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quinta-feira, abril 23, 2015

Céu Aos Retalhos



Eu chegara a um ponto em que começava a reconhecer as caras no comboio. Esta seria a minha vida durante os próximos meses e lembro-me de pensar que deveria estar na fase que ficava entre o “não sei quem é esta gente” e a posterior e inevitável “não quero saber quem é esta gente”.
Passei os primeiros dias a olhar para tantos quanto me era possível. Cansados de manhã, esgotados no final da tarde, de ouvidos tapados ao mundo e olhos fixos nos telefones inteligentes, ninguém conversa com ninguém e no entanto há vislumbres de uma enorme vontade de criar uma ligação, de retirar algum tipo de consolo uns dos outros, mas de quem?
O comboio continua e  com o tempo o meu humor piora. É fácil acreditar em conceitos como a sociedade quando se está rodeado de homens livres, raramente se sente este tipo de coisa olhando os rostos queimados de uma praia, mas basta fechar um bom número de gente contrariada dentro de carruagens para se tornar notório a que esforços se prestam para não encararem o seu semelhante.
Estava a 35 minutos do final da linha, nada a fazer senão manter o rabo sentado. Lembro-me de olhar pela janela e apreciar a linha do horizonte recortada pelos diferentes telhados e fachadas de prédios. Pensei se haveria alguma mensagem escondida nessa aparente desordem,  se todos aqueles ângulos fossem convertidos numa escala, a que tipo de música soaria? Os homens sempre olharam para o céu em busca de respostas, e se Deus no seu infinito sadismo tivesse implantado uma ideia no inconsciente de todos esses arquitectos e empreiteiros? Terá este céu aos retalhos algo a dizer-me?
O comboio abrandou ao aproximar-se da estação. De cabeça encostada à janela e olhos pregados no alto eu sonhava ainda com sinais escondidos e foi nesse mesmo instante que no meu campo de visão surgiu um pombo. Ele estava pousado no topo de um poste de iluminação. Do seu cu obscenamente virado para mim jorrava a mensagem escondida.
Não esperei que ele acabasse, não havia nada de novo ali.

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