Blogs Portugal

sábado, junho 27, 2015

India, Nevada



A India tinha com sucesso fodido a minha pessoa em múltiplas frentes. Apesar de acreditar que fui feito para climas quentes, havia algo que se colocava entre mim e o sol em Nova Dheli, não via um céu azul desde que aterrara e uma enorme nuvem de merda gasosa criava um efeito de estufa em toda a cidade. Passei demasiado tempo a entrar e sair de carros e edifícios, constantemente debaixo de ar condicionado, enquanto esvaia em suor das virilhas. O meu humor era de uma letargia inquieta, o meu corpo estendia-se no chão fresco da cozinha, mas a mente não parava de criar terríveis fantasias onde de uma distância confortável matava milhares, queimava a sua terra e depois esquecia-os para sempre. Sim, esta terra estava a fazer-me alguma coisa, no início pensei que estava a matar-me, mas com o tempo percebi que fosse o que fosse que me estava a acontecer, eu iria sobreviver à experiência. A questão maior prendia-se com a única informação mais importante que saber o que nos está a matar: Que tipo de homem esta vida me está a tornar, e particularmente nesta situação, qual o papel do olho-do-cú da Ásia em tudo isto.
Eu não sabia o que queria da vida, nem tampouco o que queria a vida de mim, não havia sinais em lado algum, nada na natureza, nada nas igrejas ou nas drogas, não tive outra hipótese senão seguir as pessoas, apesar de não estar inteiramente certo do que elas seguiam por sua vez. Foi assim que fui parar à India, foi uma sugestão do meu chefe, um dia ele disse-me que abrira uma posição interessante naquela parte do mundo, o trabalho ideal para um jovem ambicioso como eu. Eu não fazia ideia que era ambicioso, mas não me conseguia lembrar de nenhuma razão para duvidar dele, e foi assim que aceitei. Durante o período que antecedeu a minha partida fiz alguma pequena pesquisa em livros e na internet, percebi que me aborrecia rapidamente ao ler sobre locais, mas gostava das fotos que eram regra geral muito coloridas. A India adquiria contornos alienígenas, rostos escuros e alongados, cidades cor-de-rosa, estranhos ritos funerários e uma imensidão de deuses e homens santos. Dentro de mim formava-se a ideia de que se tratava de um local místico, uma terra santa onde encontraria um sentido, ou pelo menos alguma coisa de sagrado, algo que não mude diante dos meus olhos e que viva dentro de mim para sempre.
Isso não foi o que aconteceu.
Rapidamente percebi que o trabalho era um buraco, supostamente estava lá para fazer contactos e fechar contratos com o governo indiano para utilização do nosso serviço de fretagem de helicópteros. Eu não quero estar a entrar em grandes detalhes, mas digamos que o meu antecessor esteve dois anos na India sem fazer uma única venda. Suponho que seja por isso que este sítio seja classificado como uma economia emergente e não como uma economia emergida, ainda assim, os executivos de topo da Helixus Corporation compreendiam o conceito de trabalho sem esperança, aceitavam-no com a naturalidade de quem percebe que o desperdício de tempo, esforço e dinheiro é a fundação do sistema capitalista. Ainda hoje me surpreende as enormes possibilidades que a sociedade coloca à disposição de fazer consideráveis maquias de dinheiro a fazer fundamentalmente nada.
Ser um branco em Nova Dehli coloca-nos num grau de semi-divindade. Os locais vão fotografar-te, por vezes temer-te e sempre que puderem vão tentar retirar alguma coisa de ti, afinal de contas não és realmente humano, és uma personagem de uma fábula que transpira dinheiro sentado no banco traseiro do carro. Preferia que me desprezassem como um maldito demónio imperialista, a ser pouco mais que um meio para um fim, mas essa não é maneira de se tratar uma divindade, não na India nem em parte alguma.
E que tenho eu para mostrar um ano depois? Litros de rum cortado com água, um respeitável rol de passarinha engatada em festas de embaixada, uma diarreia fiel que parece que durará para sempre? Sim, tinha isso tudo, mas os meus nervos estavam desfeitos, demasiado tempo livre e todo o veneno do mundo, uma estrela-vermelha e doente, pronta para levar mundos inteiros consigo.
Até que eu tive o sinal.
Foi depois de um almoço carregado, dei por mim sentado num riquexó a ser puxado pelo meio de Old Dehli, tinha começado a cair uma chuva miudinha que fez cair a temperatura uns 10 graus no espaço de meia hora, era agradável. Eu estava rodeado das cores sujas que cobrem a velha Dehli, milhares de caras por toda a parte, o cheiro de especiarias e merda de cão dançava em pequenas partículas entre as gotas da chuva e agarrando-se às ondas de som de milhares de buzinas e vozes, pintavam um retrato bonito de uma civilização que elevou o caótico ao nível de arte. Deevan, o tipo que puxava o riquexó à força das pernas magras ia enumerando as coisas que segundo a sua experiência impressionavam um ocidental: “Old Sith temple, spice market… Cow… “
Foi então que sem pensar nisso lhe disse: “Take me to where God is”, ele perguntou-me a qual deles e eu repliquei que me levasse ao mais próximo. Ele deixou-me junto a uma enorme mesquita, dei-lhe uma gorjeta e deixei-me ficar por ali debaixo da chuva, num estado de espírito que consigo apenas descrever como uma bebedeira sem sintomas. Olho para a minha direita e uma vaca sagrada e um cão sarnento comiam do mesmo monte de lixo que se acumulava numa sarjeta, por cima deles pendia um belíssimo emaranhado de cabos elétricos e a vida pulsava em cada esquina, ela caía do céu, escorria das ruas e das casas, troçando da morte e acolhendo tudo o que é belo e feio simultaneamente e foi aí que tive uma visão do sublime.
Quis balançar-me nos cabos elétricos, rebolar-me na refeição do cão e da vaca, ser esfaqueado numa viela apertada da velha Dehli e beijar cada uma destas pessoas na boca. Eu ria e chorava em êxtase, mas o meu rosto mantinha-se inalterado. Tive a sensação de que não estava sozinho, de que eu fazia parte de tudo, para além até do que os meus olhos conseguiam alcançar, e não era belo, feio, certo ou errado, mas era alguma coisa e era imenso.
Na India nada é sagrado, e suponho que isso se estenda ao resto do mundo. Mas eu, Roberto Nevada, tive visões de sublime em coisas que inspiram medo, horror e desprezo.
A esperança chegou a mim, ancorou-se no porto do meu coração e aí fundeou para nunca mais partir.

Sem comentários: