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domingo, fevereiro 15, 2015

Sem Cheta Em Haia




- Olha que eu sou bastante directa.
- Eu gosto disso.
- Não sei se gostas, é uma espécie de falta de controlo.
- Está bem. Vejo-me a gostar.
- E nunca estou relaxada.
- E porquê?
- É assim. Não dá para mudar, só controlar.

Eu andava a ler Nietzsche na altura, e suponho que a um nível semiconsciente eu estivesse à procura de uma montanha para escalar, mas mulheres não são montanhas, um erro idiota e comum que acabaria por se fazer notar. Sim ela era bonita, um pouco magra talvez, mas muito inteligente, sei disso porque demasiadas vezes não percebia o que queria dizer ou a que se referia. Ela citava-me poesia indiana do sec. XI, chamava-me o seu ladrão de amor, levava-me a exposições de pintura e reparava em coisas como “a representação da luz”. Na cama era intensa de um modo perturbador, vinha-se sempre muitas vezes e normalmente acabava em lágrimas.
E bebia. Bebia apenas vinho tinto, mas muito.
Eramos diferentes, ela eclética mas descontrolada, eu um romântico que venerava o arquétipo do artista bêbado e autodestrutivo. Enquanto eu ainda procurava as perguntas certas, para ela nada mais importava senão as respostas, em pouco tempo passei a ser uma fonte de frustração para ela, enquanto eu desenvolvia um profundo e amargo ressentimento.

- Gostas de pessoas que acabam malucas? – Perguntou-me ela um dia.
- Os loucos têm sempre as melhores histórias.
- Já estou a perceber porque tens a ilusão de que gostas de loucos. O problema é que os loucos gostam pouco de contar histórias, preferem vivê-las. Há loucos e loucos, mas sei que viver com um pode ser doloroso.

Fiquei sem saber de onde vinha o conhecimento prático que tinha sobre a loucura. Teria ela em tempos vivido com alguém perturbado? Ou estaria a referir-se a si própria conforme começava a suspeitar? Era outra característica dela, teimava em não falar do passado e deixava a meu cargo a responsabilidade de o construir na minha mente. Uma vez disse-lhe que não havia nada que pudesse dizer que estragasse fosse o que fosse, mas ela interpretou-me da pior maneira possível e em pouco tempo não havia nada de natural ou saudável na forma como comunicávamos.
Finalmente estava a viver a vida dos meus heróis, era um desempregado numa terra estranha, refém de uma mulher que não compreendia e que queria o meu corpo e alma. Ela tinha pago por inteiro por esse direito, cobrira as despesas da minha passagem para Haia, e era às suas custas que fumava e bebia durante dias a fio. O meu estado de espírito tornou-se doentio e mórbido.

 - Não preferias ver-me morto?
- Porque é que me estás a dizer uma coisa dessas?
- Mantenho um certo romance com a morte.
- E como se ultrapassa isso?
- Não se ultrapassa a morte, vive-se com ela.

Ela perguntou-me de lágrimas nos olhos porque falava tanto de morte com ela, eu disse-lhe que não sabia porquê. 

- Estás sempre a queixar-te de que não te falo nada do meu passado, que te julgo estúpido e inútil, aparentemente na tua cabeça o problema sou sempre eu, pois bem, hoje estou numa de te responder, de que queres falar? O que me queres perguntar? Julgo-te bem menos do que aquilo que imaginas… Então? Porque não dizes nada? Porquê tão monocórdico? Sou muito monopolizadora não é? Quando o que tu gostas é do macho duro e inócuo!

 Percebi aí e então que já não queria saber, aquilo que tínhamos tido estava morto e para lá da salvação, então fiquei especado a olhar a sua cara distorcida pelo desespero e disse-lhe:

- Isso é nos homens. Mulheres gosto delas faladoras.
- Olha estás a ver, aproveita então!
- Vou até ao bar.
- Merda para ti! 

