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terça-feira, outubro 13, 2015

Amor e uma Caveira



Eu já estive neste sítio antes, uma mulher entra na minha vida, ela faz por me agradar e conforta-me de várias maneiras. Mas eu não me dou bem com o conforto, é sobrevalorizado e repetidamente confundido com felicidade. Eu sou Roberto Nevada, não acredito em Deus, mas o meu coração está cheio de culpa, eu sinto que devo penar por alguma coisa, não porque o mereça, mas porque é a coisa humana a fazer e eu sou todo humano.
Esta é a minha racionalização das coisas, tenho noção de que posso simplesmente ter algum tipo de perturbação de personalidade ou um muito estranho sentido de humor. Não é importante, acredita-se no que se quer, e se assim é mais vale escolher a teoria que nos agrada.
Mais uma vez uma cidade estranha e eu um estranho nela. Conforme o tempo passa sinto-o escassear. Isto nunca é mais verdade para mim do que quando partilho a vida com uma mulher, poucas coisas ocupam mais espaço que o amor, espaço e tempo são a mesma coisa, e nos mais recônditos espaços do meu ser, no meio de toda a confusão, está a clara certeza de que preciso de ambos em abundância.
E foi assim que a minha estranheza se foi instalando, comecei a beber sozinho e a isolar-me na escrita. Ela deitava-se sozinha e quando acordava para trabalhar encontrava-me a ver o Apocalipse Now de persianas corridas. As sombras fantasmagóricas refletidas na parede,  o som das explusões a ecoar pela casa, aquilo estava a dar-lhe cabo dos nervos, ela bebia o seu café com leite enquanto entre-dentes eu  repetia as palavras do Coronel Kurtz: "The horror, the horror..."
Naturalmente chegou o dia em que ela não aguentou mais, ambos tínhamos tirado tudo o que havia para tirar daquela relação. Eu nunca tentei realmente amar a Paloma e isso transparece sempre de uma forma ou outra, principalmente para uma mulher, pois um homem em toda a solidão que uma vida oferece, pode na melhor das hipóteses ser compreendido por uma mulher. Tudo o resto, os animais, as sociedades e outros homens, simplesmente não estão interessados.
Sei que estou certo, seria incapaz de errar mesmo que quisesse. O mundo está cheio de possibilidades para quem as quiser tomar, eu sou dessa cepa, Roberto Nevada, um homem disposto a viver e escrever sobre isso. E assim levava a vida, numa narrativa estranha e cómica, procurando a todo o momento colocar-me em situações de onde pudesse extrair algo que pudesse tornar em histórias, que trouxesse ao de cima a minha voz e fi-lo por amor à arte, sempre à custa de muita dor.
Aquela era a noite certa para acabar com aquele pedaço da minha vida, uns amigos vinham de Portugal naquela noite com o intuito de festejar a despedida de solteiro de um deles. Ainda eram uns poucos e alugaram uma grande carrinha de nove lugares para o efeito, na minha mente conjurava-se um plano, passaria a noite com os rapazes e no dia seguinte regressaria com eles à pátria. Raramente na minha vida o fim de algo assumia tais contornos de premeditação, a despedida da terra estranha, o enterrar da imitação de amor em que vivia, a chegada de reforços de além fronteira e a inevitável procissão de vinho e deboche mal disfarçada de despedida.
Eles chegaram ao final da tarde, foram-me apanhar a casa da Paloma onde esperava sozinho a bebericar vinho tinto, agarrei na mala com os trapos e dei uma última mirada à sala enquanto enchia o peito dela. Pensei para comigo que não me haveria de esquecer daquele cheiro, a mistura de Paloma, de Vigo e de mim, era algo que nunca poderei ou quererei partilhar, pertencia-me da única forma que alguma coisa pode realmente pertencer a alguém – o tipo de coisa que morreria comigo. Adeus Paloma.
