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quarta-feira, julho 23, 2014

Requiem Para Um Cavalo



Ele casou com ela porque os pobres não se governam sozinhos, viviam num sítio onde só o padre e os de má fama não casam. O matrimónio é um santo sacramento, o último antes da extrema-unção. Casar, trabalhar, criar os filhos que vierem e morrer, é esta a vontade de Deus para o povo, que se aturem e encostem um no outro, pois o Santo Pai está ocupado a fazer nascer os dias e a acender as estrelas de noite.
Ele era parco em palavras e ela de língua afiada, o homem nunca a surrou como era costume naquelas paragens, a mulher aproveitou a oportunidade e enchia os silêncios com frequentes queixumes já que não tinha nem voz nem vontades de cantar. E havia muito de que se queixar, da fome, do frio, da terra que não dá o trigo, mas principalmente do cavalo.
“Para que queremos nós essa besta que não vale o que caga? Que faz um pobre com um cavalo velho? Até me ria de ti homem, se não fossem minhas as tripas que passam faltas. Vira-me as costas, mas fica sabendo que a terra inteira se ri de ti alma de Deus.”
E ele lá ia, como se nada ouvisse, como se responder às provocações da mulher valesse o mesmo que praguejar contra a geada ou de porque não faz o bom Senhor chover pão sobre os pobres. Esse era o seu entendimento, aceita-se o que nos calha, seja isso um cavalo velho ou uma mulher cujo ventre seca a vida.
Mas tinha que acontecer um dia que a mulher se fartou de ver as costas ao homem e que certa das suas razões se deitou ao bicho de machada na mão. O homem correu atrás dela  e querendo chegar onde as suas mãos não alcançavam, lhe deu com o sacho na cabeça.
O homem ficou a olhar a mulher que jazia morta no chão. Os olhos muito abertos e a boca escancarada davam-lhe uma expressão de asco e surpresa, como se a morte a tivesse prendido no mesmo registo em que vivera.
Ele matou-a querendo impedir a morte do cavalo, o bicho não deu por nada e mastigava vagarosamente, vivendo ainda para digerir mais esta erva. O homem pensava no que tinha acontecido, seria esta a vontade de Deus? Que morresse a mulher para que um velho cavalo continuasse a envelhecer? Ou terá sido a mão do diabo que lhe levou a mulher, colecionando mais uma história de quão pouco vale uma vida humana?
O homem não se decide, a única certeza que tem é de que o cavalo é inocente, de que é livre de culpa assim como qualquer outro cavalo nascido debaixo deste sol.
O homem desamarra o bicho e senta-se junto à casa a fazer um nó de forca, não por qualquer simbolismo pois os pobres não os têm, e sim porque é esta a melhor corda que possui. É já o final da tarde e sente-se uma brisa fresca vinda do sul, ao fundo vê-se o monte coberto do verde da época e o sol como que afundando na terra.
Estas são as coisas lindas, estas são as coisas grandes, o sol, os montes, os ventos e os cavalos, todos eles são maiores que nós. E os homens podem-se se matar uns aos outros, podem até se matar a eles próprios, mas as coisas maiores, essas devem viver.