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quinta-feira, novembro 13, 2014

A Beira da Cama



Eu estava rodeado de inimigos, um grupo de mentecaptos de cabeças rapadas vestidos como quem vai ver a bola. Eles atiram-se a mim como hienas e imagino que fedem a água-de-colónia e haxixe. Subitamente, algo acontece dentro de mim, sou apossado de uma raiva que desconhecia e lanço-me a eles como se nada mais houvesse no mundo. Sinto como que um bater de coração no cérebro, a minha visão é sincopada pela sua pulsação e tudo acontece em instantes luminosos que parecem desacelerar a passagem do tempo. Cada soco que desfiro anseia por trespassar o alvo, cravo as unhas na carne, rosno como uma besta selvagem e no entanto não há sinais de sangue. Tenho a sensação que nunca mais pestanejarei na vida, que esta luta durará para sempre e que me tornarei uma estrela eterna, para sempre emanando violência sobre tudo.
Abro os olhos. Foi apenas um sonho e no entanto podia jurar que ainda não estava a dormir. Do meu lado a minha mulher dorme profundamente no escuro, o seu corpo atravessado numa diagonal quase perfeita renega-me para a beira da cama. Ouço-a respirar e o som confunde-se com o miar de um gato lá fora.
Agarro-me a ela, enquanto assim fizer não caio, por mais na beira da cama que eu esteja, o abismo nunca nos conseguirá levar aos dois. Esta é a verdade, seja na cama, seja na vida.
E de bom grado sonho as coisas mais odiosas, para que possa acordar para o amor todos os dias.

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