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domingo, outubro 23, 2011

Sangue

Sangue que escorre pelo chão escuro,

Sangue que flui por um caralho duro.

Sangue acusador nas mãos do culpado,

Sangue que jorrará do homem revoltado

Sangue do sexo de uma fertilidade que não dura,

Sangue de eucaristia que é vinho e que cura.

Sangue que te anima e te traz até mim,

Sangue que te envenena e será o teu fim.

Sangue do do meu sangue mas diferente do meu, herança carnal de alguém que morreu.

Diz-me:

Se sou um milagre e a minha vida sagrada,

Quanto darias por um pouco do meu?

Nada.

quinta-feira, outubro 20, 2011

Paloma

Ela chegou à hora habitual, o motor parou, uma beata voou pelo vidro do condutor e ela saiu do carro. Trancou electronicamente as portas e enquanto dava os primeiros passos as suas mãos procuravam na mala que lhe pendia do cotovelo esquerdo um qualquer bolso secreto que a bem da ordem e organização definiu como recipiente das chaves.

No decorrer desta acção o rosto pende-lhe numa diagonal, olhos menos atentos assumiriam que procura algo na mala, mas não os meus, sei que é mais frágil nas manhãs, que lhe custa a adormecer e que sonha toda a noite.

A esta hora os seus belos olhos verdes ressentem-se da luz do sol, mas é ainda pior quando está nublado como hoje, a camada branca do céu lembra-lhe os lençóis da cama o que inconscientemente torna a realidade de que está vestida, penteada e calçada num facto confuso e desconfortável.

Em breve entrará pela porta com os óculos escuros ainda postos e os seus lábios articularão todos os bons dias que não poder evitar, nesta altura o seu passo é já acelerado e ritmado à força dos elegantes saltos que usa, o cabelo pende-lhe longo e insidioso pelos ombros e agita-se com o impacto corajoso dos seus passos.

Que terá acontecido entretanto? Terão chilreado os pássaros? Estará por ventura um incêndio a decorrer na Serra que flanqueia a cidade? Alguém terá chamado em vão pelo meu nome?

Não sei, não posso garantir, mas sei quantos passos deu do carro até à porta, antes de a ver uma última vez. A porta faz um estrondo ao fechar-se e regozijo-me ainda com o som, não porque é belo mas porque foi a sua mão que o provocou.

Como pode o amor usar vestido e fumar Marlboro lights? Como pode a minha alma ter abandonado o conforto do meu corpo para servir de chão para os seus pés?

Nos meus sonhos não te amo Paloma e apenas nos sonhos dos meus sonhos me atrevo a ver amor nos teus olhos feridos pela luz das manhãs.

Nos sonhos dos meus sonhos trato deles com beijos curativos que te fazem chorar e sorrir ao mesmo tempo.

Nos sonhos dos meus sonhos és feliz.

sábado, setembro 10, 2011

Ossos

Não consigo estar ao sol, o segundo em que sinto o calor na pele penso que a temperatura não mais parará de aumentar, que os meus cabelos arderão em nuvens de fumo nauseabundo. Levanto-me em pânico buscando a sombra, qualquer saída desesperada onde não há nem fumo, nem dor, nem medo.
A dor manifesta-se na forma de um grito que nas suas nuances emita as labaredas do fogo. Até que o fôlego acaba e o último respirar é o do fumo de mim mesmo, e assim me consumo num deturpado e vicioso ciclo da vida, aninhado na mesma posição fetal em que nasci.
De quem seriam aqueles ossos brancos e inocentes que ali repousam onde visivelmente alguma coisa ardeu. Onde alguma coisa se perdeu...
Que força os terá animado um dia, e porque cresceram para perecerem agora?
"Chorem-me os ossos amigos..." - Parecem eles dizer, "E perdoem a carne fraca que os escondia".

quarta-feira, março 02, 2011

Metástases

Controlo total…

Atrevo-me a dizer que o vento não e mais que o movimento dos meus cabelos e que as luzes da cidade são o fundo para a acção que protagonizo. Sou o grande plano, a acção a decorrer, o actor principal no culminar do filme e que todos vocês me acompanham a mim, que esquecem as vossas vidas e que vivem para o meu próximo momento.

Aproximo-me da beira do prédio e olho para baixo, penso em como mudarei ainda a vida de alguém estatelando-me a seus pés, imagino-te uma criança de 4 anos, chamas-te Ana e pensaras que sou um anjo caído dos céus, e para sempre serei a tua primeira memória, a de um anjo quebrado e ensanguentado na calçada.

Olho para cima, está uma noite agradável para Fevereiro, passaram-se 2 horas desde que parou de chover, e a cidade tem o cheiro fresco de um carro acabado de lavar. Tantas estrelas… Gostava de ter aprendido algumas constelações, mas e daí para que?

Respiro fundo, lembro-me da noite em que me apaixonei pela primeira vez, ela era linda e gostou de mim, falamos durante toda a noite, entre 2 whiskies beijou-me com ternura e todo eu tremi. Ela quis-me, mas nós os solitários adiamos o prazer, na minha cabeça precisava de sonhar pelo menos uma vez contigo… Perdoa-me por isso. Quando nos despedimos estavas aflita e urinaste ali mesmo a minha frente no parque de estacionamento, amei-te mais do que nunca.

Expiro…

Penso no meu falecido pai esse homem triste, depois de morto soube que era uma mulher presa num corpo de homem e que toda a vida quis usar um vestido. Devias tê-lo feito pai, mas como poderias tu saber que o teu filho cresceria para ser um daqueles tipos que não se choca com nada? Como irias tu saber que ninguém se importa e de que quem se afirma importar, mente! Não podias adivinhar que serias um auto-proclamado infeliz.

Reflicto no tumor, de como cresceu e se espalhou pelo meu corpo, de como tudo é estranho e difícil e de que apenas a dor e real e as enfermeiras não nos olham nos olhos.

Como terá ele surgido? Foi algo que eu fumei? Algo que não fiz? E terrível não saber e aperceber-me que posso ter sido feliz durante anos enquanto morria por dentro.

Suspiro…

Apercebo-me que neste importante e único momento sou o único no mundo que sabe exactamente o momento em que nasci e aquele em que morrerei. Faz de mim o candidato perfeito para escrever a minha biografia.

Adeus meus amigos, adeus meus pobres sonhos órfãos…

Eu sei quem vocês são.