora está quieta e chora lágrimas que logo ficam negras do rímel dos olhos, escorrem-lhe lentamente pela cara como se estivessem a apreciar cada segundo da viagem.
Preparo um copo para mim e carrego no play, um jazz gritante e rápido invade a sala e quando me volto para ela, continua a olhar para mim, mas é um fogo diferente. Que criatura esta… Tão desesperadamente incompleta, tão carente e instável, tão estúpida e perigosa. Puxo-a para mim com uma mão na cintura e outra no pescoço, prendo-a num beijo longo e violento e fodemos ao som dos sopros furiosos da música.

Não ouvi uma palavra do que disse, mas o cheiro dela é musica para os meus ouvidos.

terça-feira, outubro 07, 2008

O beijo salgado de Outubro

Entrei sozinho numa praia de Outubro, e com passos lentos mas firmes avancei pela areia até ao mar com os meus olhos presos no horizonte.
Pelo caminho, despia o fato negro que me pesava nos ombros, foi com ele que me despedi de ti e pesa-me mais aqui e agora do que qualquer outro peso que já tive de suportar.
Entrei nas águas frias e escuras, e atrás de mim o sol quente tenta-me a deitar-me na areia. Digo-lhe que não, avanço com abandono e mergulho.
E então… Sinto a escuridão, a ausência de som, e todo o meu corpo envolto pelo abraço frio do mar. Deixo-me levar, sinto o meu último fôlego preso dentro de mim, aguento-o até ao limite e depois aguento um pouco mais, despeço-me da dor, da insegurança, despeço-me da fraqueza.
E então tu minha mãe, senhora do mar, empurras-me de volta para a superfície e dizes-me que sou o teu filho favorito, falas com orgulho de mim, beijas-me mil vezes, dizes-me que não há bem nem mal e contas-me pedaços de tudo o que ainda me espera.
Quando te despediste de mim deixaste-me um sorriso tão aberto quanto forte, nas minhas costas direitas os ombros tornaram-se mais largos, fiquei mais alto e o cabelo molhado escorria-me pela cara de onde os meus olhos brilhavam mais do que nunca.

Enquanto fazia o caminho de volta, as palavras da minha mãe ainda ressoavam nos meus ouvidos: “Estás pronto para ser o homem que sempre soubeste que serias” e eu beijo-a ternamente na minha pele, e com um sorriso nos lábios sinto-lhe o sabor salgado.