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sábado, outubro 11, 2014

Deixar de Fumar



A estrada estava molhada, mas já não se sentia o cheiro da chuva, mais uma coisa que aconteceu sem que eu o admitisse ou presenciasse. Poderia ter morrido meio mundo num diluvio e eu em boa consciência não poderia testemunhar contra a enxurrada, se por ventura ela se sentasse num banco de réus. “Não sr. Dr. juiz, não dei conta de nada, o meu escritório não tem janelas. Aparentemente janelas não são indispensáveis para fazer dinheiro.”
Entrei em casa e tranquei a porta atrás de mim como quem deixa a vida lá fora. Vou até à cozinha, abro o frigorífico e fico a olhar lá para dentro sem saber o que pretendo deste triste eletrodoméstico, já que não me lembro de ter fome. Recordo-me de reparar que não tinha lá uma única coisa que não tivesse uma data de validade e de que haveria algures um comentário espirituoso nesse facto, mas a minha mente imitou o zumbido monocórdico da máquina, e dei por mim assim, especado, mãos instintivamente colocadas nos tomates, de olhar perdido num solitário iogurte de pedaços.
Fui até á varanda e continua tudo na mesma, uma cidade pequena mas grande que chegue para ser impessoal. Um lugar de onde se sai para se pescar bem longe, um sítio onde se espera por definição, e onde a espera cheira a sal grosso, ferrugem e a algo que se decompõe. Ao longe um cão ladrava desesperadamente sem que ninguém lhe responda, dir-se-ia que o bicho tinha algo de verdadeiramente importante a declarar, mas eu não estava com disposição para o tentar perceber. Olhei para a lua, para as estrelas, para todas as coisas ditas belas e grandiosas e não senti nada, nada para além de uma inexorável vontade de fumar.
 E é assim que são as coisas, dormia a mulher sozinha no quarto e eu, sozinho, desejava apenas cinzas e morte. Fumar pontuava a minha vida; de que serve uma história sem pontuação? Que sentido faz uma narrativa sem vírgulas? Tentando aumentar a esperança média de vida, retirei da vida toda a esperança...

E o cabrão do cão que não se cala.

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