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domingo, novembro 02, 2014

O Único Estranho em Stonehenge



Não saberia dizer o porquê de me encontrar naquela remota zona do sul de Inglaterra, mas a verdade é que era de noite e eu caminhava na direção de Stonehenge. Aparentemente havia algum tipo de festa a decorrer, havia gente por toda a parte a falar, a tomar bebidas e a posar plasticamente para fotografias.
Vejo uma mulher loura a acenar na minha direcção, semicerro os olhos e vejo que se trata da minha ex-namorada checa, vou até ela sem saber se estou satisfeito de encontrar uma cara conhecida ou não. Ela continua na mesma, alta e esguia, os cabelos ainda encaracolados e louros porém mais longos. A mesma expressão de estrangeira e aquela aura que se reconhece em algumas mulheres de que vão sempre parecer mais velhas do que realmente são.
Não consigo dizer como a conversa começou, mas tenho a distinta sensação de sentir que aquele era um encontro desconfortável e que não me encontrava no tipo de disposição em que a conversa flua particularmente bem. Dei por mim sem saber o que dizer e em tom de conversa de circunstância pergunto-lhe pelo pai.
O pai dela era um camionista checo recém-reformado, foi dele que a Alena herdou os enormes olhos azuis. Não há muito que possa dizer dele para além disso, ele gostava das garrafas de brandy que lhe oferecia, era muito avesso a gastar dinheiro e a única observação em relação a mim que lhe conheço foi a de achar que eu tinha fisionomia de cigano. Foi por isso uma enorme surpresa para mim quando ela me disse que o seu pai, Karel Simon, estava correntemente a acabar de filmar uma curta-metragem realizada e coprotagonizada pelo lendário guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richards.
Estava ainda a digerir esse pedaço de informação quando reparo no enorme ecrã gigante onde passava o que aparentava ser um vídeo-clip musical de nada mais nada menos que Karel Simon, o camionista reformado e pai da Alena. O vídeo era uma sucessão de longos grandes planos da cara de Simon enquanto ele murmurava algo que não conseguia ouvir e de planos afastados onde Karel dançava levemente, aparentemente ao som de uma qualquer melodia, completamente vestido de bombazine de tom castanho camelo.
Os meus olhos voltam para a Ali como lhe costumava chamar, ela continua a falar das façanhas artísticas do pai enquanto beberica algo laranja de dentro de um copo alto, o ar dela é perfeitamente casual, nada daquilo é estranho para ela, aparentemente a única coisa realmente estranha ali sou eu. Reparo que algo grande se move no seu flanco esquerdo, inclino a cabeça para perceber o que se passa e vejo um cavalo e uma égua em plena e violenta cópula equestre e mais uma vez ninguém acha nada disto bizarro.
Acordo com a clara percepção de que sonho demasiado com cavalos.

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