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segunda-feira, junho 17, 2013

Monólogo



Ouçam-me agora ou nunca, homens, mulheres, meninos e meninas, venham ver a besta que dança e grita, aproximem-se, estes não são tempos para timidez.
Que fará ele perguntam-se vocês? Irá ele masturbar-se freneticamente como um símio em cativeiro? Poderá o seu olhar louco e raiado de sangue ser um indicador de um saudável e frequente consumo de drogas?
Talvez ele se suicide ritualmente – Pensará este público? Talvez haja uma picadora 123 algures e quem sabe, com um pouco de sorte ele ligue essa sacaninha à tomada mais próxima e se transforme diante dos vossos olhos no maior bife tártaro humano alguma vez processado num palco. Digam-me lá que não seria uma tremenda elevação do teatro nacional? Uma homenagem visceral a tudo o que a antiga Roma tinha de mais humano? Sinto as vossas vibrações, reconheço o brilho dos vossos olhos, vejo até uma ou duas ereções de onde estou e deixem-me que vos diga…
Todos vocês, sem exceção, são doentes por pensar essas coisas.
Esperava mais de uma tão composta plateia de católicos não praticantes, talvez um pouco de compreensão e amor para este vosso irmão. Afinal de contas não somos todos filhos bastardos de Deus? Não somos todos igualmente não desejados? Deus, o omnipotente, eterno e sádico puto de 12 anos que nos aponta a sua pressão de ar celestial, não distingue quem está no palco de quem está na plateia – Por acaso algum de vocês teve uma formiga preferida? Ora aí está.
Mas talvez o problema esteja nas expectativas, nesta nossa tendência de esperar isto ou aquilo uns dos outros, a mim já me meteu em sarilhos antes.
 Vamos começar de novo, afinal de contas o que é a vida senão começar de novo? Da maneira que eu vejo as coisas é pouco mais do que isso, e ainda assim é tão difícil…
Meus senhores e senhoras, eu sou um escritor, um pobre, solitário, punhetesco e tendencialmente alcoólico escritor. Sim senhor, estão a olhar para a coisa autêntica, em breve extinto como o tigre da tasmânia, regozijem então os olhos neste belo e raro espécime, admirem a sua tez pálida, o couro cabeludo oleoso, as manchas de sémen seco incrustadas na ganga gasta, não tenha vergonha minha senhora, claro que pode tirar uma fotografia, ficará tremendamente bem no Wall do seu facebook, já me estou a ver entre uma citação profunda de Mahatma Gandhi e uma fotografia sua de há 5 anos atrás quando era muuuuuito mais magra.
Como dizem? Se escrevi alguma coisa conhecida? Depende… Algum dos senhores alguma vez cagou nas casas de banho do Colombo? Tenho algum do meu melhor trabalho espalhado por lá e finamente ilustrado por um cavalheiro que só conheço pelo que julgo ser o seu nome artístico – Bétão 666 dos No Name Boys.
Mas vamos tentar manter-nos no rumo, mais importante do que ser escritor é o porquê de me ter tornado escritor e no meu caso particular, e suponho que em muitos outros casos este meu destino deveu-se a uma única e bastante vulgar razão – Uma mulher, uma maravilhosa e maldita, bela e viperina, cheirosa e maldosa, vil e mentirosa mulher.

 (...)


E pronto… Como vos disse, não vos vou falar desta mulher, ela veio, trouxe o amor, e depois foi embora, bom ou mau ela fez um escritor de mim. Amar e perder e depois escrever sobre isso, talvez seja essa a ordem natural das coisas. É tão difícil amar enquanto adulto, quando eu era um miúdo o amor era um coração toscamente recortado em papel de lustro, e agora, todos estes anos depois, não tenho uma melhor ideia do que ele é, apenas sei um pouco mais sobre o vazio que deixa quando morre.
E é assim, poderia ter sido um membro útil da sociedade, como um advogado ou um publicitário que Deus os proteja, mas quiseram as circunstancias que assim não fosse, sou um escritor errante e teso, um idealista ultrarromântico transformado em niilista cínico, um vagabundo esfarrapado a quem vocês não apresentam as vossas amigas boas.
Mas estou aqui, munido dos novos olhos que foram um presente do amor partido, olhos que vêm tudo com uma clareza superior, mas que ninguém inveja e ainda bem.
Aqui estarei, um poema vivo e ultrajante, debaixo do mesmo sol que vocês, feito da mesma explosão indiferente que fez tudo o que é belo, feio e assim-assim.
E prometo que tudo farei para não ver a humanidade que há em vós.
Que amarei os vossos átomos de carbono e toda a matéria de estrelas que nos une.
Que habitarei esta esfera imperfeita chamada Terra, que imitarei a sua órbita de movimento perpétuo.
Que viverei convosco mas só, até onde o sol nos levar…

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