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quinta-feira, outubro 28, 2010

Mensagem do Alto da Montanha

Aqui estamos.
Ninguém seguiu senão a voz interior que decidiu não mais ignorar, não vos falo com uma agenda política nem com sonhos bêbados de poder ou de que o meu nome sobreviva aos meus ossos. Falo-vos porque também eu subi esta montanha e porque jurei a mim mesmo nunca mais me privar da minha razão e de dizer o que sinto.
Estou aqui porque como vocês não poderia continuar a viver lá em baixo em atmosferas controladas, confortos debilitantes e irresponsabilidade total para com tudo o que é intrinsecamente bom, honesto e natural.
Quero liberdade, quero ser responsável pelos meus actos, quero uma carga maior nos meus ombros e ser mais forte, lutar contra a adversidade e vencer e fazer do amor o meu entretenimento.
Não somos uma multidão, nem que falasse para 6 biliões de rostos como os vossos sentiria que falava para uma horda ignorante e seguidora, não há nem nunca haverá uma bandeira atrás de mim, esta é uma revolução pessoal e a salvação está dentro de cada um de nós, não é mais do que viver com coragem e amor.
Lá em baixo ainda se vive da mesma forma, também nós fomos criados lá, atirados para um mundo que não construímos e para uma vida que nunca quisemos, aqui temos uma escolha, um sonho novo e a possibilidade de sermos melhores.
As cidades de lá de baixo crescem enquanto a merda de milhões corre debaixo dos seus pés, que pensarão os seus habitantes quando tudo transbordar pelas ruas e perceberem que os seus sapatos de camurça não os protegem das ondas de imundice que os soterram? Não me alegro com a sua desgraça nem me compadeço com a sua fraqueza, sonho apenas que também eles subam uma qualquer montanha sem que seja por medo.

terça-feira, setembro 14, 2010

Limbo

“…De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações, e a compreensão profunda de estar sentindo…
Uma inteligência aguda para me destruir, e um poder de sonho sôfrego de me entreter…
Uma vontade morta e uma reflexão que a embala, como a um filho vivo…”
Extraído de “O Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa.

Talvez tenha parado de sonhar acordado para agora me manter num estado desperto mas indiferente, sou surdo à música do mundo que sei que existe mas que não assobio.
Cego ao pormenor, distingo o dia da noite sem preferidos e piso um chão anónimo que me parece sempre o mesmo. Caminho pelo espaço vazio que não me resista mas não sei se avanço ou recuo, encho a barriga sem prazer nem gosto e durmo um sono tumular numa sepultura sem nome.
Sou a sepultura do meu maninho, o primogénito morto, baptizado à pressa na pia do consultório do doutor para que não fosse para o limbo.
Enterrado tristemente na terra, nem no mármore branco o seu nome perdura, e porque o seu dia de vida lhe não deu ossos merecedores de serem chorados, outras sepulturas ocupam agora o seu lugar.
Querido irmão, eu que vivo porque tu não, que tenho os ossos que tu não tiveste, não tenho a alma que anunciaste, essa escorreu pela pia do doutor e a mim sobra-me o limbo de que te livraste…

Nós os dois juntos não chegamos a ser um.

quarta-feira, julho 28, 2010

Bruto



Sou um lutador, um homem bruto e consumido pela violência, todo e qualquer outro traço que me reconheçam para além deste é vossa imaginação ou um fingimento meu, e porque sou assim, porque nasci para isto, não há outro resultado possível no ringue para além da tua destruição ou da minha, quem entrar no meu território deverá saber que não quero apenas ganhar, boxe não é um jogo, eu não sou um jogador e as consequências são muito reais.
“Podes encontrar a tua morte aqui rapaz” – Basta que o teu corpo não te proteja e não vás à lona antes de te esmurrar até á morte, ou que o arbitro, essa suposta consciência do publico não tenha a agudeza de te salvar antes que eu te tenha onde quero.
Por isso senhores não sejam tão rápidos a julgarem-me, na verdade tenho uma licença para matar, foi-me oferecida pela vossa sociedade, a destruição de homens é um espectáculo largamente apreciado e os vossos supostos valores são suspensos debaixo da jurisdição maior do lucro. Por isso vamos todos deixar de fingir civilização, esta hipocrisia envenena-me e impede-me de ser ainda mais forte e rápido do que sou hoje.