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terça-feira, setembro 01, 2015

Anjo de Merda



Era quarta-feira à tarde e eu estava a beber café ao balcão. Nesta terra nenhum sítio faz dinheiro às três da tarde de um dia da semana, nestas alturas só se encontram desempregados e miúdos do liceu que faltam às aulas. Eu fui um miúdo que falta às aulas, e agora era um adulto entre empregos. A ironia não me escapou, deixei-me estar a fumar e a tentar não ser absorvido pela novela que passava na televisão. É importante evitar ao máximo a exposição a esse tipo de coisas, mas neste sitio nunca há nada para ler, e nesta idade não me atrevo a entrar com um livro debaixo do braço. Mais valia vir sem calças a perguntar por meninas de doze anos.
Alguém me dá uma pancada seca entre as omoplatas, viro a cara para o encarar e ele já está a sentar-se do meu lado, é o Júlio, com os seus olhos cerrados, boca  rasgada e voz funda de tenor. Bom dia da parte da tarde, diz ele como sempre disse. Pouca gente consegue repetir a mesma piada durante anos sem parecer ridículo, mas o Júlio é um tipo duro, e dureza terá sempre utilidade, é o tipo de coisa que faz um homem comportar-se com estilo.

 - Então Júlio, atracaste há muito?
- Chegámos hoje de manhã, vim aqui beber uma cerveja e ver se via alguém.

Dei por mim a reparar que ele usou o plural, típico de quem anda ao mar pensei eu.
- Devias ter ficado no barco. Só cá estou eu e os finos sabem a ferrugem.
- Bebe-se de garrafa então – disse ele enquanto pedia duas sagres ao empregado.
- Que é feito do Lauro, já não trabalha aqui?
- Não. Matou um tipo e está preso.
- Não me fodas! Como é que foi isso?
- Não sei grandes pormenores. Disseram-me que ele se envolveu com uma pêgazita que trabalhava na boîte e que ela o convenceu que era boa ideia limpar o sêbo ao marido dela. Acho que era suposto fazerem aquilo parecer um assalto, o Lauro é que o matou à facada, mas ela também estava lá. É como te disse, não sei grandes pormenores porque quando aconteceu eu ainda estava a viver em Lisboa, o que sei é que polícia chegou a eles num instante e que em menos de nada já estavam a cantar a história toda. Uns autênticos génios do crime.

- O Lauro… Um puto que só pensava em ser fuzileiro… Cruzes.
- Provavelmente tinha o que era preciso – Respondi-lhe eu.
- É, parece que sim – Disse ele a rir-se para o gargalo da cerveja.  Pobre miúdo, o pior que pode acontecer a um estupido é uma mulher maldosa. É um mundo dos diabos aí fora, não fazes ideia das merdas que tenho visto ultimamente.
 - Alguma história boa?
- Coisas do diabo, mesmo ao teu gosto, mas nada que tu possas usar percebeste? Não quero que uses o que te conto para escreveres as tuas histórias.
- Não te preocupes com isso, ninguém está muito interessado no que escrevo para além de mim.
Ele começou a contar a história.
Nesta viagem subimos o Sena até Paris para participar numa exposição de grandes veleiros. Três dias atracados a receber os visitantes no barco, três noites para bater perna pela cidade. Logo na primeira noite em que saio, dou por mim separado do resto do pessoal num bar muito escuro e de paredes vermelhas, acho que se chamava La Renard e tenho a certeza que não era uma casa de putas porque nenhuma mulher me veio cravar bebidas. 
Nisto meto conversa com uma asiática que estava ao balcão, era assim para o esguio mas bonita, cabelo apanhado no topo da cabeça, boca pintada de vermelho, uma maravilha. Falámos sempre em inglês, ela era japonesa e estava a estudar qualquer coisa relacionada com artes, eu disse-lhe que era marinheiro e vi logo que isso lhe agradou, conversa para trás e para a frente, já estávamos a beber absinto e eu com uma cegueira tal que lhe meti a mão entre as coxas ali mesmo ao balcão. Ela ficou muito quieta a olhar para mim e disse "Estou a ver que a fada verde gosta de ti".

Fomos para casa dela, sentou-me no sofá e serviu-me mais absinto. A sala tresandava a velas perfumadas, havia um gira-discos a um canto, umas prateleiras com livros e materiais de pintura, um candelabro apagado feito de frascos reutilizados pendia do tecto e parte do chão estava coberto com um plástico preto. Não liguei muito àquilo, passou-me pela cabeça que era uma tenda de campismo desmontada, estava mais focado na ideia de que estava prestes a comer a minha primeira oriental, o que para mim se equiparava a quando atravessei o atlântico pela primeira vez.  

