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sábado, novembro 30, 2013

Adeus



O amor morreu e como com todas as coisas que morrem há uma certa dose de pragmatismo que é absolutamente necessária.  É muito tentador mergulhar num profundo luto, há toda uma tendência natural para isso, porém, há um cadáver na sala, e em breve ele empestará tudo em seu redor com o honesto e nauseabundo odor das coisas que foram e já não são.

Enterra-o. Mas não penses em como ele faz parte de um ciclo, de como o solo o incorporará num sistema de decomposição e transformação, não imagines a vida que dele brotará.

Atira-o ao mar. Mas abandona as ideias de que também ele alimentará outras vidas, que milhares de cardumes se alimentarão dele e que de alguma forma ele voltará para dentro de ti, animando-te o corpo e as ideias.

Queima-o. Mas se tiveres de olhar a sua pira funerária e reparares no fumo que sobe aos céus dissolvendo-se finalmente num lugar misterioso, lembra-te que não mora lá ninguém e que o mistério está nos limites da tua visão e no histerismo da tua mente.
Não digas adeus a quem não está lá, não te despeças de coisas mortas e acima de tudo não escrevas sobre isso.

Adeus.

Quixotesco



Eu vejo-o
Ele é como uma onda que rebenta, a água avança rasteira para mim para de seguida recuar.
E aqui estou eu de meias encharcadas. Aqui onde todos agem como se isto fosse o Planeta Vermelho.
 “Vocês viram isto? O mar recuou e acho que não vai voltar!”
“Não sejas ridículo? Não há mar aqui, talvez nunca tenha havido, só existe esta poeira vermelha e estes malditos ventos. Anda, vamos para dentro, vamos embebedar-nos.”
“Não posso voltar lá para dentro, não posso meu amigo”.
Então vejo-a
Ela olha o horizonte, os ventos parecem não a incomodar, até os seus longos caracóis parecem não se mover, ela também o viu, eu não sou louco, não estou sozinho.
“Dulcineia! Viste o Mar? Viste como recuou quando aquela ultima onda se partiu? Viste como era bonito?
“Não sejas ridículo D. Quixote”.
“Não sei ser outra coisa”.

