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quarta-feira, fevereiro 15, 2012

O Artista

A televisão ligada num qualquer programa de biologia mostrava o que parecia ser o bom sangue vermelho a acelerar pelas artérias, fixei a imagem por um instante e lembro-me de pensar que aquilo tinha o ar de um acidente à espera de acontecer, e sim refiro-me à vida, não ao que tu fazes desde que acordas até que te deitas, mas sim a feitiçaria, a força que animou o sangue, que animou o coração, que voltou a animar o sangue. “Não faz sentido, teve de haver um primeiro sopro, algum tipo de empurrão” – lembro-me de ter pensado, e nesse segundo quase tive Fé.

A aparelhagem tocava a 9ª de Beethoven aos gritos e a força da música era quase palpável, a luz jorrava pelas janelas, e as paredes estavam cobertas de recortes de imagens e anotações: “Fotografar a ruína da casa da avó Paulina e relacionar a imagem com o bolicao que arde sem se desintegrar, incorruptível, sexual”; “ O metal que escorre do sangue da boca do cão, 1º de Maio de um ano qualquer”.

Não pude deixar de sorrir ao ler, afinal, que tipo de mente poderia conjurar tal combinação de palavras? E já agora, aquela imagem de um chimpanzé a conduzir um descapotável amarelo com Charles Bukowski do seu lado, enquanto Mao Tse Tsung grita “ME SO HORNY” do banco de trás.

Completa e total loucura, porém saudável. Não sei se é de toda esta luz, ou do cheiro a laranjas no ar que ele insiste em comer todos os dias, mas tudo aquilo me pareceu correcto, lógico até… Senti que todo o mundo arderia antes da chama dele se extinguir, que toda a sua energia se transformaria sempre em algo que perdura e atrai. Pareceu-me que ao contrário do resto de nós ele era de facto um artista.

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