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domingo, novembro 16, 2014

As Grandes Torres de Merda.



Eu estava com uma daquelas mocas áridas, em que ao fundo da nuca se sente uma ferida aberta, daquelas em que ao respirar, se abre uma janela sobre a chaga que se excita em dor. Tomei um analgésico e deixei-me estar a retirar a porcaria das unhas, a misteriosa trampa etérea que ali se aloja apesar da minha profissão de advogado. Nunca realmente percebi como pode isto acontecer quando basicamente se manuseia papel durante todo o dia, há de facto muito contacto com porcaria neste ofício, não é porém do tipo de merda que se infiltre nas mais recônditas áreas das unhas. Nada de mal com um pouco de automedicação, apesar de preferir o termo medicação autoinfligida, não fosse o meu humor actual e decerto me intitularia de entusiasta. Vejo-me como um humanista que acredita na expressão individual do ser humano enquanto criatura livre para destruir seja o que for, especialmente a si próprio e à sua obra, o que deixa muito pouco por destruir. Depois de termos derrotado Deus, a geografia, o bom senso geral e tudo quanto é maior, mais forte e mais venenoso que nós, resta-nos apenas o EU e os OUTROS, e na minha esclarecida opinião ambos são idiotas que merecem todo o mal que possa vir ao seu encontro. Eu vivo no décimo sétimo andar de um prédio muito respeitável. Numa cidade sem Deus, quem está no topo toma o seu lugar. Lá fora está uma guerra em curso como sempre, é importante ocupar o solo elevado e descer sobre eles, sugar-lhes tudo quanto têm com a santa gravidade como nossa padroeira. Mas porquê este descontentamento que se espalha dentro do meu ser, estes humores negros, a sensação permanente de que é tudo uma piada? Mesmo aqui, na minha sofisticada penthouse de atmosfera controlada, as moscas conseguem misteriosamente entrar, e se por acaso aqui morresse, seria certo que morreria sozinho, imundo e apodrecido como todos os outros. Morte, a única coisa justa neste mundo, e tudo o que neste mundo construímos fizemo-lo por desdém dessa justiça natural. Somos para cima de seis biliões, todo este sucesso criou uma enorme necessidade de competição, e se alguém ambiciona destacar-se da multidão, é certo que terá de o fazer pisando algumas cabeças, empilhando os corpos, trepar por eles acima, dar uma vista de olhos para ver quem mais fez o mesmo, e deitar esse tipo abaixo.
Talvez tenha feito isto durante demasiado tempo. Em tempos fui cínico e agora olho para essa altura como a minha fase idealista. A verdade é que a piada é do tipo trágico e já passou algum tempo desde a última vez que ri. Não há mais nada para ter ou querer. Não há nenhuma verdade, nenhuma sabedoria ou transcendência espiritual no universo. É tudo uma caminhada para a morte, uma luta para empilhar merda em quantidade suficiente para que faça sombra sobre a merda dos outros.

quinta-feira, novembro 13, 2014

A Beira da Cama



Eu estava rodeado de inimigos, um grupo de mentecaptos de cabeças rapadas vestidos como quem vai ver a bola. Eles atiram-se a mim como hienas e imagino que fedem a água-de-colónia e haxixe. Subitamente, algo acontece dentro de mim, sou apossado de uma raiva que desconhecia e lanço-me a eles como se nada mais houvesse no mundo. Sinto como que um bater de coração no cérebro, a minha visão é sincopada pela sua pulsação e tudo acontece em instantes luminosos que parecem desacelerar a passagem do tempo. Cada soco que desfiro anseia por trespassar o alvo, cravo as unhas na carne, rosno como uma besta selvagem e no entanto não há sinais de sangue. Tenho a sensação que nunca mais pestanejarei na vida, que esta luta durará para sempre e que me tornarei uma estrela eterna, para sempre emanando violência sobre tudo.
Abro os olhos. Foi apenas um sonho e no entanto podia jurar que ainda não estava a dormir. Do meu lado a minha mulher dorme profundamente no escuro, o seu corpo atravessado numa diagonal quase perfeita renega-me para a beira da cama. Ouço-a respirar e o som confunde-se com o miar de um gato lá fora.
Agarro-me a ela, enquanto assim fizer não caio, por mais na beira da cama que eu esteja, o abismo nunca nos conseguirá levar aos dois. Esta é a verdade, seja na cama, seja na vida.
E de bom grado sonho as coisas mais odiosas, para que possa acordar para o amor todos os dias.

terça-feira, novembro 11, 2014

Que se passa com Roberto Nevada?



