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terça-feira, outubro 13, 2015

Amor e uma Caveira



Eu já estive neste sítio antes, uma mulher entra na minha vida, ela faz por me agradar e conforta-me de várias maneiras. Mas eu não me dou bem com o conforto, é sobrevalorizado e repetidamente confundido com felicidade. Eu sou Roberto Nevada, não acredito em Deus, mas o meu coração está cheio de culpa, eu sinto que devo penar por alguma coisa, não porque o mereça, mas porque é a coisa humana a fazer e eu sou todo humano.
Esta é a minha racionalização das coisas, tenho noção de que posso simplesmente ter algum tipo de perturbação de personalidade ou um muito estranho sentido de humor. Não é importante, acredita-se no que se quer, e se assim é mais vale escolher a teoria que nos agrada.
Mais uma vez uma cidade estranha e eu um estranho nela. Conforme o tempo passa sinto-o escassear. Isto nunca é mais verdade para mim do que quando partilho a vida com uma mulher, poucas coisas ocupam mais espaço que o amor, espaço e tempo são a mesma coisa, e nos mais recônditos espaços do meu ser, no meio de toda a confusão, está a clara certeza de que preciso de ambos em abundância.
E foi assim que a minha estranheza se foi instalando, comecei a beber sozinho e a isolar-me na escrita. Ela deitava-se sozinha e quando acordava para trabalhar encontrava-me a ver o Apocalipse Now de persianas corridas. As sombras fantasmagóricas refletidas na parede,  o som das explusões a ecoar pela casa, aquilo estava a dar-lhe cabo dos nervos, ela bebia o seu café com leite enquanto entre-dentes eu  repetia as palavras do Coronel Kurtz: "The horror, the horror..."
Naturalmente chegou o dia em que ela não aguentou mais, ambos tínhamos tirado tudo o que havia para tirar daquela relação. Eu nunca tentei realmente amar a Paloma e isso transparece sempre de uma forma ou outra, principalmente para uma mulher, pois um homem em toda a solidão que uma vida oferece, pode na melhor das hipóteses ser compreendido por uma mulher. Tudo o resto, os animais, as sociedades e outros homens, simplesmente não estão interessados.
Sei que estou certo, seria incapaz de errar mesmo que quisesse. O mundo está cheio de possibilidades para quem as quiser tomar, eu sou dessa cepa, Roberto Nevada, um homem disposto a viver e escrever sobre isso. E assim levava a vida, numa narrativa estranha e cómica, procurando a todo o momento colocar-me em situações de onde pudesse extrair algo que pudesse tornar em histórias, que trouxesse ao de cima a minha voz e fi-lo por amor à arte, sempre à custa de muita dor.
Aquela era a noite certa para acabar com aquele pedaço da minha vida, uns amigos vinham de Portugal naquela noite com o intuito de festejar a despedida de solteiro de um deles. Ainda eram uns poucos e alugaram uma grande carrinha de nove lugares para o efeito, na minha mente conjurava-se um plano, passaria a noite com os rapazes e no dia seguinte regressaria com eles à pátria. Raramente na minha vida o fim de algo assumia tais contornos de premeditação, a despedida da terra estranha, o enterrar da imitação de amor em que vivia, a chegada de reforços de além fronteira e a inevitável procissão de vinho e deboche mal disfarçada de despedida.
Eles chegaram ao final da tarde, foram-me apanhar a casa da Paloma onde esperava sozinho a bebericar vinho tinto, agarrei na mala com os trapos e dei uma última mirada à sala enquanto enchia o peito dela. Pensei para comigo que não me haveria de esquecer daquele cheiro, a mistura de Paloma, de Vigo e de mim, era algo que nunca poderei ou quererei partilhar, pertencia-me da única forma que alguma coisa pode realmente pertencer a alguém – o tipo de coisa que morreria comigo. Adeus Paloma.
