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segunda-feira, dezembro 29, 2014

A Cortesia dos Cães



 - Amo-te.
- Eu também te amo.
- Quanto. Quanto é que me amas?
- Não sei, como é que se quantifica uma coisa dessas?
- Não sei – Disse ela com languidez na voz, enquanto se espreguiça na cama. Acho que não há uma única resposta certa.
- Então não vou sequer tentar, querida.
No caminho para casa fiquei a pensar naquilo, talvez ela estivesse à espera de uma resposta, alguma coisa pejada de metáforas ou algum gesto excessivo com os braços muito abertos. Mas sou um escritor, e é só quando estou sozinho que consigo realmente pensar em alguma coisa. Viver fora do tempo é um dos ossos do ofício, é nesses intervalos de solitude que a minha inteligência dá sinal de si, ruminando nas horas passadas em longas e por vezes dolorosas digestões.
Talvez lhe devesse ter dito que a amo com tudo o que há em mim, mas nunca ficaria satisfeito com essa resposta, afinal de contas quanto é isso? Sei tanto sobre quanto há em mim quanto sei as vezes que mijei entre agosto de noventa e oito e Fevereiro de dois mil e três. É como ela disse, não há uma única resposta certa e não há nada de estranho nisso, as questões importantes ficam sempre por responder e a vida é durante uma grande parte do tempo um oceano de meias-verdades onde nadamos à volta de ilhotas de feitas merda encharcada em água-de-colónia.
Caminho na noite fria até minha casa e não tenho um vislumbre da resposta. Uma rua deserta em dezembro, um inverno que não tem ainda uma semana e não se vê vivalma. A familiar sensação agridoce de ser o único. A qualquer momento há a possibilidade de me cruzar com alguém, e não há nada pior do que fantasiar que tudo isto me pertence, que de alguma forma sou grande e livre, e que posso falar com a lua na privacidade da minha avenida do virar do século passado, para afinal ser interrompido pelos passos dos outros. Esses são os momentos em que sustenho a respiração, sigo os invasores com os ouvidos sem os olhar e para eles não tenho sequer a cortesia dos cães.
Estranha espécie a nossa, não há nada pior do que estar no meio, de ter inteligência suficiente para perceber a idiotice geral que também é minha, e a pequenez de que sou feito.
Se ela estivesse aqui agora dir-lhe-ia que o meu amor é por definição pequeno, mais pequeno do que eu, do tamanho dela para ser exacto. De que começa na superfície da sua pele, que a contorna toda, e aí acaba. E que se privado dela, se ela por ventura me morresse, a minha capacidade de amar morreria com ela.
Essa é a pequenez do meu amor.

domingo, dezembro 14, 2014

Até agora.



Eu estava naquele limiar entre estar acordado e o sono profundo. Deitado no escuro com uma poderosa moca de erva, enumerava mentalmente as coisas que queria fazer na manhã seguinte. A tarefa revelou-se difícil, e pensei que seria mais fácil enumerar coisas que não queria fazer:
- Nada de doce pornografia gonzo; Ignorar a ânsia de beber de manhã; Resistir à tentação de cair num longo encadeamento de vídeos na internet, de gordos a caírem de motorizadas. A lista era longa. O caminho para a virtude está cheio de doces desvios, e um homem consciente não pode relaxar, deve sempre manter os olhos na meta.
A minha mente começou então a escapar-me, vi-me a entrar no sono como um espectador de mim mesmo, e me fossem permitidos uns instantes de consciência. Dei por mim a deambular na problemática da escrita e de alguma forma estava a receber as respostas às perguntas que nunca fiz. “Tens de escrever a voz interior das pessoas, é isso que faz um bom livro. Esquece a história, o que as pessoas querem é entrar umas nas outras, tens de as fazer sentir que não estão sozinhas na sua imundície.”
Vi os fantasmas dos livros futuros a dançar à minha frente, e depois foi tudo muito rápido, o estilo tornou-se claro, as frases sucediam-se com graça e ritmo e cada pequena coisa que se vê fluia para a página e o trabalho era bom, era muito bom. Os críticos estão rendidos, o público ama-me, e é tão incrivelmente fácil, está à minha frente, estou quase a tocar-lhe…
Foi-se.
Subo um degrau na consciência, perscruto a mente mas não encontro nada. Lembro-me de pensar: “Foi-se, esqueci o que vi, não está aqui nada”, e depois escorreguei para um sono profundo sem me importar muito… Até agora.

domingo, novembro 16, 2014

As Grandes Torres de Merda.



