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quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Bendita

No outro dia pensei em ti…

Quem quero enganar? Penso em ti todos os dias, foste desenhada para isso, para me tirar os olhos da estrada e o sabor da comida.

Maldita mulher, punha-te defeitos se não te amasse tanto, mas tudo o que te consigo dizer é que sei quantas vezes me mentiste e o quanto isso no final de contas não importava.

Lembro-me de tentar olhar-te nos olhos e de pensar para mim próprio “Ela não é assim tão bela, tem olhos pequenos e rancorosos”, disse isto a mim próprio como se um mantra fosse, mas não resultou, era tarde demais para mim, estava irremediavelmente apaixonado.

Não pense o mundo que isto é poesia, com essas folhas ela assoou o seu perfeito narizinho, foi mais uma coisa boa que me deixaste, a perfeita certeza de que não volto a escrever de amor já que deixaste bem claro que não resulta.

Escreverei sobre o frio que está, os trocos que levo no bolso ou a expressão comovente de um cão vadio, poderei até falar do cheiro das tuas coxas ou fantasiar com o peso da faca com que te matei um dia num sonho teu.

Não te digo mais:

“Que te compreendam os outros, a mim cabe-me amar-te” ;

“Sou um surdo-mudo, aluno chumbado da matemática divina que te fez, do doce engano que te criou”;

“Não te conseguiria beijar sabendo que esta é a última vez”;

Digo-te que és uma coisa que aconteceu e acontece ainda, que te cheiro mesmo debaixo de todos os perfumes e que estar dentro de ti é como chegar a casa depois de quase morrer no mar.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

O Artista

A televisão ligada num qualquer programa de biologia mostrava o que parecia ser o bom sangue vermelho a acelerar pelas artérias, fixei a imagem por um instante e lembro-me de pensar que aquilo tinha o ar de um acidente à espera de acontecer, e sim refiro-me à vida, não ao que tu fazes desde que acordas até que te deitas, mas sim a feitiçaria, a força que animou o sangue, que animou o coração, que voltou a animar o sangue. “Não faz sentido, teve de haver um primeiro sopro, algum tipo de empurrão” – lembro-me de ter pensado, e nesse segundo quase tive Fé.

A aparelhagem tocava a 9ª de Beethoven aos gritos e a força da música era quase palpável, a luz jorrava pelas janelas, e as paredes estavam cobertas de recortes de imagens e anotações: “Fotografar a ruína da casa da avó Paulina e relacionar a imagem com o bolicao que arde sem se desintegrar, incorruptível, sexual”; “ O metal que escorre do sangue da boca do cão, 1º de Maio de um ano qualquer”.

Não pude deixar de sorrir ao ler, afinal, que tipo de mente poderia conjurar tal combinação de palavras? E já agora, aquela imagem de um chimpanzé a conduzir um descapotável amarelo com Charles Bukowski do seu lado, enquanto Mao Tse Tsung grita “ME SO HORNY” do banco de trás.

Completa e total loucura, porém saudável. Não sei se é de toda esta luz, ou do cheiro a laranjas no ar que ele insiste em comer todos os dias, mas tudo aquilo me pareceu correcto, lógico até… Senti que todo o mundo arderia antes da chama dele se extinguir, que toda a sua energia se transformaria sempre em algo que perdura e atrai. Pareceu-me que ao contrário do resto de nós ele era de facto um artista.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Lê-me

Lê-me como se eu fosse uma voz na tua cabeça, a minha voz de homem na tua cabeça de mulher, adivinha as pausas nas palavras, interpreta os silêncios e pelo amor de Deus imagina-me com estilo.

Percebe-me, compreende-me, mas não o dês a entender, guarda algum do mistério, melhor ainda, revela-o um pouco assim aos poucos… Mas livra-te de o fazeres de forma ritmada, pois vou perceber o padrão, sou um filho da mãe brilhante disfarçado de filho da puta mediano.

Engana-me e arrepende-te! Faremos a dança juntos. Eu finjo-me magoado e triste, pinto um retracto realista de um homem com alma, de um homem que se importa com quem fodes, vamos fazê-lo querida, sairemos melhores desta experiência, está cientificamente provado que pessoas melhores ardem e decompõem-se melhor.

Casa-te comigo, teremos crises de meia-idade, tatuagens aos 40, mota aos 50 e amantes toda a vida. Anda ter filhos idiotas, fazer viagens idiotas imortalizadas em fotografias idiotas que se perderão com um vírus idiota no teu computador idiota porque passas demasiado tempo em sites não fidedignos a ver pornografia, seu idiota.

Segura a minha mão enquanto morro meu amor, diz-me que fui um bom homem, mente-me minha querida e eu juro que te devolvo o favor.