Não vou tentar relatar em pormenor aquela que foi uma noite longa e bêbada; fomos diretos à pensão onde se tudo corresse civilizadamente deveríamos dormir, recordo-me que o proprietário era um homem de meia-idade, originário de Fornos de Algodres ou coisa que o valha, estava em Espanha desde os quinze anos de idade, não houve simpatia para um grupo de sete compatriotas eufóricos que arrendaram apenas um quarto para apenas uma noite. Seguiu-se o jantar, como estávamos em Espanha comeu-se mal, mas foi a primeira vez que vi uma stripper a fazer o seu espetáculo num restaurante.
Come-se mal bebe-se melhor, esse foi o mote do resto da noite, e é nesse período que as minhas memórias se tornam vagas. Corremos a cidade a pé entrando e saindo de bares; no meu bucho uma terrível mistura ganhava forma, os grandes cânones da civilização no que diz respeito ao álcool estavam representados na minha corrente sanguínea, ainda que seja um abuso da metáfora, eu tornara-me numa espécie de nações unidas da bebida, e tal como a minha congénere eu caminhava a passos largos para uma pesada existência desprovida de significado.
O sol nasceria em breve e alguém teve a ideia de voltarmos à pensão e relaxar um pouco. Eu estava bastante de acordo, sentia-me pesado, nas últimas horas a minha atenção virara-se para dentro de mim e apesar de considerar o mote “Conhece-te a ti próprio” como dos melhores conselhos que alguém pode seguir, desencorajo veemente esse tipo de atividade introspetiva quando sob o efeito de uma enorme bebedeira.
Subimos ao quarto com a discrição possível, sou invadido com um cheiro a pés que desafiava explicação, o sol espreitava pelas frinchas da persiana e nós íamo-nos espalhando pelo espaço, alapando o cu nas camas e acendendo cigarros. A pensão tinha uma máquina de cervejas em lata no rés-do-chão, um claro indicador da classe do estabelecimento. Proponho-me a ir buscar umas cervejinhas, e num diálogo interno convenço-me que a melhor forma de descer os dois andares de escadas é de gatas, lembro-me de me sentir muito bem com a minha decisão, meto as moedas, tiro duas cervejas e faço o percurso de volta ao quarto, não sei quanto tempo isto demorou, mas quando lá cheguei já havia grandes novidades.
“Hei Roberto, o Bicho mandou vir uma puta!”
Eu não conheço muito bem o Bicho, na verdade nem sei qual é o verdadeiro nome dele, mas basta olhar para ele para perceber que não é por ser grande. O que sei dele é que tem um gosto por cocaína e putas, atividades com bastante carga negativa é certo, mas talvez porque profissionalmente trabalha como advogado arranja forma de fazer a coisa resultar. Ele realmente lá estava a esfregar as mãos, muito entusiasmado com o que aí vinha. Sinceramente não fiz muito caso daquilo, parecia-me demasiado improvável uma pêga deslocar-se aquela hora a requisito de um português inebriado que tropeçou na secção de anúncios pessoais do Faro de Vigo.
Estávamos espalhados pelo quarto naquela já-manhã de agosto, uma nuvem de marijuana pairava sobre as nossas cabeças e a temperatura subira de tal forma que a maioria de nós estava em tronco nu. Havia muitas conversas paralelas, mas as vozes na minha cabeça clamavam mais alto, pensava na Paloma e nas palavras que me dissera. Ela acusou-me de ser emocionalmente ausente, de viver num mundo de fantasia e de ter uma perspectiva doentia do que era ser um escritor, que esse meu sonho era só uma desculpa para me comportar como uma besta egoísta. Aquilo magoou mas deixei-a falar, não vale a pena racionalizar com uma psicóloga que ganha a vida como terapeuta de Reiki, a única coisa que lhe disse, foi em resposta a um histérico pedido de explicações sobre a forma de: “Porque não me amas, Roberto?”, A única coisa que me ocorreu dizer foi: “Se não te amei é porque alguma coisa fizeste mal, mas não me venhas perguntar o que é, preciso de distância para entender seja o que for”.
Alguém bate à porta, fiquei sobressaltado e levantei-me com uma rapidez induzida pela paranoia. O Bicho arreguila muito os olhos e com uma expressão bizarramente pura declara “Chegou a nossa putinha”. Sinceramente já me tinha esquecido daquilo, não o tinha processado como uma possibilidade real, mas agora ali estávamos nós, sete cidadãos respeitáveis, expectantes e armados dos sorrisos mais perturbadores que se possam imaginar.
