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domingo, dezembro 14, 2014

Até agora.



Eu estava naquele limiar entre estar acordado e o sono profundo. Deitado no escuro com uma poderosa moca de erva, enumerava mentalmente as coisas que queria fazer na manhã seguinte. A tarefa revelou-se difícil, e pensei que seria mais fácil enumerar coisas que não queria fazer:
- Nada de doce pornografia gonzo; Ignorar a ânsia de beber de manhã; Resistir à tentação de cair num longo encadeamento de vídeos na internet, de gordos a caírem de motorizadas. A lista era longa. O caminho para a virtude está cheio de doces desvios, e um homem consciente não pode relaxar, deve sempre manter os olhos na meta.
A minha mente começou então a escapar-me, vi-me a entrar no sono como um espectador de mim mesmo, e me fossem permitidos uns instantes de consciência. Dei por mim a deambular na problemática da escrita e de alguma forma estava a receber as respostas às perguntas que nunca fiz. “Tens de escrever a voz interior das pessoas, é isso que faz um bom livro. Esquece a história, o que as pessoas querem é entrar umas nas outras, tens de as fazer sentir que não estão sozinhas na sua imundície.”
Vi os fantasmas dos livros futuros a dançar à minha frente, e depois foi tudo muito rápido, o estilo tornou-se claro, as frases sucediam-se com graça e ritmo e cada pequena coisa que se vê fluia para a página e o trabalho era bom, era muito bom. Os críticos estão rendidos, o público ama-me, e é tão incrivelmente fácil, está à minha frente, estou quase a tocar-lhe…
Foi-se.
Subo um degrau na consciência, perscruto a mente mas não encontro nada. Lembro-me de pensar: “Foi-se, esqueci o que vi, não está aqui nada”, e depois escorreguei para um sono profundo sem me importar muito… Até agora.

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