Eu estava com uma daquelas mocas áridas, em que ao fundo da nuca se sente uma ferida aberta, daquelas em que ao respirar, se abre uma janela sobre a chaga que se excita em dor. Tomei um analgésico e deixei-me estar a retirar a porcaria das unhas, a misteriosa trampa etérea que ali se aloja apesar da minha profissão de advogado. Nunca realmente percebi como pode isto acontecer quando basicamente se manuseia papel durante todo o dia, há de facto muito contacto com porcaria neste ofício, não é porém do tipo de merda que se infiltre nas mais recônditas áreas das unhas. Nada de mal com um pouco de automedicação, apesar de preferir o termo medicação autoinfligida, não fosse o meu humor actual e decerto me intitularia de entusiasta. Vejo-me como um humanista que acredita na expressão individual do ser humano enquanto criatura livre para destruir seja o que for, especialmente a si próprio e à sua obra, o que deixa muito pouco por destruir. Depois de termos derrotado Deus, a geografia, o bom senso geral e tudo quanto é maior, mais forte e mais venenoso que nós, resta-nos apenas o EU e os OUTROS, e na minha esclarecida opinião ambos são idiotas que merecem todo o mal que possa vir ao seu encontro. Eu vivo no décimo sétimo andar de um prédio muito respeitável. Numa cidade sem Deus, quem está no topo toma o seu lugar. Lá fora está uma guerra em curso como sempre, é importante ocupar o solo elevado e descer sobre eles, sugar-lhes tudo quanto têm com a santa gravidade como nossa padroeira. Mas porquê este descontentamento que se espalha dentro do meu ser, estes humores negros, a sensação permanente de que é tudo uma piada? Mesmo aqui, na minha sofisticada penthouse de atmosfera controlada, as moscas conseguem misteriosamente entrar, e se por acaso aqui morresse, seria certo que morreria sozinho, imundo e apodrecido como todos os outros. Morte, a única coisa justa neste mundo, e tudo o que neste mundo construímos fizemo-lo por desdém dessa justiça natural. Somos para cima de seis biliões, todo este sucesso criou uma enorme necessidade de competição, e se alguém ambiciona destacar-se da multidão, é certo que terá de o fazer pisando algumas cabeças, empilhando os corpos, trepar por eles acima, dar uma vista de olhos para ver quem mais fez o mesmo, e deitar esse tipo abaixo.
Talvez tenha feito isto durante demasiado tempo. Em tempos fui cínico e agora olho para essa altura como a minha fase idealista. A verdade é que a piada é do tipo trágico e já passou algum tempo desde a última vez que ri. Não há mais nada para ter ou querer. Não há nenhuma verdade, nenhuma sabedoria ou transcendência espiritual no universo. É tudo uma caminhada para a morte, uma luta para empilhar merda em quantidade suficiente para que faça sombra sobre a merda dos outros.

quinta-feira, novembro 13, 2014

A Beira da Cama



Eu estava rodeado de inimigos, um grupo de mentecaptos de cabeças rapadas vestidos como quem vai ver a bola. Eles atiram-se a mim como hienas e imagino que fedem a água-de-colónia e haxixe. Subitamente, algo acontece dentro de mim, sou apossado de uma raiva que desconhecia e lanço-me a eles como se nada mais houvesse no mundo. Sinto como que um bater de coração no cérebro, a minha visão é sincopada pela sua pulsação e tudo acontece em instantes luminosos que parecem desacelerar a passagem do tempo. Cada soco que desfiro anseia por trespassar o alvo, cravo as unhas na carne, rosno como uma besta selvagem e no entanto não há sinais de sangue. Tenho a sensação que nunca mais pestanejarei na vida, que esta luta durará para sempre e que me tornarei uma estrela eterna, para sempre emanando violência sobre tudo.
Abro os olhos. Foi apenas um sonho e no entanto podia jurar que ainda não estava a dormir. Do meu lado a minha mulher dorme profundamente no escuro, o seu corpo atravessado numa diagonal quase perfeita renega-me para a beira da cama. Ouço-a respirar e o som confunde-se com o miar de um gato lá fora.
Agarro-me a ela, enquanto assim fizer não caio, por mais na beira da cama que eu esteja, o abismo nunca nos conseguirá levar aos dois. Esta é a verdade, seja na cama, seja na vida.
E de bom grado sonho as coisas mais odiosas, para que possa acordar para o amor todos os dias.

terça-feira, novembro 11, 2014

Que se passa com Roberto Nevada?



Já era tarde quando me decidi a meter conversa com ela, Eu havia esgotado todos os olhares possíveis e cruzado o seu raio de visão com postura impecável a noite toda.
- Olá, chamo-me Roberto. E tu?
- Bárbara.
- Isso faz-me lembrar uma anedota, queres ouvir?
- É aquela da tipa com mongolismo?
- É essa mesmo – disse-lhe eu corando, sem saber se estava satisfeito por ela conhecer a piada, ou sequer se deveria ter mencionado isso.
- Queres vir dar uma volta comigo? – A pergunta saiu-me de uma forma muito casual, o que adensou o mistério que é o porquê de determinadas coisas que me saem da boca. Agora estou assim ridículo, aguardando uma decisão do juiz, sentado num maldito banco de réus que talhei para mim mesmo.
- Agora?! Agora tenho de ir para casa, está tarde, muito tarde.
Ela disse aquilo com um pragmatismo exasperado como que a dizer que demorei demasiado tempo a tomar uma atitude. És uma péssima desculpa para um homem Roberto Nevada, homens a sério arrebatam as mulheres assim que as vêm, e de cada vez que o fazem tem sempre tanto de original como de inevitável, não esperam pelas últimas horas da noite para buscarem o que querem, como um moribundo que se converte às portas da morte, babando as mãos de um padre. Ela sabia-o, e eu sabia-o.
 - Se tens de ir, tens de ir. Mas não deixa de ser uma pequena tragédia.
Dá-me um meio sorriso de bronze, vira-me as costas e vai-se embora. Mais uma que se vai, perfeitamente confortável com a ideia de nunca mais me pôr a vista em cima. Como são ignorantes estas criaturas, um dia morderão as almofadas, sufocando num choro histérico por terem desperdiçado a oportunidade de estarem comigo. O marido estará a dormir do seu lado de rosto apagado e estômago dilatado, enquanto eu aparecerei iluminado no santo ecrã da televisão, destruindo-lhes os frágeis nervos com o meu sorriso perfeito, atendendo mais uma homenagem ao grande Roberto Nevada por serviços inestimáveis prestados ao progresso da humanidade.
Ainda ontem me passeei pela universidade, decidi dar uma oportunidade às hordas. Todo eu mistério, alto, de cabelo ao vento, impecavelmente vestido de botas, ganga e camisa quadriculada, impecavelmente natural. Nem uma olhou para mim, como conseguem ser tão dissimuladas? Por quanto tempo vão manter esta charada, e que propósito serve a sua não prostração a mim? Apetece-me gritar “Aqui estou eu, Roberto Nevada, o mais incrível homem que jamais conheci! Estou acima de vós eu sei, mas isso nunca impediu ninguém que valesse a poeira que levanta! Pronto mundo, já sabes que eu sei, não tens de fingir mais, que caia o pano, tragam o ouro e os aplausos.
Desconfio que também tu és um sonho meu. Não há vida para além de mim, se fecho os olhos a luz do sol apagasse sobre ti. A mim, venham a mim!