Não vou tentar relatar em pormenor aquela que foi uma noite longa e bêbada; fomos diretos à pensão onde se tudo corresse civilizadamente deveríamos dormir, recordo-me que o proprietário era um homem de meia-idade, originário de Fornos de Algodres ou coisa que o valha, estava em Espanha desde os quinze anos de idade, não houve simpatia para um grupo de sete compatriotas eufóricos que arrendaram apenas um quarto para apenas uma noite. Seguiu-se o jantar, como estávamos em Espanha comeu-se mal, mas foi a primeira vez que vi uma stripper a fazer o seu espetáculo num restaurante.
Come-se mal bebe-se melhor, esse foi o mote do resto da noite, e é nesse período que as minhas memórias se tornam vagas. Corremos a cidade a pé entrando e saindo de bares; no meu bucho uma terrível mistura ganhava forma, os grandes cânones da civilização no que diz respeito ao álcool estavam representados na minha corrente sanguínea, ainda que seja um abuso da metáfora, eu tornara-me numa espécie de nações unidas da bebida, e tal como a minha congénere eu caminhava a passos largos para uma pesada existência desprovida de significado.
O sol nasceria em breve e alguém teve a ideia de voltarmos à pensão e relaxar um pouco. Eu estava bastante de acordo, sentia-me pesado, nas últimas horas a minha atenção virara-se para dentro de mim e apesar de considerar o mote “Conhece-te a ti próprio” como dos melhores conselhos que alguém pode seguir, desencorajo veemente esse tipo de atividade introspetiva quando sob o efeito de uma enorme bebedeira.
Subimos ao quarto com a discrição possível, sou invadido com um cheiro a pés que desafiava explicação, o sol espreitava pelas frinchas da persiana e nós íamo-nos espalhando pelo espaço, alapando o cu nas camas e acendendo cigarros. A pensão tinha uma máquina de cervejas em lata no rés-do-chão, um claro indicador da classe do estabelecimento. Proponho-me a ir buscar umas cervejinhas, e num diálogo interno convenço-me que a melhor forma de descer os dois andares de escadas é de gatas, lembro-me de me sentir muito bem com a minha decisão, meto as moedas, tiro duas cervejas e faço o percurso de volta ao quarto, não sei quanto tempo isto demorou, mas quando lá cheguei já havia grandes novidades.
“Hei Roberto, o Bicho mandou vir uma puta!”
Eu não conheço muito bem o Bicho, na verdade nem sei qual é o verdadeiro nome dele, mas basta olhar para ele para perceber que não é por ser grande. O que sei dele é que tem um gosto por cocaína e putas, atividades com bastante carga negativa é certo, mas talvez porque profissionalmente trabalha como advogado arranja forma de fazer a coisa resultar. Ele realmente lá estava a esfregar as mãos, muito entusiasmado com o que aí vinha. Sinceramente não fiz muito caso daquilo, parecia-me demasiado improvável uma pêga deslocar-se aquela hora a requisito de um português inebriado que tropeçou na secção de anúncios pessoais do Faro de Vigo.
Estávamos espalhados pelo quarto naquela já-manhã de agosto, uma nuvem de marijuana pairava sobre as nossas cabeças e a temperatura subira de tal forma que a maioria de nós estava em tronco nu. Havia muitas conversas paralelas, mas as vozes na minha cabeça clamavam mais alto, pensava na Paloma e nas palavras que me dissera. Ela acusou-me de ser emocionalmente ausente, de viver num mundo de fantasia e de ter uma perspectiva doentia do que era ser um escritor, que esse meu sonho era só uma desculpa para me comportar como uma besta egoísta. Aquilo magoou mas deixei-a falar, não vale a pena racionalizar com uma psicóloga que ganha a vida como terapeuta de Reiki, a única coisa que lhe disse, foi em resposta a um histérico pedido de explicações sobre a forma de: “Porque não me amas, Roberto?”, A única coisa que me ocorreu dizer foi: “Se não te amei é porque alguma coisa fizeste mal, mas não me venhas perguntar o que é, preciso de distância para entender seja o que for”.
Alguém bate à porta, fiquei sobressaltado e levantei-me com uma rapidez induzida pela paranoia. O Bicho arreguila muito os olhos e com uma expressão bizarramente pura declara “Chegou a nossa putinha”. Sinceramente já me tinha esquecido daquilo, não o tinha processado como uma possibilidade real, mas agora ali estávamos nós, sete cidadãos respeitáveis, expectantes e armados dos sorrisos mais perturbadores que se possam imaginar.
