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quinta-feira, outubro 20, 2011

Paloma

Ela chegou à hora habitual, o motor parou, uma beata voou pelo vidro do condutor e ela saiu do carro. Trancou electronicamente as portas e enquanto dava os primeiros passos as suas mãos procuravam na mala que lhe pendia do cotovelo esquerdo um qualquer bolso secreto que a bem da ordem e organização definiu como recipiente das chaves.

No decorrer desta acção o rosto pende-lhe numa diagonal, olhos menos atentos assumiriam que procura algo na mala, mas não os meus, sei que é mais frágil nas manhãs, que lhe custa a adormecer e que sonha toda a noite.

A esta hora os seus belos olhos verdes ressentem-se da luz do sol, mas é ainda pior quando está nublado como hoje, a camada branca do céu lembra-lhe os lençóis da cama o que inconscientemente torna a realidade de que está vestida, penteada e calçada num facto confuso e desconfortável.

Em breve entrará pela porta com os óculos escuros ainda postos e os seus lábios articularão todos os bons dias que não poder evitar, nesta altura o seu passo é já acelerado e ritmado à força dos elegantes saltos que usa, o cabelo pende-lhe longo e insidioso pelos ombros e agita-se com o impacto corajoso dos seus passos.

Que terá acontecido entretanto? Terão chilreado os pássaros? Estará por ventura um incêndio a decorrer na Serra que flanqueia a cidade? Alguém terá chamado em vão pelo meu nome?

Não sei, não posso garantir, mas sei quantos passos deu do carro até à porta, antes de a ver uma última vez. A porta faz um estrondo ao fechar-se e regozijo-me ainda com o som, não porque é belo mas porque foi a sua mão que o provocou.

Como pode o amor usar vestido e fumar Marlboro lights? Como pode a minha alma ter abandonado o conforto do meu corpo para servir de chão para os seus pés?

Nos meus sonhos não te amo Paloma e apenas nos sonhos dos meus sonhos me atrevo a ver amor nos teus olhos feridos pela luz das manhãs.

Nos sonhos dos meus sonhos trato deles com beijos curativos que te fazem chorar e sorrir ao mesmo tempo.

Nos sonhos dos meus sonhos és feliz.

1 comentário:

Anónimo disse...

Do meio para o fim ganhou uma cor diferente!
Gosto!
Marta