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sábado, dezembro 15, 2012

Madeira, Terça-feira

Enterraram-te a uma terça-feira.
A terra foi sendo despejada sobre o teu caixão, o som ecoava pela madeira, e eu de olhos fechados era agora os teus ouvidos, era até a tua morte, tu já eras nada.
O luto, a cerimónia, todas estas lágrimas, tudo isto é para mim... Pode-se até fazer um enterro sem um corpo, mas alguém tem de cavar a sepultura.
Para mim há ainda tudo, há nada, e há principalmente uma imensidão de coisas medianas e esquecíveis.
Para ti nem "ti" há, não existes, talvez nunca tenhas existido, luto contra esse pensamento recordando-te em vida, por um instante quase que te consigo cheirar, mas por quanto mais tempo? 
E que serás tu quando o coração que  te amou parar também? Que milagre és tu ou eu quando tudo depende deste músculo bombeador de sangue que a terra há-de comer?
Não há um significado profundo nesta terça-feira, foi só mais um mundo que acabou, e o que é um mundo num universo infestado de estrelas que implodem e explodem queimando todos os vestígios de Deuses, Calendários e Propósitos.
"Meu Deus" - Pensei eu, " Quanto mais tempo vou eu aguentar esta merda? Que é isto que chamam de amor? E como é suposto eu aprender seja o que fôr quando tudo muda numa constante e ensurdecedora dança de vida e de morte?"

segunda-feira, outubro 01, 2012

O Viajante do Tempo


Sou um viajante do tempo, não consigo estar num lugar,
Não me preocupa o sustento, apenas quero sonhar.
Mas nesta vida há um contratempo, e esse não vai mudar,
Que fazer com este momento, se não é nele que quero ficar?

Astronauta de diferentes eras, cavaleiro de outros tempos,
Nas viagens não busco ouro, somente sentimentos.
Persegui essas emoções, procurava uma amada,
Amei mais de cem mulheres, mas não senti quase nada.

Parei então num ano qualquer e chorei junto a um rio.
“Também ele corre” – Pensei, “mas não busca nada, será esse o desafio?”
Senti então a quietude, e olhei à minha volta.
Tudo mexe, tudo é vida, somente isso importa.

Refleti em todas as viagens, naquela busca incessante e sem fim,
Procurei as respostas lá fora, quando estavam dentro de mim.
Pensei ter visitado o futuro, mas a minha mente estava doente,
Como podia ser o futuro, se no momento eu estava presente?

Ri da minha inocência, e não mais pensei no assunto,
Que interessa o passado, se não passa de um Presente defunto?
Agora vivo tranquilo, livre da doença do tempo,
Tudo o que temos é isto, este preciso momento.

domingo, setembro 23, 2012

Conversa entre dois bons rapazes – A Carne



- Olá meu irmão.  (Os 2 homens abraçam-se)
- Então? Vamos já passar a coisas sérias, onde vamos almoçar? Hoje és tu a decidir e espero que tenhas feito o trabalho de casa.
- Claro, claro. Descobri um sítio bem satisfatório, diária, pão, 75cl de terrível vinho da casa e café, tudo por 4,5€.
- Bom, bom… E que diária?
- Depende do dia.
- Conceito brilhante. Apetece-me um bife com batatas fritas, que tal é a carne lá?
- Parece-me morta. Já não como carne há 6 semanas mas pelo que vi parece adequadamente grelhada. Não gostei porém do aspeto da entremeada…
- O quê?!
- Era demasiado grosseira e peluda no courato, na minha opini…
- Não é isso, já voltamos à entremeada. Como assim “Não comes carne”, porque é que não haverias de “Comer carne”?
- Não sei, um dia olhei para o frango de churrasco à minha frente e não me consegui abstrair do facto de que aquilo era um cadáver.
- Cruzes Credo, já te apanharam não foi?
- Ninguém me apanhou, aconteceu, nesse dia o pensamento surgiu-me na cabeça e deixei de ter apetite por carne.
- Meu caro… Sabes onde estaríamos nós hoje sem carne? Escuta isto meu rapaz, foi a inclusão de carne na nossa dieta que permitiu o desenvolvimento dos nossos cérebros  para a sua gloriosa forma atual, carne é evolução, ao não comeres carne estás a travar a evolução e vais gerar crianças mais estúpidas que tu.
- Só se saírem à mãe, pretendo casar com uma mulher bem estúpida.
- Acabaste por te redimir por completo com esse comentário, mas cuidado, é bem possível que a tua ironia te abandone conforme te fores embrenhando nessa floresta de mariquice vegetariana. Detestaria ver-te transformado num chato.

sábado, setembro 08, 2012

Estrelas

Final de uma tarde de verão, o sol parece baixar sobre a terra, a luz ganha uma tonalidade amarela e líquida onde tudo aparenta ser mais nítido e o contorno de todas as coisas mais visíveis.
Eu corro. Tento não pensar que corro, as pernas sabem o que fazer, elas imitam-me o folego que me imita o coração.
Toda a beleza do mundo passa diante dos meus olhos, em breve o sol vai pôr-se por completo e as estrelas surgirão brilhantes contrastando com o fundo de veludo negro da noite.
Penso nas estrelas, naquelas cuja luz aínda viaja até aos nossos olhos apesar da sua morte distante, penso em como é pequeno o meu entendimento e relativa a noção de tempo.
Se as estrelas olharem-me de volta, talvez me vejam já morto ou quem sabe aínda por nascer...
E num espaço mágico que nunca começou e jamais acabará, todo o passado, presente e futuro não são mais do que a mesma coisa mas com outro nome, e se aí houverem olhos, que me vejam sempre nos teus braços, e que escolham sempre esse momento, onde o nosso amor vive para sempre.

terça-feira, agosto 28, 2012

Poema Falhado


Manhã:

De olhos que não cabem numa cor e boca onde quero morar, é teu o rosto de que eu gosto e porque sinto a tua falta, invejo os cabelos que te abraçam a face e roçam no pescoço.
São lindos, mas inconscientes ou não se desprenderiam nunca de ti.