Ela entra, dá uma mirada rápida no cenário e recua como um chicote enquanto pergunta por outras palavras, que tipo de festa é aquela. Fico a saber que é brasileira, esse facto não é de todo surpreendente. Reconheço a expressão dos seus olhos, ela está apreensiva e para a tranquilizar digo-lhe no tom mais natural que me era possível:
 - Não te preocupes querida, aqui ninguém te quer foder.
Na verdade só podia falar por mim, mas não me parece que ela fizesse o género de alguém, e quando digo isto não me reduzo ao universo do quarto 202 da pensão Buena Fortuna em Vigo. Ela tinha um ar exótico é certo, mas era o tipo de exótico errado. Era morena, tinha caracóis secos como aparas de madeira e a boca fina de um vilão; Anca não tinha e apesar de larga não aparentava traseiro ou seios dignos de adjetivos; conforme avançava pela divisão mirei-lhe os tornozelos, eram imperdoavelmente gordos e cilíndricos como eucaliptos, o único vislumbre de relevo que tinham era forçado pelas tiras de plástico das sandálias brancas que calçava.
Nunca convivi com prostitutas, não digo que não tivesse curiosidade mas acho que a ocasião não era a melhor, o Bicho e o Quim estavam a falar com ela, havia muito riso no ar e o grupo ia-se comportando mais ou menos como hienas de volta de uma carcaça, beliscando-a e arreganhando os dentes, ela foi persuadida a “pôr-se à vontade” e a passar ali uma horita na brincadeira, como alguém colocou. Decido ir à casa de banho, Mando uma mija sentado, sinto-me pesado e cinzento como o chumbo, passo a cara por várias mãos cheias de água e fico a olhar-me ao espelho como é meu costume. Será que estou a viver a vida certa? Essa era a questão que me incomodava, e incomodava-me porque sabia que era inútil e medrosa. Sim é verdade que sou Roberto Nevada, senhor de um nome sonante e inspirador de grandeza, também é verdade que acredito que não posso errar, mas é fácil não errar quando não existe um alvo.
Enxugo a cara à t-shirt, endireito as costas e mando-me de volta para o quarto, decidido a não me dar a mais fraquezas quando dou de caras com a nova disposição de corpos. A moça estava de quatro ao centro, alguém retirara o espelho da parede e colocara-o sobre as suas costas de onde o Bicho aspirava cocaína, o Jaime apertava-lhe um seio com um ar divertido enquanto a pobre chupava o noivo que se sentara na beira da cama.
Sento-me ao lado dele, somos velhos amigos, desejo-lhe muitas felicidades para o casamento e ele sorri e diz:
-É bom que nem penses em não ir. Eu sei que ninguém aqui gosta de casamentos, mas duvido que desgostem mais do que eu.
Os seus olhos vermelhos voltam-se para a Nini (Ouvi alguém chamar-lhe aquilo), ele afaga-lhe o cabelo e com uma expressão de abandono, acrescenta:
 - Se não for por mais nada, que venham pelo bar aberto.
A Nini volta-se para mim, os nossos olhos encontram-se pela primeira vez e as suas mãos deslocam-se para a minha braguilha.
 - Oi, acho que ainda não conheço você!
Antes que possa dizer o que seja o noivo diz:
- Nini, muita atenção com esse senhor que ele é escritor! Os escritores são aliados naturais das meninas da vida e deves encarar a gaita dele com a solenidade e o respeito devido.
Ela assim faz, mas nada acontece. Passado um bocado decide-se a dizer alguma coisa, como se impelida por algum tipo de brio profissional.
 - É… Mas tem alguma coisa errada com o escritor.
Volto-me para ela, em vez de rosto encara-me uma caveira, vejo-lhe o fundo vazio e escuro das cavidades orbitais e a mandibula nua e coroada de dentes cinzentos. Olho bem fundo no escuro dos seus não-olhos e repito uma das poucas verdades absolutas que conheço:
- Não há nada de errado comigo, tu é que estás a fazer alguma coisa mal.

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