Ela entra, dá uma mirada rápida no cenário e recua como um chicote enquanto pergunta por outras palavras, que tipo de festa é aquela. Fico a saber que é brasileira, esse facto não é de todo surpreendente. Reconheço a expressão dos seus olhos, ela está apreensiva e para a tranquilizar digo-lhe no tom mais natural que me era possível:
 - Não te preocupes querida, aqui ninguém te quer foder.
Na verdade só podia falar por mim, mas não me parece que ela fizesse o género de alguém, e quando digo isto não me reduzo ao universo do quarto 202 da pensão Buena Fortuna em Vigo. Ela tinha um ar exótico é certo, mas era o tipo de exótico errado. Era morena, tinha caracóis secos como aparas de madeira e a boca fina de um vilão; Anca não tinha e apesar de larga não aparentava traseiro ou seios dignos de adjetivos; conforme avançava pela divisão mirei-lhe os tornozelos, eram imperdoavelmente gordos e cilíndricos como eucaliptos, o único vislumbre de relevo que tinham era forçado pelas tiras de plástico das sandálias brancas que calçava.
Nunca convivi com prostitutas, não digo que não tivesse curiosidade mas acho que a ocasião não era a melhor, o Bicho e o Quim estavam a falar com ela, havia muito riso no ar e o grupo ia-se comportando mais ou menos como hienas de volta de uma carcaça, beliscando-a e arreganhando os dentes, ela foi persuadida a “pôr-se à vontade” e a passar ali uma horita na brincadeira, como alguém colocou. Decido ir à casa de banho, Mando uma mija sentado, sinto-me pesado e cinzento como o chumbo, passo a cara por várias mãos cheias de água e fico a olhar-me ao espelho como é meu costume. Será que estou a viver a vida certa? Essa era a questão que me incomodava, e incomodava-me porque sabia que era inútil e medrosa. Sim é verdade que sou Roberto Nevada, senhor de um nome sonante e inspirador de grandeza, também é verdade que acredito que não posso errar, mas é fácil não errar quando não existe um alvo.
Enxugo a cara à t-shirt, endireito as costas e mando-me de volta para o quarto, decidido a não me dar a mais fraquezas quando dou de caras com a nova disposição de corpos. A moça estava de quatro ao centro, alguém retirara o espelho da parede e colocara-o sobre as suas costas de onde o Bicho aspirava cocaína, o Jaime apertava-lhe um seio com um ar divertido enquanto a pobre chupava o noivo que se sentara na beira da cama.
Sento-me ao lado dele, somos velhos amigos, desejo-lhe muitas felicidades para o casamento e ele sorri e diz:
-É bom que nem penses em não ir. Eu sei que ninguém aqui gosta de casamentos, mas duvido que desgostem mais do que eu.
Os seus olhos vermelhos voltam-se para a Nini (Ouvi alguém chamar-lhe aquilo), ele afaga-lhe o cabelo e com uma expressão de abandono, acrescenta:
 - Se não for por mais nada, que venham pelo bar aberto.
A Nini volta-se para mim, os nossos olhos encontram-se pela primeira vez e as suas mãos deslocam-se para a minha braguilha.
 - Oi, acho que ainda não conheço você!
Antes que possa dizer o que seja o noivo diz:
- Nini, muita atenção com esse senhor que ele é escritor! Os escritores são aliados naturais das meninas da vida e deves encarar a gaita dele com a solenidade e o respeito devido.
Ela assim faz, mas nada acontece. Passado um bocado decide-se a dizer alguma coisa, como se impelida por algum tipo de brio profissional.
 - É… Mas tem alguma coisa errada com o escritor.
Volto-me para ela, em vez de rosto encara-me uma caveira, vejo-lhe o fundo vazio e escuro das cavidades orbitais e a mandibula nua e coroada de dentes cinzentos. Olho bem fundo no escuro dos seus não-olhos e repito uma das poucas verdades absolutas que conheço:
- Não há nada de errado comigo, tu é que estás a fazer alguma coisa mal.

