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terça-feira, novembro 11, 2014

Que se passa com Roberto Nevada?



Já era tarde quando me decidi a meter conversa com ela, Eu havia esgotado todos os olhares possíveis e cruzado o seu raio de visão com postura impecável a noite toda.
- Olá, chamo-me Roberto. E tu?
- Bárbara.
- Isso faz-me lembrar uma anedota, queres ouvir?
- É aquela da tipa com mongolismo?
- É essa mesmo – disse-lhe eu corando, sem saber se estava satisfeito por ela conhecer a piada, ou sequer se deveria ter mencionado isso.
- Queres vir dar uma volta comigo? – A pergunta saiu-me de uma forma muito casual, o que adensou o mistério que é o porquê de determinadas coisas que me saem da boca. Agora estou assim ridículo, aguardando uma decisão do juiz, sentado num maldito banco de réus que talhei para mim mesmo.
- Agora?! Agora tenho de ir para casa, está tarde, muito tarde.
Ela disse aquilo com um pragmatismo exasperado como que a dizer que demorei demasiado tempo a tomar uma atitude. És uma péssima desculpa para um homem Roberto Nevada, homens a sério arrebatam as mulheres assim que as vêm, e de cada vez que o fazem tem sempre tanto de original como de inevitável, não esperam pelas últimas horas da noite para buscarem o que querem, como um moribundo que se converte às portas da morte, babando as mãos de um padre. Ela sabia-o, e eu sabia-o.
 - Se tens de ir, tens de ir. Mas não deixa de ser uma pequena tragédia.
Dá-me um meio sorriso de bronze, vira-me as costas e vai-se embora. Mais uma que se vai, perfeitamente confortável com a ideia de nunca mais me pôr a vista em cima. Como são ignorantes estas criaturas, um dia morderão as almofadas, sufocando num choro histérico por terem desperdiçado a oportunidade de estarem comigo. O marido estará a dormir do seu lado de rosto apagado e estômago dilatado, enquanto eu aparecerei iluminado no santo ecrã da televisão, destruindo-lhes os frágeis nervos com o meu sorriso perfeito, atendendo mais uma homenagem ao grande Roberto Nevada por serviços inestimáveis prestados ao progresso da humanidade.
Ainda ontem me passeei pela universidade, decidi dar uma oportunidade às hordas. Todo eu mistério, alto, de cabelo ao vento, impecavelmente vestido de botas, ganga e camisa quadriculada, impecavelmente natural. Nem uma olhou para mim, como conseguem ser tão dissimuladas? Por quanto tempo vão manter esta charada, e que propósito serve a sua não prostração a mim? Apetece-me gritar “Aqui estou eu, Roberto Nevada, o mais incrível homem que jamais conheci! Estou acima de vós eu sei, mas isso nunca impediu ninguém que valesse a poeira que levanta! Pronto mundo, já sabes que eu sei, não tens de fingir mais, que caia o pano, tragam o ouro e os aplausos.
Desconfio que também tu és um sonho meu. Não há vida para além de mim, se fecho os olhos a luz do sol apagasse sobre ti. A mim, venham a mim!

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