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quarta-feira, janeiro 07, 2015

A Maior Piada do Mundo



Não é que as pessoas não mudem, elas mudam sim, mas para pior, e de mau para pior não é um grande salto, não é nada que faça virar cabeças, por isso, quando se soube que o Doutor Leitão tinha mandado retirar a mesa de matraquilhos do refeitório, houve bastante revolta mas nenhuma surpresa. Quando chegou finalmente a hora de almoço, comecei a ouvir os comentários mal entrei porta adentro, pois este era claramente o tema do dia:
 “Opá eu desse monte de merda espero tudo, esse gajo não nasceu, ele foi cagado.”
Esta foi a primeira que apanhei, quem a atirou foi o Guedes que falava para uma audiência de meia-dúzia. O Guedes é um alcoólico que maltrata a mulher, durante as horas do expediente não lhe é permitido beber, ele colmata essa lacuna com a sua outra paixão, esmiuçar com contornos de lirismo brejeiro, qualquer tópico ou pessoa enquanto algo abjeto. Não que ele não tenha razão no que diz respeito ao Dr. Leitão, até um relógio parado está certo duas vezes por dia, e o Guedes era de facto um relógio parado. 
O Dr. Leitão foi o fundador da empresa, ele começou-a com o seu melhor amigo no início dos anos oitenta, diz-se que o desfalcou da sua participação através de um elaborado esquema de falsificação de assinaturas e desde então o suíno reina sozinho. Há dois anos que está numa cadeira de rodas, aparentemente devido a um vírus que se alojou na sua espinal medula que o deixou paraplégico, mas para mim é mais fácil pensar que o seu corpo se revoltou consigo próprio em horror, o homem é tão absolutamente cáustico que as coisas que matariam um homem comum, na verdade preservam-no. Penso que ele sabe disso, e mantém a sua dieta de brandy e 3 maços de tabaco por dia, puramente para fins medicinais.
Enquanto contabilista na empresa tive o desprazer de ser apresentado à personalidade doentia e maldosa do Dr. Leitão logo nos primeiros dias de trabalho. Já o vi chamar funcionárias de putas, humilhar homens adultos até estes rebentarem em lágrimas e destratar autoridades como se não fosse nada, mas o episódio que mais me chocou em toda a nossa convivência, aconteceu durante uma viagem de carro a Lisboa. Nessa altura ele ainda tinha plena mobilidade das pernas, eramos quatro no carro e eu ia sentado atrás com ele. O condutor era o então director comercial, e do seu lado ia um vendedor cujo nome já não me recordo. O vendedor começou a contar uma história qualquer sobre uma mulher casada que andava a comer, eu não estava a prestar grande atenção e olhava uma grande plantação de eucaliptos que se estendiam ao longo da estrada, perdi o sentido da história, mas lembro-me que terminou com o vendedor a imitar o som do relinchar de um cavalo e de o director comercial se rir com vontade. O Dr. Leitão não emitiu um som, mas é então que percebo que algo estava errado com ele. Começou a balançar como uma vítima de trauma, os olhos muito abertos pareciam querer saltar fora das órbitas e o rosto estava horrivelmente inexpressivo e vermelho. Perguntei-lhe se ele estava bem, mas não obtive resposta, ele estava preso naquele estado e gritei para que encostassem o carro à berma. O porco saiu cambaleando, agarrou-se a um eucalipto como se à própria vida e foi aí que se deu a coisa.
Ele começou a rir. Ria como se nunca o tivesse feito antes e o corpo reagisse em choque. Ele ali estava, firmemente agarrado à árvore, como se temesse ser arrastado por aquela força estranha, exorcizando a mais assustadora forma de riso que alguma vez testemunhei, dava a ideia que nunca tinha rido antes e que o corpo interpretava aquilo como algum tipo de enfarte – Nunca tive tanto medo na minha vida.
Percebi ali naquela beira de estrada a profundeza da loucura do Dr. Leitão. No final dessa mesma semana despediu o vendedor, e até este dia continua a viver uma caricatura de vida, ofendendo homens, animais e convenções, sem que se perceba realmente o porquê.
O poder pelo poder sempre atrairá homens como o Dr. Leitão, e um dia no futuro, um como ele dará uma ordem e toda a civilização ruirá. Os edifícios vão desmoronar-se, toda a arte vai arder e no meio da confusão e fumo o suíno rirá uma vez mais.

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