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quarta-feira, março 02, 2011

Metástases

Controlo total…

Atrevo-me a dizer que o vento não e mais que o movimento dos meus cabelos e que as luzes da cidade são o fundo para a acção que protagonizo. Sou o grande plano, a acção a decorrer, o actor principal no culminar do filme e que todos vocês me acompanham a mim, que esquecem as vossas vidas e que vivem para o meu próximo momento.

Aproximo-me da beira do prédio e olho para baixo, penso em como mudarei ainda a vida de alguém estatelando-me a seus pés, imagino-te uma criança de 4 anos, chamas-te Ana e pensaras que sou um anjo caído dos céus, e para sempre serei a tua primeira memória, a de um anjo quebrado e ensanguentado na calçada.

Olho para cima, está uma noite agradável para Fevereiro, passaram-se 2 horas desde que parou de chover, e a cidade tem o cheiro fresco de um carro acabado de lavar. Tantas estrelas… Gostava de ter aprendido algumas constelações, mas e daí para que?

Respiro fundo, lembro-me da noite em que me apaixonei pela primeira vez, ela era linda e gostou de mim, falamos durante toda a noite, entre 2 whiskies beijou-me com ternura e todo eu tremi. Ela quis-me, mas nós os solitários adiamos o prazer, na minha cabeça precisava de sonhar pelo menos uma vez contigo… Perdoa-me por isso. Quando nos despedimos estavas aflita e urinaste ali mesmo a minha frente no parque de estacionamento, amei-te mais do que nunca.

Expiro…

Penso no meu falecido pai esse homem triste, depois de morto soube que era uma mulher presa num corpo de homem e que toda a vida quis usar um vestido. Devias tê-lo feito pai, mas como poderias tu saber que o teu filho cresceria para ser um daqueles tipos que não se choca com nada? Como irias tu saber que ninguém se importa e de que quem se afirma importar, mente! Não podias adivinhar que serias um auto-proclamado infeliz.

Reflicto no tumor, de como cresceu e se espalhou pelo meu corpo, de como tudo é estranho e difícil e de que apenas a dor e real e as enfermeiras não nos olham nos olhos.

Como terá ele surgido? Foi algo que eu fumei? Algo que não fiz? E terrível não saber e aperceber-me que posso ter sido feliz durante anos enquanto morria por dentro.

Suspiro…

Apercebo-me que neste importante e único momento sou o único no mundo que sabe exactamente o momento em que nasci e aquele em que morrerei. Faz de mim o candidato perfeito para escrever a minha biografia.

Adeus meus amigos, adeus meus pobres sonhos órfãos…

Eu sei quem vocês são.