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sexta-feira, agosto 07, 2015

As Mulheres



Eu estava deitado na cama a olhar o teto do meu quarto alugado, era oficial, sábado dia vinte e nove, e por capricho do calendário eu passaria esse fim-de-semana com um orçamento total de um euro. Segunda-feira recebo, o dinheiro é transferido para a conta, aterra no saldo negativo e devolve as minhas finanças ao ponto zero. Eu vivia na linha de água, na encosta do vulcão, o tipo de vida que oferece uma boa vista, mas que no caso de desastre está entre a primeira vaga dos que são fodidos . Sim, eu estava teso, mas tinha a minha saúde, nada daquela tosse de há dois meses atrás, e viver de crédito é amplamente incentivado e visto como uma expressão natural de sofisticação civilizacional, por isso não havia razões para me sentir deprimido, suponho que mesmo que tivesse algum no bolso haveria de passar o dia sozinho, eu estava sem mulher e nenhum amigo à vista, só eu, só com os meus pensamentos, deitado de costas a olhar o teto.
 Precisava de movimento, de dar uma volta. Vesti as calças boas, a t-shirt preta e o casaco de cabedal e deixei-me estar ao espelho, estava satisfeito com a minha aparência: “És um homem bonito Roberto Nevada, alegra-te com isso”. Tinha também comida mais do que suficiente para os próximos dois dias, nunca mais faltará massa e atum em lata na civilização ocidental, por mais fodido que este país fique. O maço de cigarros contava dezoito cigarros e tinha mais de meia garrafa de Johny walker para o caso de querer molhar o bico. Riqueza por toda a parte, muita saúde e um incrível sem número de possibilidades, afinal de contas, o que são trinta e um anos de idade? Cristo só se tornou uma estrela aos trinta e três.
Sento-me na esplanada e peço um café, abro o livro e começo ler mas não me consigo concentrar. Não é a primeira vez que começo “O Mito de Sísifo” de Camus, mas mais uma vez não estou a conseguir avançar. Qual é o teu problema Roberto? Isto é suposto ser sobre a inutilidade do trabalho, devias identificar-te com isto, em vez disso estás perdido na tua cabeça, a debitar pensamentos idiotas que depois esqueces. Talvez sejas um idiota Roberto, um zé-ninguém com ilusões de grandeza, um tipo medroso, sem espinha ou estilo e com a profundidade de uma micose. Fecho o livro, a empregada chegou com o café, tenho a compleição grave dos homens que pensam coisas importantes mas concedo-lhe um sorriso e um muito obrigado. Estou mesmo de frente para o mosteiro de Mafra, a esta distância chega a desdenhar do horizonte.
Um mosteiro é um edifício inutil que serve uma ordem social perversa. A construção deste em particular partiu de sentimentos mesquinhos e foi financiado por riquezas pilhadas do outro lado do Atlântico. Foi por essas riquezas que se mataram milhares e foi esse ouro que engordou a construção deste mosteiro em particular. Ele dá-me esperança, faz-me acreditar que com tempo suficiente qualquer coisa tão absolutamente errada e causadora de sofrimento possa acabar unanimemente considerada como boa, mais que boa, um símbolo. Este é todo o catolicismo que há em mim, a consciência que sou um pecador, que continuarei a ser um pecador, e que dedicarei a vida ao arrependimento que me salvará no fim.
É possível que eu seja preguiçoso e carregado de dúvidas, e suponho que seja certo que falhei no jogo do dinheiro, e que menti, enganei e racionalizei uma quantidade respeitável de actos moralmente questionáveis. Mas também é verdade que sou um escritor, pré-história de uma grandeza que com o vento certo, quase consigo cheirar, e estes são os anos formadores, o último esticão antes da ribalta e da adulação. E se assim não for, se der por mim velho, amargo e não absolvido de toda a dor que tenho causado, bem… Aí faço das últimas palavras de Nero as minhas: “Que artista morre comigo”.
Estou de volta ao quarto, passei a tarde deitado em cima da cama a pensar com olhos no teto, e o troco do café no bolso, não tirei sequer os sapatos. Depois o jantar, fui convidado a comer um cozido que o Jaime, o tipo a quem pago a renda, preparou. Estava bom, há que dizer uma coisa sobre homossexuais de meia-idade, geralmente cozinham bem, para além de que são bons a combinar cores. Ainda me lembro do dia em que respondi ao anúncio do quarto para alugar, mal ele abriu a porta e o encarei, foi como se alguém gritasse gay dentro da minha cabeça. Nunca na vida um heterossexual de quarenta e cinco anos tentaria combinar quatro peças de vestuário, de cores completamente distintas. O Jaime tentou e conseguiu. Jaime o colorido, limpo, engomado solteirão. Jaime o catequista, o ex-seminarista, o apreciador de Abba, o cozinheiro. Jaime o dono de uma caturra e professor de Religião e Moral, duas palavras que deveriam ter vergonha de continuarem a ser vistas juntas em público.
Já é de noite e eu não fiz nada, bebo um whisky, fumo dois cigarros, fico nisto um bom bocado. É fim-de-semana, estou preso a este quarto e poderia estar a escrever, a procurar algum tipo de saída do buraco para o qual a minha vida desliza, mas não consigo concentrar-me, a cabeça processa tantos pensamentos que pouco mais me resta que abrandá-la com a bebida. Olhos incautos poderiam pensar que sou um completo falhado, que é por isso que aqui estou meio bêbado, de costas prostradas na cama a avançar em nada a cultura ocidental. Esses olhos não poderiam saber que Roberto Nevada é bombardeado pelos fantasmas dos livros futuros, que estes o torturam com incessantes descrições de histórias de mulheres e piadas escatológicas, que o fazem desordenadamente, sem enredo ou linha de raciocínio, e assim o grande futuro autor sofre as contrações de um parto que durará ainda anos, até que dê à luz um livro.
Mas para já nenhuma luz, só dor, os fantasmas não quereriam que fosse de outra forma, eles sussurram-me ao ouvido que da aventura de Jack London levarei apenas o álcool, e que da vida do Marquês de Sade, apenas a parte da cela. Eles querem a minha alma, mas não agora, quando estiver pronta.
Mulheres, é tudo por causa delas. Mulheres, arte, é tudo a mesma coisa. Eu sonho com elas, amo-as, vivo com elas e depois quero sair, porque quero outra mulher, é sempre assim. Então vem a separação, meses de agonia e culpa, principalmente por suspeitar que não sinto verdadeiramente agonia ou culpa, mas uma imitação de emoções, um mecanismo de defesa interno para evitar uma sociopatia latente. Nos dias bons acho que sou só um bom homem, com falhas é certo, mas cujas dúvidas se devem a uma boa moral. Alguém que não quer magoar ninguém e que guardará para sempre as memórias. Se tudo correr bem e com tempo suficiente, todas serão boas recordações, porque serviram um grande propósito. Todas as lágrimas, ciúmes e ressentimentos se tornarão arte, e viverão luminosos para lá de nós, tocando outras vidas e dando propósito às nossas.
As noites tornaram-se difíceis, principalmente quando tenho tempo livre. Ainda há uns meses achava que estar sozinho era tudo o que eu precisava, agora estou aqui, livre, e tudo o que consigo fazer é olhar para as malditas paredes. Estou sozinho, a Cristina esqueceu-me e anda a cavalgar um maldito ultramaratonista que trabalha na televisão, a Elisa deixou claro que não era mais bem-vindo na sua cama, acusando-me de ainda ter sentimentos pela Cristina e de ser passivo-agressivo. A Alexandra, bem, essa nem sei se continua no país, não sei nada dela há meses, tal como ela disse que haveria de ser:
-Temos de seguir em frente - disse ela. Nunca percebi a fixação com seguir em frente quando o próprio mundo é uma esfera que circula outra esfera. Senti-me a ficar ansioso, precisava de algum tipo de consolação, um toque humano e liguei a uma amiga recente que conhecera em Lisboa, o nome dela era Maria.
 Conheci a Maria na internet, ela gostava de boa música, ouvia muita música brasileira, da boa, tinha um jardim, um cão, a boca mais bonita que podem imaginar e um gosto impecável que transparecia em tudo o que fazia. Ela comprava discos de vinil na feira da ladra, compreendia poesia, construía bonitos passadiços feitos de paletes para embelezar o jardim e quando amava um homem fazia amor com ele na rua. Eu nunca fiz amor com a Maria, ela estava a ter um ano mau, eu já ia no terceiro consecutivo. Maria tinha um problema grave no único rim que lhe restava, sentia dores fortes e teria de passar em breve por uma operação, uma grande incisão que lhe abrirá meio abdómen, ela temia a cicatriz, e também outras coisas que não me chegou a confessar. Olhava para ela e admirava-lhe a dignidade, naqueles dias pareceu-me quase perfeita, uma mulher tão natural que era absurdo procurar-me nela, afinal eu era só um homem e ela era um arquétipo, um ideal, uma história completa, o pedaço da alma que faz a música soar bem.