Ela volta da casa de banho nua com excepção de uma t-shirt preta que mal lhe tapava o cu, agarrei-me logo a ela, tinha a boca doce do absinto e a pele, muito macia, cheirava a chá verde açucarado. Aquilo era tudo doce, para todos os efeitos estava a ser pago para estar em Paris a comer uma gueishazinha que tanto quanto eu sabia, tinha voado do outro lado do mundo para fazer de mim um marinheiro mais feliz. Não vale a pena ir ao mar sem acreditar que há alguma coisa no fim da viagem e eu estava satisfeito com o que me tinha calhado.

Foi ela que me conduziu do sofá para cima do plástico, eu estava em cima dela a dar-lhe, e sinto-lhe os dedos a esgueirarem-se para o meu traseiro. Bom, eu passei tempo suficiente na Alemanha para não estranhar esse tipo de coisa, mas soube que ela era do tipo audacioso quando a vi pegar num daqueles colares anais. Era constituído por oito bolas, um pequeno e ordenado sistema solar que ela queria mergulhar nas minhas trevas. Ela era Deus de mundo na mão, eu era a entropia no fundo das tripas, deixei as coisas acontecerem porque naquele momento não era-mos gente, mas sim uma antiga profecia pagã.
Gostava de conseguir explicar convenientemente o que se passou a seguir, eu tenho a minha quota de mundo, já vi e experienciei  muita coisa, mas nada como aquilo. O absinto tinha tomado as rédeas, a sala parecia estar a encolher sobre mim, ou então era eu que crescia, as chamas das velas tremiam, o plástico queixava-se debaixo de nós, eu dentro dela, aquela coisa no meu traseiro, aqueles olhos estranhos pregados nos meus, senti-me a ficar quente e sem ar.
Afasto o olhar e reparo num poster na parede, é aquela imagem do John Lennon com a  Yoko Ono, nus, de traseiros brancos à mostra a encararem-me como se tivesse interrompido o passeio deles. Eu estava quase a vir-me, lembro-me de me passar pela cabeça que o Lennon provavelmente teria passado pelo mesmo, estou mesmo a chegar lá e ela puxa aquilo de dentro de mim.

Foi como um clímax subitamente interrompido por algo tão mais poderoso, que fazia com que tudo o que sentira até então fora dor, e agora só havia um enorme alívio que só posso descrever como a mais profunda sensação de Paz. Não sei se emiti algum som porque fiquei surdo e cego por uma luz branca que me trespassou, suponho que fui para aquele lugar onde está tudo o que ainda não nasceu e tudo aquilo que ganhou o direito de morrer.
A luz começa a esmorecer, volto a sentir as fronteiras do meu corpo, os sons do quarto e os contornos de toda a minha situação. Ela está debaixo de mim, pálpebras para baixo e boca entreaberta numa expressão de beatitude. Percebo então que me caguei todo, a merda cobre uma grande parte do plástico. É quente e líquida e agora arrefece sobre tudo. A transição foi muito forte, não estava a conseguir lidar com aquilo, agarrei as calças e os sapatos e saí disparado para a casa de banho. Ainda a ouvi a dizer num suspiro, "A fada, a fada..."
O meu primeiro instinto foi olhar para o espelho, precisava de lembrar-me de quem era e do que tinha acontecido. Limpei-me o melhor que pude e fui a cambalear de volta, queria sair dali mas para isso tinha de voltar lá, pois a saída ficava do outro lado. Fui pé ante pé como um ladrão, estava confuso, bêbado, e admito que um pouco assustado em encarar aquela cena, mas quando cheguei lá foi pior do que imaginava, nada me podia ter preparado para aquilo.
Percebi o quão premeditado era aquele plástico no chão. Ela estava nua nele, deitada de costas sobre a merda, sincopadamente  a abrir braços e pernas estiradas com um grande sorriso na cara. Ver aquilo fez-me mal, saltei sobre o anjo de merda e saí porta fora. Desci dois lances de escada. Cheguei à rua e vomitei contra um poste. Estive no sublime e quando voltei tudo estava coberto de merda, foi demais para mim, eu sei que a bebida teve o seu papel, mas não foi só isso, eu estive no outro mundo, tenho a certeza disso.

- Ela estava a fazer um anjo na merda?
- Isso mesmo, como nos filmes.
- Só que em merda?
- Sim.
- Que é que estás a dizer Júlio? Agora as portas do céu ficam no cu?
- Não sei pá, onde é que tu achas que ficam?

O silêncio respondeu por mim. Talvez fiquem realmente no cu, perto o suficiente para cada um poder chegar lá, mas improvável quanto baste para afastar a maioria. Pensei um pouco no mundo, nas pessoas, na televisão, na arte, no sistema financeiro e no antigo testamento, pedi uma cerveja, pensei mais um pouco.
Cada vez mais me parecia o tipo de coisa que Deus faria.

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