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sábado, maio 02, 2015

O Eletrão Humano



Ao observar um eletrão é possível saber o percurso que este faz ao mover-se através do espaço, ou determinar onde se encontra. Contudo não é possível saber as duas coisas ao mesmo tempo, a medição de um, afetará irremediavelmente o outro. Esta era também a perceção que eu tinha de Roberto Nevada, de que de alguma forma o meu papel de observador tinha tanto de limitado, como de criador da estranha realidade que se revelava diante dos meus olhos. Roberto sabia que eu prestava atenção e agindo em concordância, o seu comportamento adquiria contornos de uma enorme e estranha imprevisibilidade. Perguntei-me muitas vezes quão diferente seria o Roberto quando não estava comigo, ouvia rumores sobre esses períodos, a multiplicidade de histórias e registos não ajudavam a perceber o homem e quando perguntava a alguém que opinião tinham dele os mais elucidados, quer por maior inteligência, quer por maior convivência, respondiam em tom conformado mais ou menos o mesmo:
- Não faço a menor ideia de quem é Roberto Nevada.
Aparentemente não trabalhava, pelo menos não como o resto de nós. Em tempos ouvi um rumor de que retirava os rendimentos da internet através de uma plataforma de sites pornográficos onde supostamente geria os conteúdos. Também ouvi que foi ele que antecipou o sucesso de vídeos online de idiotas a jogar jogos de vídeo e que enquanto sócio silencioso de um dos mais popularmente idiotas, estava a retirar milhares de dólares por mês, tudo pago pelos anunciantes que publicitam nos intervalos. Era assim, ele sabia coisas, conseguia antecipar tendências, como se estivesse de algum modo sintonizado com alguma coisa que todos partilhamos, uma uni-mente idiota que se quer vir e ser entretida.
Roberto Nevada parecia ser desprovido de sentido político. Conseguia começar uma argumentação num tom quase idealista e acabar três frases depois num profundo niilismo, vi-o repetidamente a ler livros de desenvolvimento pessoal enquanto fumava em cadeia e coçava os tomates, e, por alguma estranha razão exigia fatura com número de contribuinte em todas as compras que fazia, mesmo que fosse só tomar um café. Ele odiava atores, profundamente. Quando lhe perguntei porquê disse-me de lágrimas nos olhos que num intervalo de cinco anos tinha sido violado por dois membros do elenco da novela Vila Faia. Este era o problema, ele parecia sincero, mas era tudo demasiado bizarro e improvável, no entanto não o apanhei numa mentira uma única vez.
Faz hoje um ano que o vi pela última vez, suponho que sempre soube que um dia ele iria desaparecer por uns tempos ou até para sempre. Não se pode ser tão aleatório e multifacetado vivendo muito tempo no mesmo sítio, mas eu sinto falta do meu amigo, ele não tornava a vida mais colorida, só chamava a atenção para quão aborrecido tudo o resto era. Quando passo junto ao prédio onde morava recordo-me da única frase que fazia questão de repetir: “Se alguma coisa te soar estúpida então é porque é importante”. Penso que ele queria que eu fizesse alguma coisa com este pedaço de sabedoria, mas cada vez mais tudo me parece a um certo nível estúpido e igualmente não importante.
E que posso eu fazer afinal? Não sou um Roberto Nevada, sou só alguém que o amava como amigo e as coisas que não compreendo serão sempre aquelas que amo mais.