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domingo, janeiro 04, 2015

O Massacre de Dia de S. Valentim



Estava a ser uma semana difícil.  Fazia um mês que ela tinha saído de casa e eu não tinha grande vontade de fazer fosse o que fosse. Ela teve a atitude de um cavalheiro e saiu, eu não discuti, afinal de contas fora eu que despoletara a queda de Constantinopla quando lhe disse que já não sentia o mesmo por ela. Ela também já não sentia o mesmo por mim, mas certas mulheres odeiam ficar por baixo, seja na vida seja no sexo, e quando confrontada com a minha iniciativa em terminar o banho morno que se tornara a nossa relação, toda a competitividade que lhe era natural gritou, e nas horas que antecederam a sua saída, massacrou-me sem piedade. Senti-me como o Jake LaMotta no último assalto do combate que viria a ser conhecido como “o massacre de Dia de S. Valentim”, ela correu toda a escala emocional, desgastou-me com as mesmas perguntas circulares que respondi sempre, muito atenciosamente, com ligeiras alterações de forma e sintaxe, fiz isto por respeito às palavras e para tentar escapar ao ambiente de interrogatório que se instalava. Depois veio a fase histérica, ela gritava enquanto me desconstruía, chamou-me uma tentativa falhada de um homem, um tipo reles, imprestável e mentiroso, um verme miserável e sexualmente inapto. Eu era Jake LaMotta naquele 13º round, nada a fazer senão avançar para os golpes e apanhar a tareia – Um homem pode quebrar-te, mas uma mulher pode te levar à loucura, se vexada ela consegue transformar o teu mundo num canudo e de seguida sodomizar-te com ele, elas são simplesmente melhores. Depois disso vieram as lágrimas, escorriam-lhe da cara, faziam-me vacilar, aquilo era tão doloroso de se ver que estive quase a voltar atrás na decisão, mas uma voz na minha cabeça encorajava-me – “Não desistas Jake, não vais ganhar, mas se caíres agora perdes bem mais do que um título, mantém-te de pé campeão.”
Ouve-se a sineta e acabou, graças a deus por isso, agora é tempo de lamber as feridas, posso estar aliviado agora mas amanhã vai doer a sério – E assim foi.
Primeiros dias todo eu era dor, depois a dor foi passando e entrei naquela familiar sensação de recomeço, sentia que a vida era novamente um horizonte de possibilidades, tudo podia acontecer, amanhã poderia estar a cheirar uma nova mulher ou a viver por cima de uma churrascaria em Nova Orleães, liberdade total, afinal de contas eu havia sobrevivido ao pior, estava bêbado de otimismo, típico de quem recupera de uma tareia, de alguma forma enganamo-nos e assumimos que a vida vai ser isso - cada vez menos dor.
Mas as coisas não funcionam assim. A motivação funciona mais ou menos como uma piça, não se pode andar de pau feito o dia todo, inevitavelmente vais-te querer vir, esquecer-te dela e procurar qualquer coisa decente para ver na televisão.
Cruzo-me com ela, somos ambos muito civilizados e em celebração da nossa modernidade vamos beber um café como bons amigos – “Jake LaMotta e Ray Robinson, dois valentes gladiadores, bravos adversários no ringue agora vistos juntos em animada cavaqueira numa esplanada no Harlem, isto é bonito de se ver senhoras e senhores.”
Então ela larga a bomba, Conheceu alguém, nem um mês passou e já tem um homem novo, mais alto do que eu e extremamente fotogénico. Ela está bonita, cortou o cabelo e está a usar maquilhagem, imagino-os aos dois, a maquilhagem desbotada, o sacana está a comê-la por trás e ela com uma expressão de “Nunca fui fodida assim em toda a minha vida”, imagino que se deva ao facto de ele ser tão alto, os seus cinco centímetros de vantagem sobre mim devem de alguma forma facilitar a estimulação do ponto G. Oh Como é cruel a genética, tão cruel quanto as mulheres, ela esqueceu-me, como pôde ela esquecer-me tão depressa? Tenho de sair daqui já!
O problema do boxe é este, as consequências prolongam-se para além da campainha, podes sobreviver ao combate, conduzires-te como um campeão e no final acabar com um inchaço no cérebro ou uma retina deslocada, para sempre quebrado, um já-era incapaz de subir de novo a um ringue. E se assim é no boxe, também o é nas relações, e enquanto eu me dedico a imprestáveis exercícios de metáfora, relacionando vida e boxe, a minha pragmática ex-namorada dedica-se a chupar o senhor que se segue, demonstrando o poder de recuperação típico de quem, no final de contas, venceu o combate.
Estou deitado no sofá num domingo á noite, a banca da cozinha está cheia de louça por lavar, não levo o lixo lá fora há uns dias e penso que está a atrair ratos. Quando estava com ela pensava frequentemente em como queria estar sozinho, agora só consigo pensar em como ela estava bonita com aquele novo corte de cabelo.
 https://www.youtube.com/watch?v=F2ZO9X7c98c

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