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quarta-feira, setembro 24, 2014

Os Delírios Bêbados do Capitão



Sabe porque é que se está tão mal no navio?  - Perguntou-me ele com a expressão de homem zangado, que bebe para ficar ainda mais zangado.
O problema não é o trabalho ser duro. Não é por causa dos turnos de 12 horas, nem sequer é por o navio balançar. O verdadeiro problema é a tripulação, é esta gente. O mar atrai os piores, sempre foi assim.
Penso muito nisso sabe? Não estou sequer certo que esteja em condições de reparar  Adriano, mas sou um homem educado e altamente sofisticado. Não se chega a Capitão de um navio destes a comer a filha feia de alguém hem?
Pois bem, durante as minhas reflecções cheguei à conclusão que toda a merda que há no mundo é culpa dos marinheiros. É a mais pura das verdades. Quem deu novos mundos ao mundo? Em que mãos capazes foi colocada a responsabilidade de nos apresentar à outra metade?
Preferia não dizer nada, mas o capitão parecia exigir uma resposta, qualquer coisa que o relembrasse que ao contrário do habitual, desta vez não estava sozinho em delírios de whisky com as paredes do camarote.
- Nos marinheiros meu capitão.
Pois foi, nos marinheiros, em bestas como aquelas que estão lá fora. Não admira que o mundo esteja no estado que está quando a globalização foi começada por uma corja de filhos da puta sifilentos!
Sabe o que eu li nesta revista Adriano?
Ele pegou na revista com a mão esquerda mantendo-a ao nível do rosto, com os olhos crivados em mim e dedo a apontar para a capa. Parecia uma daquelas revistas pseudocientíficas com artigos como “Descoberto novo Ponto G nas mulheres” ou “Novos indícios de visitação de extraterrestres nas ruínas de Machu-Picchu”.
Sabe o que aqui diz? Aqui diz que há uma forte possibilidade do vírus da sida ter sido transmitido do macaco para o homem.
Eu sei como funciona a ciência Adriano, e entendo que seja apenas uma possibilidade, mas no momento em que li isto eu soube que era verdade. Eu conheço estes homens, sei que um como eles um dia olhou para o horror que é o cu de um macaco e quis fodê-lo. E de certeza que se assim o pensou, assim o fez, porque estes homens, apesar de tudo são empreendedores. Tipos de acção com cérebros reptilianos incapazes de ponderação.
Digo-lhe com toda a sinceridade Adriano, não ficaria minimamente chocado se encontrasse um membro desta tripulação a foder um macaco neste mesmo navio, tanto quanto sei, e não é pouco, pode estar a acontecer agora mesmo.
O tom grave da sua voz não deixou dúvidas, este era um assunto sério. Os olhos loucos do Capitão continuavam a fitar-me, completamente compenetrados na tarefa de avaliar a minha reacção a toda aquela gravíssima informação. Por mim ficaria calado, mas ele ali estava, estático como uma cobra e dei por mim a dizer:
- Então que estamos nós a fazer neste navio, Capitão?
Ele aproxima-se ainda mais de mim ao ponto de lhe sentir o cheiro a bebida, coloca-me a mão no ombro e com o mesmo ar compenetrado diz:
Nós estamos a lutar pelas nossas almas.

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