Tarde:

Gostar de ti é como respirar.
É um reflexo.
Intrinsecamente ligado à vida.
Profundo.
É algo que acontece.
Natural.

E tal como na respiração, quando me ponho surdo ao mundo e me concentro nela.
Há uma paz que me invade, e a vida parece-me melhor.


Noite:

Que os teus sonhos sejam sempre doces, e que os teus dias os imitem.
E que imitação seja tão perfeita que a tua vida só possa ser descrita como um sonho

quarta-feira, julho 25, 2012

Pensamento


As nuvens aceleram num fundo azul, o vento empurra-as de tal modo que se parecem a uma avalancha que se precipita sobre mim, o único tipo de avalancha possível neste clima temperado.
O relógio dá as horas e o calendário dá os dias, são contabilizados desde que assim se decidiu, o tempo selvagem resiste ainda em algumas coutadas protegidas, mas não aqui. Todos temos tempo, todos queremos mais, alguns sabem o que fazer com ele, a maioria vai matando-o até o sentir precioso.
Porque é que só o escasso é precioso?
Alguém incendiou a nossa floresta, as chamas alastram-se de árvore em árvore e colunas de fumo sobem aos céus, alguém grita “Salvem a minha casa” enquanto eu em silêncio me indago se este foi um crime passional.
Ouço um homem que não acredita em nada que vê na televisão e em tudo o que vê na Internet, ele diz que somos carneiros, deixo de o ouvir, nem uma só palavra é do seu intelecto e deixo a minha mente vaguear no que será ser um carneiro.
Não fiz os meus agasalhos, nunca plantei nada nem tampouco cacei, sou o produto do meu ambiente, um homem urbano, uma belíssima planta de plástico – Superficial, prática e fundamentalmente errada.
Falo com uma mulher, ela sofre como todas as mulheres, a sua beleza apela a algo genuíno em mim, falo-lhe do coração mas ele não percebe. Digo-lhe que o amor é um lugar estranho onde académicos discursam numa língua morta – Ela não responde e o silêncio deixa-a desconfortável.
A vida continua, eles continuam a comer sem ter apetite e a foder sem sentir desejo,  orbitando  à volta de um sol de dor.  
Num mar de possibilidades afogam-se em copos de água.

domingo, julho 01, 2012

O Fim


Esta é a noite em que vamos morrer,
 E este é um sítio construído para se beber.
Poças de mijo nos cantos da sala,
Balcão cravejado de buracos de bala.

Há no ar um pronúncio de morte,
A musica é alta e a bebida  forte.
Todo o bar está infestado de odores,
Os homens são ladrões, assassinos e pescadores.

Ela dança sozinha no centro da pista,
Sobre a mancha no chão onde esfaquearam o pianista.
A sua pele é branca e os cabelos lisos,
Tem nos lábios carnudos promessas de sorrisos

Dança com volúpia sem nunca parar, sofre dançando em vez de chorar.

Com a coragem do whisky num mundo condenado,
Levanto-me do balcão com urgência e gana,
Toco-lhe o ombro, estou mesmo a seu lado,
Sua boca sussurra-me o nome: “Joana”.

A promessa é cumprida e a fé recompensada – Os seus sorrisos são meus.
Um amor começa enquanto o mundo acaba – Chove fogo dos céus.

Abraço-a com força, sinto-lhe o calor…
Teve um mundo de acabar para conhecer-mos o amor.
Toco-a no rosto e pego-lhe no queixo,
Há ainda tempo para um último beijo…

Boca com boca, pele com pele,
O mundo arde e nós ardemos com ele,
Acaba a ganância, o medo e a dor,
Morre a arte e morre a vida e no fim o amor

sábado, junho 23, 2012

Pensa Nisto


Quanto de ti é mesmo teu?
Sabes o que sentes neste momento e porquê?
 Pensas a vida? Pensas de todo? Refiro-me a levar uma questão até ao fim da tua capacidade, fazer esse esforço extra, és capaz de tal coisa ou sentes um súbito ímpeto que te faz ligar a televisão ou qualquer outra coisa que não te deixe sozinho?
Consegues estar sozinho? Realmente sozinho?
Decidir por ti? Quantas das tuas decisões foram baseadas no medo que sentes?
És honesto? Sabias que ser livre é não ter de mentir?
Já pensaste na beleza? Que é para ti o amor? Uma palavra que se usa em canções e convenientemente rima com dor?
De que é que precisas? Já o tens? Estás disposto a lutar por isso?
Se não precisares de muito não há muito que te possam tirar.
Alguma vez pensaste no conceito de arte ou em qualquer outro conceito abstracto?
O que é para ti isto de estar vivo? Sentes-te amadurecer? Pensas no que será morrer?
Achas que és sempre o mesmo ou mudas com as marés?
Sentes realmente alguma coisa ou finges os sintomas?
Se te perderes que não seja para sempre, se não te achaste continua à procura, a grande decisão da tua vida é esta:
Queres ser ou basta-te aparentar?