terça-feira, setembro 01, 2015

Anjo de Merda



Era quarta-feira à tarde e eu estava a beber café ao balcão. Nesta terra nenhum sítio faz dinheiro às três da tarde de um dia da semana, nestas alturas só se encontram desempregados e miúdos do liceu que faltam às aulas. Eu fui um miúdo que falta às aulas, e agora era um adulto entre empregos. A ironia não me escapou, deixei-me estar a fumar e a tentar não ser absorvido pela novela que passava na televisão. É importante evitar ao máximo a exposição a esse tipo de coisas, mas neste sitio nunca há nada para ler, e nesta idade não me atrevo a entrar com um livro debaixo do braço. Mais valia vir sem calças a perguntar por meninas de doze anos.
Alguém me dá uma pancada seca entre as omoplatas, viro a cara para o encarar e ele já está a sentar-se do meu lado, é o Júlio, com os seus olhos cerrados, boca  rasgada e voz funda de tenor. Bom dia da parte da tarde, diz ele como sempre disse. Pouca gente consegue repetir a mesma piada durante anos sem parecer ridículo, mas o Júlio é um tipo duro, e dureza terá sempre utilidade, é o tipo de coisa que faz um homem comportar-se com estilo.

 - Então Júlio, atracaste há muito?
- Chegámos hoje de manhã, vim aqui beber uma cerveja e ver se via alguém.

Dei por mim a reparar que ele usou o plural, típico de quem anda ao mar pensei eu.
- Devias ter ficado no barco. Só cá estou eu e os finos sabem a ferrugem.
- Bebe-se de garrafa então – disse ele enquanto pedia duas sagres ao empregado.
- Que é feito do Lauro, já não trabalha aqui?
- Não. Matou um tipo e está preso.
- Não me fodas! Como é que foi isso?
- Não sei grandes pormenores. Disseram-me que ele se envolveu com uma pêgazita que trabalhava na boîte e que ela o convenceu que era boa ideia limpar o sêbo ao marido dela. Acho que era suposto fazerem aquilo parecer um assalto, o Lauro é que o matou à facada, mas ela também estava lá. É como te disse, não sei grandes pormenores porque quando aconteceu eu ainda estava a viver em Lisboa, o que sei é que polícia chegou a eles num instante e que em menos de nada já estavam a cantar a história toda. Uns autênticos génios do crime.

- O Lauro… Um puto que só pensava em ser fuzileiro… Cruzes.
- Provavelmente tinha o que era preciso – Respondi-lhe eu.
- É, parece que sim – Disse ele a rir-se para o gargalo da cerveja.  Pobre miúdo, o pior que pode acontecer a um estupido é uma mulher maldosa. É um mundo dos diabos aí fora, não fazes ideia das merdas que tenho visto ultimamente.
 - Alguma história boa?
- Coisas do diabo, mesmo ao teu gosto, mas nada que tu possas usar percebeste? Não quero que uses o que te conto para escreveres as tuas histórias.
- Não te preocupes com isso, ninguém está muito interessado no que escrevo para além de mim.
Ele começou a contar a história.
Nesta viagem subimos o Sena até Paris para participar numa exposição de grandes veleiros. Três dias atracados a receber os visitantes no barco, três noites para bater perna pela cidade. Logo na primeira noite em que saio, dou por mim separado do resto do pessoal num bar muito escuro e de paredes vermelhas, acho que se chamava La Renard e tenho a certeza que não era uma casa de putas porque nenhuma mulher me veio cravar bebidas. 
Nisto meto conversa com uma asiática que estava ao balcão, era assim para o esguio mas bonita, cabelo apanhado no topo da cabeça, boca pintada de vermelho, uma maravilha. Falámos sempre em inglês, ela era japonesa e estava a estudar qualquer coisa relacionada com artes, eu disse-lhe que era marinheiro e vi logo que isso lhe agradou, conversa para trás e para a frente, já estávamos a beber absinto e eu com uma cegueira tal que lhe meti a mão entre as coxas ali mesmo ao balcão. Ela ficou muito quieta a olhar para mim e disse "Estou a ver que a fada verde gosta de ti".