Ela gritou as palavras e atirou o copo de vinho à parede. Eu saí porta fora disposto a cumprir a minha promessa. Hoje embebedo-me em conformidade, amanhã pego nas minhas coisas e ponho-me a andar. As ruas estão cheias de gente, é uma noite fria em Haia e todos os olhares estão presos no espetáculo de fogo-de-artifício. Estou sozinho, sem dinheiro e sem resoluções de ano novo para além de uma tremenda sede e uma vontade de cortar com esta maldita cidade. Compro uma cerveja e digo a mim próprio – Feliz ano novo Roberto Nevada.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Boa Noite e Foda-se



Tinha apanhado o comboio de Aveiro para Lisboa e era suposto estar um tipo na estação para me apanhar. Ao telefone disseram-me que seria conduzido a uma festa e na manhã seguinte haveria a apresentação oficial do meu livro. Nunca fui de negar atenção, mas agora que o comboio parara na estação do oriente, pensei que era um servicinho de merda ir buscar um desconhecido às 00:32 horas de uma sexta-feira á noite. Quando saí da carruagem fiquei a olhar à volta como um idiota, influenciado por todas as matinés que vi, fiquei à espera de ver alguém de fato a segurar uma cartolina com o meu nome. Esse não era o caso, não vi o meu nome em parte alguma e fiz o que qualquer homem decente faria na minha situação – acendi um cigarro.
Quase de imediato sinto um toque no ombro, volto-me, e encaro com um tipo muito próximo de mim.
- O meu nome é Roberto Nevada e estou aqui para o levar – Disse ele num tom de mensagem pré-gravada.
Eu não estava a contar com aquilo e com o sobressalto deixo cair o cigarro que me pendia da boca, fiz meio gesto para o apanhar (desistindo a meio) e entre o agachar-me, o erguer-me de novo e a mala que me escorregava do ombro, digo-lhe:
- O meu nome é Adriano.
- Eu sei. Vamos lá então, tenho o carro nas traseiras.
Ele seguia dois passos à minha frente, andando muito direito como que a dizer que controlava a situação. Devia estar nos 30 como eu, usava sandálias de couro preto, calças justas de bombazine côr de vinho, e uma t-shirt preta com uma imagem de um porco numa cadeira de rodas sobre grandes letras garrafais que soletravam a palavra “NADA”. De cara era moreno e ostentava uma dessas espessas barbas negras da moda.
O carro estava impecavelmente limpo, não sei porquê, mas fiquei à espera de algo diferente quando encarei com o fulano. Ele conduzia devagar e silencioso, o rádio estava sintonizado nas notícias, aparentemente o mar continuava a devorar o areal das praias e um autarca qualquer dizia estar muito preocupado, apesar de nada na sua voz o fazer adivinhar. A minha mente começou a vaguear para uma memória antiga, uma noite em que fui praticamente violado por uma finalista de farmácia, na praia da rocha.
- Você é ator? – Disse ele ao mesmo tempo que desligou o rádio.
- Eu? Não, eu escrevo.
- Ainda bem! Estava na dúvida, mas sendo assim tudo bem.
- Não gosta de atores?
- Não, nem pensar. Trata-me por tu.
- Porquê essa posição tão forte em relação a uma classe inteira de pessoas?
 - Porquê? Por toda a bazófia. Eles andam por aí aos milhares com óculos escuros de quinhentos euros e madeixas pintadas com uma sensação completamente injustificada de valor próprio. Sempre a sair de um ginásio ou a entrar num restaurante de sushi, depois de uma tarde de retratos autoinfligidos num espelho de casa de banho. Estamos a falar de uma atividade repetidamente desempenhada por animais! Qual é o valor disso? Porquê o orgulho quando a maioria não chegará ao estatuto da Lassie? Quero dizer, eu estou a conduzir um carro, conseguirá um cão fazer isto? Não neste transito pá! Para mim o que eles fazem é uma brincadeira, coisas de miúdos, e de alguma forma passaram de escravos na Roma Antiga a líderes do novo mundo. Não sei onde esta merda vai parar enquanto… Ora, ora, aqui temos outro exemplo de um “ofício” também desempenhado por cães.
