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quarta-feira, julho 25, 2012

Pensamento


As nuvens aceleram num fundo azul, o vento empurra-as de tal modo que se parecem a uma avalancha que se precipita sobre mim, o único tipo de avalancha possível neste clima temperado.
O relógio dá as horas e o calendário dá os dias, são contabilizados desde que assim se decidiu, o tempo selvagem resiste ainda em algumas coutadas protegidas, mas não aqui. Todos temos tempo, todos queremos mais, alguns sabem o que fazer com ele, a maioria vai matando-o até o sentir precioso.
Porque é que só o escasso é precioso?
Alguém incendiou a nossa floresta, as chamas alastram-se de árvore em árvore e colunas de fumo sobem aos céus, alguém grita “Salvem a minha casa” enquanto eu em silêncio me indago se este foi um crime passional.
Ouço um homem que não acredita em nada que vê na televisão e em tudo o que vê na Internet, ele diz que somos carneiros, deixo de o ouvir, nem uma só palavra é do seu intelecto e deixo a minha mente vaguear no que será ser um carneiro.
Não fiz os meus agasalhos, nunca plantei nada nem tampouco cacei, sou o produto do meu ambiente, um homem urbano, uma belíssima planta de plástico – Superficial, prática e fundamentalmente errada.
Falo com uma mulher, ela sofre como todas as mulheres, a sua beleza apela a algo genuíno em mim, falo-lhe do coração mas ele não percebe. Digo-lhe que o amor é um lugar estranho onde académicos discursam numa língua morta – Ela não responde e o silêncio deixa-a desconfortável.
A vida continua, eles continuam a comer sem ter apetite e a foder sem sentir desejo,  orbitando  à volta de um sol de dor.  
Num mar de possibilidades afogam-se em copos de água.

domingo, julho 01, 2012

O Fim


Esta é a noite em que vamos morrer,
 E este é um sítio construído para se beber.
Poças de mijo nos cantos da sala,
Balcão cravejado de buracos de bala.

Há no ar um pronúncio de morte,
A musica é alta e a bebida  forte.
Todo o bar está infestado de odores,
Os homens são ladrões, assassinos e pescadores.

Ela dança sozinha no centro da pista,
Sobre a mancha no chão onde esfaquearam o pianista.
A sua pele é branca e os cabelos lisos,
Tem nos lábios carnudos promessas de sorrisos

Dança com volúpia sem nunca parar, sofre dançando em vez de chorar.

Com a coragem do whisky num mundo condenado,
Levanto-me do balcão com urgência e gana,
Toco-lhe o ombro, estou mesmo a seu lado,
Sua boca sussurra-me o nome: “Joana”.

A promessa é cumprida e a fé recompensada – Os seus sorrisos são meus.
Um amor começa enquanto o mundo acaba – Chove fogo dos céus.

Abraço-a com força, sinto-lhe o calor…
Teve um mundo de acabar para conhecer-mos o amor.
Toco-a no rosto e pego-lhe no queixo,
Há ainda tempo para um último beijo…

Boca com boca, pele com pele,
O mundo arde e nós ardemos com ele,
Acaba a ganância, o medo e a dor,
Morre a arte e morre a vida e no fim o amor