Fomos para casa dela, sentou-me no sofá e serviu-me mais absinto. A sala tresandava a velas perfumadas, havia um gira-discos a um canto, umas prateleiras com livros e materiais de pintura, um candelabro apagado feito de frascos reutilizados pendia do tecto e parte do chão estava coberto com um plástico preto. Não liguei muito àquilo, passou-me pela cabeça que era uma tenda de campismo desmontada, estava mais focado na ideia de que estava prestes a comer a minha primeira oriental, o que para mim se equiparava a quando atravessei o atlântico pela primeira vez.  

Ela volta da casa de banho nua com excepção de uma t-shirt preta que mal lhe tapava o cu, agarrei-me logo a ela, tinha a boca doce do absinto e a pele, muito macia, cheirava a chá verde açucarado. Aquilo era tudo doce, para todos os efeitos estava a ser pago para estar em Paris a comer uma gueishazinha que tanto quanto eu sabia, tinha voado do outro lado do mundo para fazer de mim um marinheiro mais feliz. Não vale a pena ir ao mar sem acreditar que há alguma coisa no fim da viagem e eu estava satisfeito com o que me tinha calhado.

Foi ela que me conduziu do sofá para cima do plástico, eu estava em cima dela a dar-lhe, e sinto-lhe os dedos a esgueirarem-se para o meu traseiro. Bom, eu passei tempo suficiente na Alemanha para não estranhar esse tipo de coisa, mas soube que ela era do tipo audacioso quando a vi pegar num daqueles colares anais. Era constituído por oito bolas, um pequeno e ordenado sistema solar que ela queria mergulhar nas minhas trevas. Ela era Deus de mundo na mão, eu era a entropia no fundo das tripas, deixei as coisas acontecerem porque naquele momento não era-mos gente, mas sim uma antiga profecia pagã.
Gostava de conseguir explicar convenientemente o que se passou a seguir, eu tenho a minha quota de mundo, já vi e experienciei  muita coisa, mas nada como aquilo. O absinto tinha tomado as rédeas, a sala parecia estar a encolher sobre mim, ou então era eu que crescia, as chamas das velas tremiam, o plástico queixava-se debaixo de nós, eu dentro dela, aquela coisa no meu traseiro, aqueles olhos estranhos pregados nos meus, senti-me a ficar quente e sem ar.
Afasto o olhar e reparo num poster na parede, é aquela imagem do John Lennon com a  Yoko Ono, nus, de traseiros brancos à mostra a encararem-me como se tivesse interrompido o passeio deles. Eu estava quase a vir-me, lembro-me de me passar pela cabeça que o Lennon provavelmente teria passado pelo mesmo, estou mesmo a chegar lá e ela puxa aquilo de dentro de mim.

Foi como um clímax subitamente interrompido por algo tão mais poderoso, que fazia com que tudo o que sentira até então fora dor, e agora só havia um enorme alívio que só posso descrever como a mais profunda sensação de Paz. Não sei se emiti algum som porque fiquei surdo e cego por uma luz branca que me trespassou, suponho que fui para aquele lugar onde está tudo o que ainda não nasceu e tudo aquilo que ganhou o direito de morrer.
A luz começa a esmorecer, volto a sentir as fronteiras do meu corpo, os sons do quarto e os contornos de toda a minha situação. Ela está debaixo de mim, pálpebras para baixo e boca entreaberta numa expressão de beatitude. Percebo então que me caguei todo, a merda cobre uma grande parte do plástico. É quente e líquida e agora arrefece sobre tudo. A transição foi muito forte, não estava a conseguir lidar com aquilo, agarrei as calças e os sapatos e saí disparado para a casa de banho. Ainda a ouvi a dizer num suspiro, "A fada, a fada..."
O meu primeiro instinto foi olhar para o espelho, precisava de lembrar-me de quem era e do que tinha acontecido. Limpei-me o melhor que pude e fui a cambalear de volta, queria sair dali mas para isso tinha de voltar lá, pois a saída ficava do outro lado. Fui pé ante pé como um ladrão, estava confuso, bêbado, e admito que um pouco assustado em encarar aquela cena, mas quando cheguei lá foi pior do que imaginava, nada me podia ter preparado para aquilo.
Percebi o quão premeditado era aquele plástico no chão. Ela estava nua nele, deitada de costas sobre a merda, sincopadamente  a abrir braços e pernas estiradas com um grande sorriso na cara. Ver aquilo fez-me mal, saltei sobre o anjo de merda e saí porta fora. Desci dois lances de escada. Cheguei à rua e vomitei contra um poste. Estive no sublime e quando voltei tudo estava coberto de merda, foi demais para mim, eu sei que a bebida teve o seu papel, mas não foi só isso, eu estive no outro mundo, tenho a certeza disso.