Era uma operação stop, estavam a fazer os condutores encostar e quando chegou a nossa vez de encarar o polícia, este manteve a cadência do seu gesto – Havíamos sido escolhidos.
O polícia aproximou-se da janela do condutor, tinha uma cara angulosa bizarramente parecida com a do nosso Presidente e dava a ideia de ter nascido para usar aquele chapéu.
 - Boa noite. Carta de condução e os documentos da viatura por favor.
Eu nunca gostei de figuras de autoridade, especialmente quando envergam uniformes e pistolas à cintura. Estes encontros ainda que inofensivos, eram extremamente pouco naturais. Quando confrontado pela polícia, a minha atitude mudava, era como se fosse de novo um rapazinho que leva os deveres à professora, esperando que os seus olhos terminem de perscrutar os papéis, querendo nada para além de agradar a poderosa figura que enverga a régua de madeira. Autoridade verga a alma, medo e a intimidação são as suas ferramentas, é o tipo de coisa que me deixa um sabor estranho na boca, ainda que agora eu era apenas o passageiro, e essa é uma grande atenuante em quase tudo na vida.
- Boa noite senhor guarda. Seu pisso!
O sangue gelou-se-me nas veias. O polícia também sentiu o choque. Ali estava eu dentro de um carro com um desconhecido que acabara de insultar gratuitamente um homem com poder de fogo e mandatado para impor respeito sobre tudo aquilo que representa. Roberto Nevada foi muito claro no seu insulto, a palavra saí-lhe disparada da boca, nunca ninguém tinha chamado pisso a alguém desta forma, ele estendeu a palavra para além da sua métrica natural, sibilando-a como uma serpente venenosa, e sem correr o risco de exagerar digo que nunca na minha vida havia ouvido algo tão intrinsecamente odioso.
- Desculpe senhor guarda, eu posso explicar, sofro de um transtorno neuropsiquiátrico.
Ele entrega um envelope ao guarda, pelo aspeto parece algum tipo de declaração médica que o agente retira das mãos de Roberto Nevada, reparo que este recuou um passo como que a colocar-se em melhor posição para fazer fogo, enquanto olha alternadamente a carta e o condutor com o auxílio da sua lanterna.
- Chama-se síndrome de tourette senhor guarda, é um distúrbio que provoca acessos incontroláveis de tiques e insultos. A carta foi escrita pelo médico que me acompanha, mas tem também aí uma outra declaração emitida pelo gabinete de comunicação da P.S.P.
Eu estava embasbacado com tudo aquilo, o guarda também parecia atarantado, o único que parecia calmo era Roberto Nevada, como se habituado ver-se nesta situação.
- Vá-se lá embora daqui! – Disse o sósia do nosso presidente, enquanto atirava as folhas para o colo de Roberto Nevada.
- Obrigado senhor guarda. Boa noite e foda-se!
O carro arranca, estávamos livres.
- Santa mãe de Deus! Acabei de viver o momento mais surreal da minha vida.
- Pois, é natural, síndrome de tourette é uma doença rara.
- Sim, pois… Já tinha ouvido falar, mas nunca conheci ninguém que sofresse disso.
- Nem eu. Aquilo foi tudo um espetáculo, não tenho síndrome de tourette. O meu padrasto é psiquiatra, apanhei-o a comer uma colega do trabalho e chantageei-o a passar-me o diagnóstico caso contrário contava tudo à minha velhota.
-E porquê? Porquê passar voluntariamente por alguém que tem um distúrbio mental?
- Ora porquê?! Não viste? Posso mandar foder a polícia. Quanta gente pode realmente fazer isso? É no raro que está o valor, ou não?
Fiquei em silêncio a olhar para a cara do meu estranho motorista improvisado, recostei-me no assento do carro e fiquei a matutar naquilo tudo. É verdade que a raridade, mais do que a utilidade está irremediavelmente ligada ao valor, e se assim é, este tal de Roberto Nevada não é nada menos que um tesouro.