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quinta-feira, abril 10, 2014

Coisas Sobre As Quais Não Deveria Escrever



Ele aperta-a contra si e sente todas as volúpias do amor. O instinto é de a forçar contra o peito, de diminuir o espaço que os separa a nada. Por um momento pensa em quebrar-lhe os ossos nesta operação, em abri-la como um ovo e encharcar-se dela, daquilo que ela é por dentro e que a anima. Mas as convenções do amor não o permitem, o que é tranquilizador, pois o sentimento chega forte e afecta profundamente os nervos como se de um tipo de epilepsia se tratasse. E parece clamar por manifestações vigorosas. Esmagá-la num abraço parece por momentos razoável, mas nada disso é viável. O amor veio com força e tudo o que ele pode fazer naquele impessoal sofá de sala é beijar-lhe a boca.
E é esse o problema do amor, é grande demais, transborda de nós e salpica o chão, manchando irremediavelmente o soalho e as alcatifas, com o tempo inunda tudo, subindo a níveis tão incríveis que afoga vidas inteiras nele. Parecem pecar por pequenez as palavras, e os gestos são sempre escassos, ele sente a coisa, a coisa está dentro dele, mas quando fala dela ela torna-se outra coisa, a linha de raciocínio perde-se, a garganta contrai-se, e o mistério adensa-se por pelo menos mais um dia.
Realmente não a pode aproximar mais de si sem que ela sufoque. E tentar manter aquele momento para sempre é inútil, pois não consegue deixar de ver o tempo a escorrer-lhe como areia por entre os dedos, em breve, aos seus braços não restará outra coisa senão afrouxar.
E então sente finalmente o medo, medo que lha levem, medo que lhe falte, e também isso é novo e inquietante. Então ele repete-lhe as palavras, beija-lhe os dedinhos, e faz-lhe as promessas desesperadas.
E é tudo tão humano, e ainda assim é tudo tão verdadeiro.