- Ela estava a fazer um anjo na merda?
- Isso mesmo, como nos filmes.
- Só que em merda?
- Sim.
- Que é que estás a dizer Júlio? Agora as portas do céu ficam no cu?
- Não sei pá, onde é que tu achas que ficam?

O silêncio respondeu por mim. Talvez fiquem realmente no cu, perto o suficiente para cada um poder chegar lá, mas improvável quanto baste para afastar a maioria. Pensei um pouco no mundo, nas pessoas, na televisão, na arte, no sistema financeiro e no antigo testamento, pedi uma cerveja, pensei mais um pouco.
Cada vez mais me parecia o tipo de coisa que Deus faria.

sexta-feira, agosto 07, 2015

As Mulheres



Eu estava deitado na cama a olhar o teto do meu quarto alugado, era oficial, sábado dia vinte e nove, e por capricho do calendário eu passaria esse fim-de-semana com um orçamento total de um euro. Segunda-feira recebo, o dinheiro é transferido para a conta, aterra no saldo negativo e devolve as minhas finanças ao ponto zero. Eu vivia na linha de água, na encosta do vulcão, o tipo de vida que oferece uma boa vista, mas que no caso de desastre está entre a primeira vaga dos que são fodidos . Sim, eu estava teso, mas tinha a minha saúde, nada daquela tosse de há dois meses atrás, e viver de crédito é amplamente incentivado e visto como uma expressão natural de sofisticação civilizacional, por isso não havia razões para me sentir deprimido, suponho que mesmo que tivesse algum no bolso haveria de passar o dia sozinho, eu estava sem mulher e nenhum amigo à vista, só eu, só com os meus pensamentos, deitado de costas a olhar o teto.
 Precisava de movimento, de dar uma volta. Vesti as calças boas, a t-shirt preta e o casaco de cabedal e deixei-me estar ao espelho, estava satisfeito com a minha aparência: “És um homem bonito Roberto Nevada, alegra-te com isso”. Tinha também comida mais do que suficiente para os próximos dois dias, nunca mais faltará massa e atum em lata na civilização ocidental, por mais fodido que este país fique. O maço de cigarros contava dezoito cigarros e tinha mais de meia garrafa de Johny walker para o caso de querer molhar o bico. Riqueza por toda a parte, muita saúde e um incrível sem número de possibilidades, afinal de contas, o que são trinta e um anos de idade? Cristo só se tornou uma estrela aos trinta e três.
Sento-me na esplanada e peço um café, abro o livro e começo ler mas não me consigo concentrar. Não é a primeira vez que começo “O Mito de Sísifo” de Camus, mas mais uma vez não estou a conseguir avançar. Qual é o teu problema Roberto? Isto é suposto ser sobre a inutilidade do trabalho, devias identificar-te com isto, em vez disso estás perdido na tua cabeça, a debitar pensamentos idiotas que depois esqueces. Talvez sejas um idiota Roberto, um zé-ninguém com ilusões de grandeza, um tipo medroso, sem espinha ou estilo e com a profundidade de uma micose. Fecho o livro, a empregada chegou com o café, tenho a compleição grave dos homens que pensam coisas importantes mas concedo-lhe um sorriso e um muito obrigado. Estou mesmo de frente para o mosteiro de Mafra, a esta distância chega a desdenhar do horizonte.
Um mosteiro é um edifício inutil que serve uma ordem social perversa. A construção deste em particular partiu de sentimentos mesquinhos e foi financiado por riquezas pilhadas do outro lado do Atlântico. Foi por essas riquezas que se mataram milhares e foi esse ouro que engordou a construção deste mosteiro em particular. Ele dá-me esperança, faz-me acreditar que com tempo suficiente qualquer coisa tão absolutamente errada e causadora de sofrimento possa acabar unanimemente considerada como boa, mais que boa, um símbolo. Este é todo o catolicismo que há em mim, a consciência que sou um pecador, que continuarei a ser um pecador, e que dedicarei a vida ao arrependimento que me salvará no fim.
É possível que eu seja preguiçoso e carregado de dúvidas, e suponho que seja certo que falhei no jogo do dinheiro, e que menti, enganei e racionalizei uma quantidade respeitável de actos moralmente questionáveis. Mas também é verdade que sou um escritor, pré-história de uma grandeza que com o vento certo, quase consigo cheirar, e estes são os anos formadores, o último esticão antes da ribalta e da adulação. E se assim não for, se der por mim velho, amargo e não absolvido de toda a dor que tenho causado, bem… Aí faço das últimas palavras de Nero as minhas: “Que artista morre comigo”.
