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terça-feira, janeiro 29, 2013

At The Disco



Vir aqui foi um erro.
Alguém construiu este sítio e eles vieram em grandes números, eles bebem, fumam e gritam aos ouvidos, mas não há qualquer hipótese de passar algum tipo de mensagem mais complexa, não com este som tão alto, o que cria uma espécie de distribuição igualitária do intelecto – Aqui somos igualmente surdos, mudos e estúpidos.
 A música é uma avalanche eletrónica ruidosa e ininterrupta o DJ sintetizou sons de bebés a embaterem no chão atirados do 5º andar e de vidro de garrafa a ser mastigado até se transformar num pó fino. Eles alinham-no em fileiras e aspiram-no pelos narizes usando notas de vinte, sangrando em orgias de largas dezenas realizadas em quartos fechados, sem janelas e à prova de som onde nem a mais resoluta erva daninha teria a mais pequena hipótese de sobreviver.
No entanto eles florescem aqui, nestas salas escuras trespassadas por lasers, nestas casas de banho frias como morgues onde a coca seca as poças de mijo no chão.
Aqui onde os fotógrafos captam os mesmos momentos sempre-iguais de sorrisos falsos e lábios que se projetam em flor para beijar a objetiva enquanto mordem o interior das bochechas imitando as caveiras de um qualquer culto de morte.
Bebo uma cerveja morta e inflacionada servida por uma mulher bonita, imagino que um dia quis ser modelo, mas o seu sonho foi dramaticamente interrompido quando à singela idade de dezassete anos foi infetada pelo terrível vírus da vida que se esvaiu dela passados nove meses. Imagino que a criança dorme com os avós e que em breve também ele ou ela serão fregueses deste sítio.
Toda esta gente que se acotovela…
Se a tragédia se abater sobre este sítio a multidão correrá toda num sentido misterioso. Dotados da inteligência dos ratos estes jovens leões vão espezinhar as mulheres, tropeçar nos seus longos cabelos que jazem no chão e cair empalados sobre os seus saltos de stiletto onde se esvairão em sangue.
Gorilas de cabeça rapada e vestidos de negro ardem enquanto tentam deter a onda de gente.
“Ninguém sai daqui, ninguém sai daqui sem pagar” – Gritarão eles com o seu último fôlego, e enquanto o polyester dos seus blazers negros se derrete sobre a pele, não conseguirão deixar de sentir uma confortante sensação de dever cumprido.
Estas e outras imagens dantescas aceleram pelas retas da minha mente, não há diversão para mim neste sítio, não hoje pelo menos e isso transpira de mim em cada movimento descoordenado do meu corpo – Sou um peixe epilético no convés de um barco alienígena.