quinta-feira, novembro 07, 2013

Frankfurt



Faziam já 4 meses que vivia do excelente sistema de segurança social Alemão, um cheque por mês para um desempregado português, e porque não se a oportunidade se apresenta? Pelo menos não sou como esses turcos que nem a decência têm de aprender a língua. Malditos turcos, a escória da terra, sub-ciganos fedorentos que te roubam as meias durante o sono se a oportunidade se apresentar. Nunca  nenhum turco me tentou roubar ou me foi mais desagradável do que outra das muitas “culturas” que um soldador qualificado com apetência para viajar irá encontrar, porém, os homens são animais complexos, com potencial para amar e vocação para odiar. E aos 26 anos de idade, sinto-me mais próximo das minhas vocações do que do meu potencial.
Mas este é um mundo de capital, e um jovem leão como eu tem forçosamente necessidades algo prementes de dinheiro, certo que é que algumas das melhores coisas da vida estão à venda e que o meu apetite para tais coisas tinha tanto de voraz como de insaciável.
Foi o meu apetite pelas coisas que me fez pedir-lhe dinheiro pela primeira vez. Conhecia Ângela há 4 dias, eu tinha acabado de a foder e há já 4 dias que estávamos naquilo, ela ligava-me, eu aparecia na casa dela e martelava-a como um reluzente pneumático do inferno.
Estava a vestir as calças quando a ideia de que os meus fundos não me levariam além de um maço de cigarros e duas cervejas começava a incomodar-me, com uma naturalidade algo surpreendente pedi-lhe cinquenta marcos, e Ângela, com a mesma naturalidade deu-mos. Nessa noite comi um bife, bebi várias cervejas e dois whiskeys, tenho até ideia de que enfiei dois dedos numa polaca e uma bofetada num romeno, foi uma boa noite.
Deixei-me estar assim algum tempo, cada dia cinquenta marcos, como o coroar da minha pessoa, como um supra-homem pra quem ser é quanto baste para que o mundo o cubra de ouro. “Que virá a seguir para mim?” pensava eu deitado no meu quarto, quão mais maravilhosa e brutal se tornará a vida? Esta alemã paga-me para que nela entre e saia, e como ela goza com isso, é tão fácil, tão deliciosamente fácil viver. E nisto sinto-me a ficar duro e levanto-me da cama com um salto enquanto esmurro o ar, na minha cabeça grito: “ que venham todas, eu fodo-as a todas, eu fodo tudo, esgoto todos os cofres do mundo, cinquenta marcos de cada vez”.
Estou a ver-me caminhar até casa dela, é segunda-feira e o marido sai de casa de manhã bem cedo para mais uma semana a trabalhar numa outra cidade da qual não me recordo do nome. Curiosamente o marido de Ângela é português, pode ser que na sua cabeça ela os colecione, ou talvez não resista ao género, segundo Camões, quando Vénus intercedeu por nós junto de seu pai, não foi por nossas artes marítimas, mas pela prontidão com que nos entregamos às paixões. Dois portugueses talvez seja mais do que aquilo que mereces Angela, mas serei sempre cortês com quem paga as contas, foi o meu velhote que me ensinou isso.
Toco à campainha, a porta abre-se e eu entro . Ela não perde tempo nem tampouco se faz rogada e em pouco tempo estou ajoelhado no seu sofá de napa castanha enquanto ela, de cócoras e completamente nua tomava-me na boca no seu estilo habitual.
De súbito ouço um som familiar, ele vem da televisão, com toda a agitação não reparei que estava ligada. E o que é isto que os meus olhos vêm? Pornografia? Isto é de facto uma novidade e sem disso me dar conta fixo-me nas imagens coloridas tentando descortinar um enredo. E é então que a vejo.
Ela aparece em cena, cabelos castanhos com um toque de ruiva que a púbis confirmava, grandes e redondos olhos azuis, lábios carnudos de um rosa delicado… Tudo nela era firmeza, aquele tipo de firmeza que as mulheres conservam durante dois anos, com sorte, como se fosse a primavera das suas carnes, uma espécie de força subcutânea que empurra tudo para cima para mais tarde esmorecer... E que timidez na sua expressão, porém como é hábil e generosa nos seus mais que prováveis dezoito anos. Soube logo que era Checa, ou talvez Russa, estava escrito no pragmatismo do seu olhar momentos antes de enfiar a língua no cu do protagonista.
Essa cena fez-me desviar o olhar e voltar a mim, olhei para baixo, aquela massiva alemã continuava a sua grave sinfonia oral… Não, este não é um bom termo, ela não chupava como uma sinfonia mas antes como uma elipse ritmada que se repete até ao infinito, e a previsibilidade de tudo aquilo, a antecipação exacta do seu próximo golpe provocou-me uma sensação de adormecimento.
A dura realidade em que me encontrava tornou-se chocantemente presente.
Razão e lucidez não ajudam quando se vende luxuria a enormes e pálidas alemãs em troca de cinquenta marcos, e ver-me assim, privado do melhor, abalou a minha férrea confiança e como que por magia encolhi dentro da boca dela.
Oh Deus, a vergonha!! Se não é isto que fez os poetas sonharem o amor… Um membro saudável que de súbito não obedece, a fazer uma perfeita chacota de toda a condição humana, uma súbita e total impotência de simplesmente ser e foder como qualquer outra das bestas selvagens que populam a  Terra…
E nisto ela levanta-se e muito casualmente dirige-se à cozinha voltando quase de seguida com uma dose quádrupla de whisky. Ela estende-me o copo e entorno-o para dentro de mim. Haaa Whisky, sábios foram os que te chamaram água da vida, fecho os olhos e sinto-o correr, Angela tem-me de novo na boca, nem uma palavra trocada, apenas um entendimento silencioso cinzelado a puro estilo.
Quando termino a bebida já me encontro em toda a minha glória, não há razões para preocupações, que interessa se um homem vive na imundice ou rodeado de beleza? Não há sentido ou direção, apenas coragem debaixo de fogo e outros exercícios de estilo.
Atiro sobre esta enorme e austera alemã todo o peso do meu corpo e no final vou querer o meu dinheiro.