Estou de volta ao quarto, passei a tarde deitado em cima da cama a pensar com olhos no teto, e o troco do café no bolso, não tirei sequer os sapatos. Depois o jantar, fui convidado a comer um cozido que o Jaime, o tipo a quem pago a renda, preparou. Estava bom, há que dizer uma coisa sobre homossexuais de meia-idade, geralmente cozinham bem, para além de que são bons a combinar cores. Ainda me lembro do dia em que respondi ao anúncio do quarto para alugar, mal ele abriu a porta e o encarei, foi como se alguém gritasse gay dentro da minha cabeça. Nunca na vida um heterossexual de quarenta e cinco anos tentaria combinar quatro peças de vestuário, de cores completamente distintas. O Jaime tentou e conseguiu. Jaime o colorido, limpo, engomado solteirão. Jaime o catequista, o ex-seminarista, o apreciador de Abba, o cozinheiro. Jaime o dono de uma caturra e professor de Religião e Moral, duas palavras que deveriam ter vergonha de continuarem a ser vistas juntas em público.
Já é de noite e eu não fiz nada, bebo um whisky, fumo dois cigarros, fico nisto um bom bocado. É fim-de-semana, estou preso a este quarto e poderia estar a escrever, a procurar algum tipo de saída do buraco para o qual a minha vida desliza, mas não consigo concentrar-me, a cabeça processa tantos pensamentos que pouco mais me resta que abrandá-la com a bebida. Olhos incautos poderiam pensar que sou um completo falhado, que é por isso que aqui estou meio bêbado, de costas prostradas na cama a avançar em nada a cultura ocidental. Esses olhos não poderiam saber que Roberto Nevada é bombardeado pelos fantasmas dos livros futuros, que estes o torturam com incessantes descrições de histórias de mulheres e piadas escatológicas, que o fazem desordenadamente, sem enredo ou linha de raciocínio, e assim o grande futuro autor sofre as contrações de um parto que durará ainda anos, até que dê à luz um livro.
Mas para já nenhuma luz, só dor, os fantasmas não quereriam que fosse de outra forma, eles sussurram-me ao ouvido que da aventura de Jack London levarei apenas o álcool, e que da vida do Marquês de Sade, apenas a parte da cela. Eles querem a minha alma, mas não agora, quando estiver pronta.
Mulheres, é tudo por causa delas. Mulheres, arte, é tudo a mesma coisa. Eu sonho com elas, amo-as, vivo com elas e depois quero sair, porque quero outra mulher, é sempre assim. Então vem a separação, meses de agonia e culpa, principalmente por suspeitar que não sinto verdadeiramente agonia ou culpa, mas uma imitação de emoções, um mecanismo de defesa interno para evitar uma sociopatia latente. Nos dias bons acho que sou só um bom homem, com falhas é certo, mas cujas dúvidas se devem a uma boa moral. Alguém que não quer magoar ninguém e que guardará para sempre as memórias. Se tudo correr bem e com tempo suficiente, todas serão boas recordações, porque serviram um grande propósito. Todas as lágrimas, ciúmes e ressentimentos se tornarão arte, e viverão luminosos para lá de nós, tocando outras vidas e dando propósito às nossas.
As noites tornaram-se difíceis, principalmente quando tenho tempo livre. Ainda há uns meses achava que estar sozinho era tudo o que eu precisava, agora estou aqui, livre, e tudo o que consigo fazer é olhar para as malditas paredes. Estou sozinho, a Cristina esqueceu-me e anda a cavalgar um maldito ultramaratonista que trabalha na televisão, a Elisa deixou claro que não era mais bem-vindo na sua cama, acusando-me de ainda ter sentimentos pela Cristina e de ser passivo-agressivo. A Alexandra, bem, essa nem sei se continua no país, não sei nada dela há meses, tal como ela disse que haveria de ser:
-Temos de seguir em frente - disse ela. Nunca percebi a fixação com seguir em frente quando o próprio mundo é uma esfera que circula outra esfera. Senti-me a ficar ansioso, precisava de algum tipo de consolação, um toque humano e liguei a uma amiga recente que conhecera em Lisboa, o nome dela era Maria.
 Conheci a Maria na internet, ela gostava de boa música, ouvia muita música brasileira, da boa, tinha um jardim, um cão, a boca mais bonita que podem imaginar e um gosto impecável que transparecia em tudo o que fazia. Ela comprava discos de vinil na feira da ladra, compreendia poesia, construía bonitos passadiços feitos de paletes para embelezar o jardim e quando amava um homem fazia amor com ele na rua. Eu nunca fiz amor com a Maria, ela estava a ter um ano mau, eu já ia no terceiro consecutivo. Maria tinha um problema grave no único rim que lhe restava, sentia dores fortes e teria de passar em breve por uma operação, uma grande incisão que lhe abrirá meio abdómen, ela temia a cicatriz, e também outras coisas que não me chegou a confessar. Olhava para ela e admirava-lhe a dignidade, naqueles dias pareceu-me quase perfeita, uma mulher tão natural que era absurdo procurar-me nela, afinal eu era só um homem e ela era um arquétipo, um ideal, uma história completa, o pedaço da alma que faz a música soar bem.