Já era tarde quando me decidi a meter conversa com ela, Eu havia esgotado todos os olhares possíveis e cruzado o seu raio de visão com postura impecável a noite toda.
- Olá, chamo-me Roberto. E tu?
- Bárbara.
- Isso faz-me lembrar uma anedota, queres ouvir?
- É aquela da tipa com mongolismo?
- É essa mesmo – disse-lhe eu corando, sem saber se estava satisfeito por ela conhecer a piada, ou sequer se deveria ter mencionado isso.
- Queres vir dar uma volta comigo? – A pergunta saiu-me de uma forma muito casual, o que adensou o mistério que é o porquê de determinadas coisas que me saem da boca. Agora estou assim ridículo, aguardando uma decisão do juiz, sentado num maldito banco de réus que talhei para mim mesmo.
- Agora?! Agora tenho de ir para casa, está tarde, muito tarde.
Ela disse aquilo com um pragmatismo exasperado como que a dizer que demorei demasiado tempo a tomar uma atitude. És uma péssima desculpa para um homem Roberto Nevada, homens a sério arrebatam as mulheres assim que as vêm, e de cada vez que o fazem tem sempre tanto de original como de inevitável, não esperam pelas últimas horas da noite para buscarem o que querem, como um moribundo que se converte às portas da morte, babando as mãos de um padre. Ela sabia-o, e eu sabia-o.
 - Se tens de ir, tens de ir. Mas não deixa de ser uma pequena tragédia.
Dá-me um meio sorriso de bronze, vira-me as costas e vai-se embora. Mais uma que se vai, perfeitamente confortável com a ideia de nunca mais me pôr a vista em cima. Como são ignorantes estas criaturas, um dia morderão as almofadas, sufocando num choro histérico por terem desperdiçado a oportunidade de estarem comigo. O marido estará a dormir do seu lado de rosto apagado e estômago dilatado, enquanto eu aparecerei iluminado no santo ecrã da televisão, destruindo-lhes os frágeis nervos com o meu sorriso perfeito, atendendo mais uma homenagem ao grande Roberto Nevada por serviços inestimáveis prestados ao progresso da humanidade.
Ainda ontem me passeei pela universidade, decidi dar uma oportunidade às hordas. Todo eu mistério, alto, de cabelo ao vento, impecavelmente vestido de botas, ganga e camisa quadriculada, impecavelmente natural. Nem uma olhou para mim, como conseguem ser tão dissimuladas? Por quanto tempo vão manter esta charada, e que propósito serve a sua não prostração a mim? Apetece-me gritar “Aqui estou eu, Roberto Nevada, o mais incrível homem que jamais conheci! Estou acima de vós eu sei, mas isso nunca impediu ninguém que valesse a poeira que levanta! Pronto mundo, já sabes que eu sei, não tens de fingir mais, que caia o pano, tragam o ouro e os aplausos.
Desconfio que também tu és um sonho meu. Não há vida para além de mim, se fecho os olhos a luz do sol apagasse sobre ti. A mim, venham a mim!

domingo, novembro 02, 2014

O Único Estranho em Stonehenge



Não saberia dizer o porquê de me encontrar naquela remota zona do sul de Inglaterra, mas a verdade é que era de noite e eu caminhava na direção de Stonehenge. Aparentemente havia algum tipo de festa a decorrer, havia gente por toda a parte a falar, a tomar bebidas e a posar plasticamente para fotografias.
Vejo uma mulher loura a acenar na minha direcção, semicerro os olhos e vejo que se trata da minha ex-namorada checa, vou até ela sem saber se estou satisfeito de encontrar uma cara conhecida ou não. Ela continua na mesma, alta e esguia, os cabelos ainda encaracolados e louros porém mais longos. A mesma expressão de estrangeira e aquela aura que se reconhece em algumas mulheres de que vão sempre parecer mais velhas do que realmente são.
Não consigo dizer como a conversa começou, mas tenho a distinta sensação de sentir que aquele era um encontro desconfortável e que não me encontrava no tipo de disposição em que a conversa flua particularmente bem. Dei por mim sem saber o que dizer e em tom de conversa de circunstância pergunto-lhe pelo pai.
O pai dela era um camionista checo recém-reformado, foi dele que a Alena herdou os enormes olhos azuis. Não há muito que possa dizer dele para além disso, ele gostava das garrafas de brandy que lhe oferecia, era muito avesso a gastar dinheiro e a única observação em relação a mim que lhe conheço foi a de achar que eu tinha fisionomia de cigano. Foi por isso uma enorme surpresa para mim quando ela me disse que o seu pai, Karel Simon, estava correntemente a acabar de filmar uma curta-metragem realizada e coprotagonizada pelo lendário guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richards.
Estava ainda a digerir esse pedaço de informação quando reparo no enorme ecrã gigante onde passava o que aparentava ser um vídeo-clip musical de nada mais nada menos que Karel Simon, o camionista reformado e pai da Alena. O vídeo era uma sucessão de longos grandes planos da cara de Simon enquanto ele murmurava algo que não conseguia ouvir e de planos afastados onde Karel dançava levemente, aparentemente ao som de uma qualquer melodia, completamente vestido de bombazine de tom castanho camelo.
Os meus olhos voltam para a Ali como lhe costumava chamar, ela continua a falar das façanhas artísticas do pai enquanto beberica algo laranja de dentro de um copo alto, o ar dela é perfeitamente casual, nada daquilo é estranho para ela, aparentemente a única coisa realmente estranha ali sou eu. Reparo que algo grande se move no seu flanco esquerdo, inclino a cabeça para perceber o que se passa e vejo um cavalo e uma égua em plena e violenta cópula equestre e mais uma vez ninguém acha nada disto bizarro.
Acordo com a clara percepção de que sonho demasiado com cavalos.