 Ela soou animada ao telefone, estava a conduzir de volta para Lisboa depois de ter passado a tarde ao ar livre num sítio bonito, começou a falar das árvores, dos pássaros, de falésias e senti-me imediatamente muito frágil. Já não me recordo de como o disse, sei que a interrompi e a voz saiu-me alterada. Pedi-lhe se não podia fazer um desvio até Mafra, que estava mal e precisava de um abraço. Ela disse que sim, combinámos em frente ao mosteiro e chegámos ao mesmo tempo. Vou até ela e sem dizer nada abraçamo-nos.
 - “Sabias que as crianças recém-nascidas precisam de ser abraçadas, caso contrário morrem? Sei que ouvi isso em algum lado, mas agora que o disse em voz alta soa-me a treta” – Digo-lhe de testa apoiada no pescoço dela. Nunca consegui exprimir-me em condições com esta mulher, ela mantém-se silenciosa e concentrada na missão de abraçar o grande escritor no centro de Mafra.
Há sensivelmente tanto de loucura como de amor no mundo, e grande parte das vezes ficamos confusos e nem sequer é amor, mas bondade. Seja como for, enquanto houver uma Maria por aí há esperança, ela faz-me gostar das minhas probabilidades. Do sítio onde me encontro não consigo ver nada além do Mosteiro, mas sei que há um mundo para lá dele, tal como há um Roberto Nevada melhor e mais estranho. Ele virá um dia, entretanto ganha forma com a penúria, com as mulheres que dormem com ele e com as que de bondade fazem desvios para o abraçar.

1 comentário:

A que sabe uma alma disse...

Muito bonito. Gostei muito e hostava de saber mais sobre este Roberto. Nao sei se tens intenções de o explorar mas acho que devias.

Keep going e publica por amor de deus!