 Ela soou animada ao telefone, estava a conduzir de volta para Lisboa depois de ter passado a tarde ao ar livre num sítio bonito, começou a falar das árvores, dos pássaros, de falésias e senti-me imediatamente muito frágil. Já não me recordo de como o disse, sei que a interrompi e a voz saiu-me alterada. Pedi-lhe se não podia fazer um desvio até Mafra, que estava mal e precisava de um abraço. Ela disse que sim, combinámos em frente ao mosteiro e chegámos ao mesmo tempo. Vou até ela e sem dizer nada abraçamo-nos.
 - “Sabias que as crianças recém-nascidas precisam de ser abraçadas, caso contrário morrem? Sei que ouvi isso em algum lado, mas agora que o disse em voz alta soa-me a treta” – Digo-lhe de testa apoiada no pescoço dela. Nunca consegui exprimir-me em condições com esta mulher, ela mantém-se silenciosa e concentrada na missão de abraçar o grande escritor no centro de Mafra.
Há sensivelmente tanto de loucura como de amor no mundo, e grande parte das vezes ficamos confusos e nem sequer é amor, mas bondade. Seja como for, enquanto houver uma Maria por aí há esperança, ela faz-me gostar das minhas probabilidades. Do sítio onde me encontro não consigo ver nada além do Mosteiro, mas sei que há um mundo para lá dele, tal como há um Roberto Nevada melhor e mais estranho. Ele virá um dia, entretanto ganha forma com a penúria, com as mulheres que dormem com ele e com as que de bondade fazem desvios para o abraçar.