Blogs Portugal

quinta-feira, abril 26, 2012

Morte de Cão


Deito-me inquieto e acordo cansado, saúdo a manhã com uma tosse profunda que expulsa os últimos resquícios dos sonhos que esqueço de imediato, contra os meus melhores instintos deixo-me ficar na cama mais uns minutos que me esgotam ainda mais e inevitavelmente levanto-me sobressaltado com a mesma sensação de corpo dorido que me acompanha à meses. A pele nervosa queixa-se ao contacto e apesar de ainda novo nos meus 30 anos sei no meu íntimo que estou a morrer.

No trabalho que naturalmente desprezo existem vários tipos de pessoas, alguns deles dir-se-ia que vão viver para sempre e como tal não se afligem especialmente em passar alguns anos a fazer a mesma coisa, a ter a mesma conversa e a vomitar a mesma ladaínha uma e outra vez.

Estes imortais em espirito e em número têm uma diferente percepção do tempo, para eles o presente prolonga-se como a linha do horizonte e o futuro esse começa daí a 1, 5 ou mais anos.

Deus abençoe as suas largas costas pois nelas assentam a ganância do mundo e que os Anjos permitam que seu corações se mantenham medrosos o suficiente para que não se revoltem.  Aos Santos peço que mantenham as suas mentes toscas e os braços fortes para que produzam e consumam, produzam e consumam, daqui até ao infinito.

Eu não, eu estou a morrer, e na morte imitarei os cães. O cão nem sempre vive bem, mas morre sempre digno, um bicho que não priva em nada na vida mas que procura morrer sozinho só pode saber algo que os homens não compreendem.

Talvez eles saibam que a vida é para se viver em conjunto, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza.

Até que a morte nos separe.

1 comentário:

Anónimo disse...

Pois...infelizmente ainda estou cingida ao meu trabalho, repetitivo, monótono e em nada semelhante a mim....
E por isso, também sinto isso...a morte...
Marta Moreira Lopes