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terça-feira, setembro 14, 2010

Limbo

“…De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações, e a compreensão profunda de estar sentindo…
Uma inteligência aguda para me destruir, e um poder de sonho sôfrego de me entreter…
Uma vontade morta e uma reflexão que a embala, como a um filho vivo…”
Extraído de “O Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa.

Talvez tenha parado de sonhar acordado para agora me manter num estado desperto mas indiferente, sou surdo à música do mundo que sei que existe mas que não assobio.
Cego ao pormenor, distingo o dia da noite sem preferidos e piso um chão anónimo que me parece sempre o mesmo. Caminho pelo espaço vazio que não me resista mas não sei se avanço ou recuo, encho a barriga sem prazer nem gosto e durmo um sono tumular numa sepultura sem nome.
Sou a sepultura do meu maninho, o primogénito morto, baptizado à pressa na pia do consultório do doutor para que não fosse para o limbo.
Enterrado tristemente na terra, nem no mármore branco o seu nome perdura, e porque o seu dia de vida lhe não deu ossos merecedores de serem chorados, outras sepulturas ocupam agora o seu lugar.
Querido irmão, eu que vivo porque tu não, que tenho os ossos que tu não tiveste, não tenho a alma que anunciaste, essa escorreu pela pia do doutor e a mim sobra-me o limbo de que te livraste…

Nós os dois juntos não chegamos a ser um.

1 comentário:

Anónimo disse...

Muito bom!
E adoro a referência inicial...
Ele(s) e a Espanca são as minhas mais fortes :)
Marta