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sexta-feira, outubro 31, 2014

Os Horríveis Cavalos Neozelandeses



Estava na cozinha da casa que partilhei em Mafra. Nem sinal do professor de Moral homossexual que vivia comigo. Dava-me a sensação que era sábado e eu via as notícias na televisão da cozinha como quem não tem nada com que se preocupar.
A peça jornalística tinha um tom alarmante, com letras garrafais e vermelhas que soletravam a palavra “INVASORES”. Começou por dar uma introdução à problemática das espécies invasoras e do seu impacto devastador no equilíbrio dos ecossistemas, citando casos mais conhecidos como o massacre da abelha europeia, pela sua sua vil contraparte africana. Em todos os casos a espécie invasora provoca danos irreparáveis no ecossistema em que é introduzida pois a restante fauna ou flora, durante a sua evolução não teve que competir com este novo elemento. É um pouco como fazer batota, como incluir um africano num concurso de tamanho de pilas japonesas.
Até aqui tudo bem, mais um pouco de medo engarrafado antes do almoço – Pensei eu.
Mas a reportagem continua e parece afunilar para uma ameaça maior, o que de facto acontece sobre a forma de uma imagem e um nome. Estava encontrada a mais nova e assustadora face do problema das espécies invasoras, o obscenamente exótico CAVALO NEOZELANDÊS!
Nunca vou esquecer o quão terrível foi para mim vê-lo, nunca antes uma imagem de televisão tinha tido um impacto tal em mim, foi como que um duche gelado e repentino. Senti de imediato as mãos e pés frios, a boca abriu-se num suspiro tenso e todo eu era o veiculo de um medo primordial e incontrolável que parecia inscrito em cada pedaço do meu ser, ele hibernara dentro de mim, crescera comigo e agora que acordara, nada voltaria a ser igual.
Ele tinha a fisionomia de um cavalo nórdico só que mais atarracado, com patas mais curtas e pescoços mais longos e grossos. As cabeças eram horríveis, pelo menos duas vezes maiores que a de um cavalo normal, mas sem as suas linhas elegantes. Eram antes coisas pesadas e grosseiras coroadas pela característica mais perturbadora de todas, um grande olho redondo e branco, incansável, e incapaz de emoção.
Saio da cozinha perturbado e vou até lá fora. O tempo está agradável e a paisagem diferente. De alguma forma estou no meio de um lindo vale verde que não deveria ali estar. Fecho os olhos e respiro fundo todo aquele espaço e quando os abro outra vez eles estão por toda a parte.
Estou no meio do vale, estático e aterrorizado. À minha volta, por trilhos de terra batida, procissões de horríveis cavalos neozelandeses desfilam em filas lentas. Eles seguem a sua marcha sincronizada, passam terrivelmente perto de mim, e eu, vejo-os sempre de perfil, com o seu olho monstruoso a olhar-me fixamente, enquanto a minha mente é tomada de assalto pela ideia que estes animais têm um gosto por carne humana.
Depois acordei.

terça-feira, outubro 28, 2014

Estrada Nacional

Estou a conduzir os 25 Km que me separam a casa do trabalho, é coisa para 30 minutos e esta terra de ninguém acaba por ser uma altura muito especial do meu dia. Especial porque é a coisa mais parecida na minha vida com o limbo, já saí de casa, onde poderia realmente produzir alguma coisa de jeito, mas ainda não estou no meu trabalho sugador de alma, onde não há lugar nem tempo para a escrita.
O Limbo é importante. Não escrever e pensar nisso é uma parte muito grande da vida de um escritor, especialmente quando se trata de um bom escritor não editado como eu. As minhas melhores ideias aparecem quando não lhes posso dedicar nem tempo, nem nada. O corpo automático vai operando os pedais e o volante, o motor explode internamente e eu expludo com ele enquanto a mente vagueia à velocidade do aço e do diesel. E é aí, de olhos pregados na estrada, nos traços ora contínuos ora descontinuados que a magia acontece.
Mas não é realmente magia.
Estou numa estrada nacional, pontuada com algumas fábricas, casas articulares, muitos armazéns e outras tantas churrascarias onde o doce da casa é sempre algum tipo de pudim misturado com bolacha maria. É difícil de saber o que chegou primeiro se as casas se as empresas. Tampouco sei se alguém se está a queixar da convivência, mas a ideia de viver num sítio destes parece-me irreal. Quem no seu perfeito juízo quereria enfrentar estas três faixas de rodagem dia após dia? Caminhar na beira da estrada sem passeios, enterrar cão atrás de cão que sem excepção morrerá no asfalto. Nada para além de uma morte ao sol e nenhuma sombra senão a dos eucaliptos que brotam finos da terra árida.
Esta é a nossa paisagem nacional, é aquilo que produzimos quando é dada rédea solta aos melhores de nós – Pensei enquanto acendia um cigarro. É Maio e os peregrinos contornam as putas de estrada na sua caminhada para sul, pergunto-me se também eles apreciam o limbo deles, mas parecem-me mais tristes e cansados que as pêgas, apesar de vestirem as mesmas cores-chamarizes de carro, ainda que por razões diferentes.
No rádio não toca qualquer música, limito-me a conduzir, a viagem é tudo o que importa.
A viagem é tudo o que importa.

sábado, outubro 11, 2014

Deixar de Fumar



A estrada estava molhada, mas já não se sentia o cheiro da chuva, mais uma coisa que aconteceu sem que eu o admitisse ou presenciasse. Poderia ter morrido meio mundo num diluvio e eu em boa consciência não poderia testemunhar contra a enxurrada, se por ventura ela se sentasse num banco de réus. “Não sr. Dr. juiz, não dei conta de nada, o meu escritório não tem janelas. Aparentemente janelas não são indispensáveis para fazer dinheiro.”
Entrei em casa e tranquei a porta atrás de mim como quem deixa a vida lá fora. Vou até à cozinha, abro o frigorífico e fico a olhar lá para dentro sem saber o que pretendo deste triste eletrodoméstico, já que não me lembro de ter fome. Recordo-me de reparar que não tinha lá uma única coisa que não tivesse uma data de validade e de que haveria algures um comentário espirituoso nesse facto, mas a minha mente imitou o zumbido monocórdico da máquina, e dei por mim assim, especado, mãos instintivamente colocadas nos tomates, de olhar perdido num solitário iogurte de pedaços.
Fui até á varanda e continua tudo na mesma, uma cidade pequena mas grande que chegue para ser impessoal. Um lugar de onde se sai para se pescar bem longe, um sítio onde se espera por definição, e onde a espera cheira a sal grosso, ferrugem e a algo que se decompõe. Ao longe um cão ladrava desesperadamente sem que ninguém lhe responda, dir-se-ia que o bicho tinha algo de verdadeiramente importante a declarar, mas eu não estava com disposição para o tentar perceber. Olhei para a lua, para as estrelas, para todas as coisas ditas belas e grandiosas e não senti nada, nada para além de uma inexorável vontade de fumar.
 E é assim que são as coisas, dormia a mulher sozinha no quarto e eu, sozinho, desejava apenas cinzas e morte. Fumar pontuava a minha vida; de que serve uma história sem pontuação? Que sentido faz uma narrativa sem vírgulas? Tentando aumentar a esperança média de vida, retirei da vida toda a esperança...

E o cabrão do cão que não se cala.