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terça-feira, janeiro 20, 2015

Feita Por Medida



Ainda me lembro de quando a vi a primeira vez, eu tinha ido a uma exposição de arte no CCB, uma instalação de um sueco qualquer, sei que era sueco, porque lembro-me de pensar que os suecos só serviam mesmo para fazer mobília. Ela não devia estar a mais de seis metros de mim quando reparei na sua silhueta. Olhar para mulheres bonitas era natural para mim, eu fazia-o desde que me lembro de ser gente, mas de vez em quando, há uma mulher que nos cativa de um modo tão profundo, que todas as que vieram antes são colocadas em perspetiva, e o futuro parece morrer na curva do seu pescoço. Fiquei estarrecido, era como se nunca tivesse visto uma mulher antes. Admirei-lhe as longas pernas equilibradas em saltos finos, como que a dizer que caminhar ereta não era desafiante o suficiente. A curva do seu traseiro era tão perfeita que tive de me conter para não me ajoelhar diante dele e confessar-lhe os meus pecados. Meti conversa com ela, disse-lhe qualquer coisa como “Para mim, se não dá para enfia-la dentro de casa, ou pendura-la numa moldura, então não é arte”. Eu precisava mesmo que ela se risse daquela piada, ela assim o fez, e aí e então eu soube que tinha acabado de me meter no mais bonito sarilho. Deviam ter visto aqueles olhos, eram como pedaços de âmbar que lhe brotavam do rosto, grandes e brilhantes, eles puxavam-me como se eu não passasse de um reles inseto sorvedor de sangue, destinado a ser atraído por aquela doçura, e ali ficar cristalizado para todo o sempre na imortalidade possível das coisas. Ela gostou de mim, duas saídas depois foi o primeiro beijo, e três meses depois já partilhávamos casa. Estou exposto ao amor todos os dias, vejo-o acontecer à minha frente, a jorrar de dentro de mim, mas como posso perceber o mecanismo de um fenómeno que surge do nada? Como gerir a informação ou interpretar os dados quando estou a lidar com uma fonte de infinito?
Não interessa. Ela é barulhenta na cama e silenciosa quando chora. Tem cócegas no pescoço, e quando estamos muito próximos, de olhos nos olhos, há um nadinha de estrabismo na sua vista esquerda. É tão perfeitamente bela, que parece ter sido feita para mim.

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