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terça-feira, outubro 28, 2014

Estrada Nacional

Estou a conduzir os 25 Km que me separam a casa do trabalho, é coisa para 30 minutos e esta terra de ninguém acaba por ser uma altura muito especial do meu dia. Especial porque é a coisa mais parecida na minha vida com o limbo, já saí de casa, onde poderia realmente produzir alguma coisa de jeito, mas ainda não estou no meu trabalho sugador de alma, onde não há lugar nem tempo para a escrita.
O Limbo é importante. Não escrever e pensar nisso é uma parte muito grande da vida de um escritor, especialmente quando se trata de um bom escritor não editado como eu. As minhas melhores ideias aparecem quando não lhes posso dedicar nem tempo, nem nada. O corpo automático vai operando os pedais e o volante, o motor explode internamente e eu expludo com ele enquanto a mente vagueia à velocidade do aço e do diesel. E é aí, de olhos pregados na estrada, nos traços ora contínuos ora descontinuados que a magia acontece.
Mas não é realmente magia.
Estou numa estrada nacional, pontuada com algumas fábricas, casas articulares, muitos armazéns e outras tantas churrascarias onde o doce da casa é sempre algum tipo de pudim misturado com bolacha maria. É difícil de saber o que chegou primeiro se as casas se as empresas. Tampouco sei se alguém se está a queixar da convivência, mas a ideia de viver num sítio destes parece-me irreal. Quem no seu perfeito juízo quereria enfrentar estas três faixas de rodagem dia após dia? Caminhar na beira da estrada sem passeios, enterrar cão atrás de cão que sem excepção morrerá no asfalto. Nada para além de uma morte ao sol e nenhuma sombra senão a dos eucaliptos que brotam finos da terra árida.
Esta é a nossa paisagem nacional, é aquilo que produzimos quando é dada rédea solta aos melhores de nós – Pensei enquanto acendia um cigarro. É Maio e os peregrinos contornam as putas de estrada na sua caminhada para sul, pergunto-me se também eles apreciam o limbo deles, mas parecem-me mais tristes e cansados que as pêgas, apesar de vestirem as mesmas cores-chamarizes de carro, ainda que por razões diferentes.
No rádio não toca qualquer música, limito-me a conduzir, a viagem é tudo o que importa.
A viagem é tudo o que importa.

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