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quarta-feira, abril 10, 2013

Morrer no Éden



Ele dizia-se escritor, e tenho de lhe fazer justiça, ele de facto parecia um escritor, havia nele uma sensação de peso, não que fosse gordo de facto era até elegante, mas as costas curvavam-se-lhe quando sentado numa mesa do bar, fumava em cadeia e oscilava entre o tipo mais divertido que podes encontrar no café a uma terça-feira à noite, e o dono da mais perturbadora e profunda incapacidade de se relacionar com alguém, nessas noites as pálpebras tremiam-lhe num tique nervoso – “Tens demasiado vento dentro de ti” Disse-lhe uma vez uma mulher que fazia acupuntura, “Faz sentido” Disse ele, “Toda esta merda de vento tem de ir para algum lado”.
Dizia que não conseguia deixar de pensar que estava a morrer, que estava a ser envenenado aos poucos, que a televisão lhe fritava o cérebro, que a pornografia o castrava, que o ar condicionado lhe secava a pele, que todo o álcool e fumo o cegavam e principalmente as pessoas, todas essas malditas pessoas, todas elas queriam alguma coisa dele, ele conseguia ver o que era e aparentemente a avassaladora superficialidade de tudo aquilo tirava-lhe até o ânimo para chorar.
Olhando para ele eu diria que os escritores estão entre os tipos mais sensíveis de toda a superfície terrestre, as ideias, imagens, tudo lhes penetra a alma com mais facilidade, reconhecem toda a beleza e horror do mundo e isso transforma-os. Compreendem cada argumento, cada ato de loucura, todos os gestos de amor, a música da poesia, o significado de cada silêncio e no meio de tudo acabarão por ser nada, e isto acontece porque não há escolha possível.
“Estou no Éden” disse-me ele já louco aos meus olhos, “Sei que posso levar uma flor daqui, mas como posso eu escolher? Percebes o que quero dizer? Prefiro morrer aqui no jardim… Mas se voltar ao mundo quero imitar os gatos, espero dormir debaixo do sol e arriscar muito mais debaixo das estrelas, quero que todas as fases da lua me reconheçam e que lutar, amar e viver sejam uma única coisa.

2 comentários:

Anónimo disse...

Seriam dois escritores à conversa numa mesa de café, ou apenas um confrontando/reconhecendo o seu lado lunar?
E o gato sempre apareceu!
As estrelas estão sempre no céu, mas escondidas por uma Luz maior durante o dia...o gato pode arriscar sempre, nesse sentido...será que precisa da noite para lutar, amar e viver melhor?
Com Luz, somos mais transparebntes :) e as flores ganham uma outra cor, mais intensa e os podres também se manifestam tornando a escolha mais fácil!
Marta

ophelia disse...

O que esse escritor parece desconhecer é que o "mundo" é muito melhor do que o Éden. É real e a beleza das coisas é palpável e não imaginada. Se ele continuar no Éden, nunca há-de saber verdadeiramente apreciar a beleza da vida, e irá sempre esconder-se atrás de um gato sorridente, mas que no fundo... pouco mais faz por si do que dormir.