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sábado, julho 04, 2015

Livre Para Ser uma Besta



 - Roberto, anda aqui que quero falar contigo.

O velhote nunca foi muito natural, mas os nervos fizeram aquilo soar ainda mais estranho. Eu já sabia qual era o assunto, então segui-o até ao escritório, que em tempos fora o meu quarto, com um caminhar forçadamente leve; acho que sou mais como o meu pai do que aquilo que gosto de admitir.
Ele susteve a respiração e disparou:

- Ouve lá mas tu andas na passa ou quê?
- Estás a perguntar-me se eu fumo?
- Que caralho de espetáculo foi aquele que tu deste na televisão?
- Estás a referir-te à história dos tomates?
- Pois claro que me estou a referir à história dos tomates. Tu achas que aquilo é atitude que se tenha em público? Na televisão?

Ele estava a referir-se à minha participação num programa cultural que dava no canal dois, enquanto novo autor em destaque havia sido convidado para uma entrevista seguida da leitura de dois ou três parágrafos do livro. Uns dias antes enviara os trechos que queria lêr no ar e tinha a distinta sensação que isso ia dar merda. O único tipo de profecias em que acredito são as que montamos para nós próprios, e deus nosso senhor sabe que eu preciso de algum misticismo na minha vida, assim sendo, escolhi a parte em que o protagonista fantasia com a ideia de sodomizar uma galinha, é uma descrição detalhada, e totalmente inapropriada para a frágil estrutura mental do telespectador médio, ainda que estejamos a falar de um programa cultural.
Passado duas horas tinha um tipo da produção a ligar-me, ele abordou o assunto como quem aborda um tigre anestesiado, eu estava a saborear a coisa, tinha acabado de me sentar na retrete quando o telemóvel tocou, o que fez com que o meu estranho e lento discurso de compreensão fosse pontuado com aqueles inconfundíveis sons, que eu ampliava posicionando estrategicamente o telemóvel. Eu percebi a confusão na voz dele, isso agradou-me, é assim que se criam histórias.

O programa era em directo, o estúdio era bastante pequeno e eu era a coisa mais sólida nas redondezas, era capaz de destruir o cenário inteiro se assim quisesse e estava confiante que dava cabo do apresentador se a questão se colocasse, estava a sentir-me bem, capaz de lutar com um pittbull dentro de uma cabine telefónica, eram os primeiros dias do verão, a minha época preferida do ano. E pronto, não vale a pena racionalizar a coisa, quando a entrevista estava a chegar ao fim, o tipo perguntou-me de onde vinha a minha escrita, disse-lhe que não sabia, mas que tinha a ideia que os meus tomates tinham alguma coisa a ver com isso.
 - “Acho que não escreveria este livro se não tivesse tomates. Por isso é que gosto de afagá-los enquanto leio as minhas coisas, faz-me sentir centrado”.
E então li, e resultou, realmente senti-me mais centrado. Tive o vislumbre de mais um dos pequenos mecanismos da vida dos homens em sociedade, eu era afinal de contas um homem livre, um estranho a dizer coisas estranhas, aparentemente inoculado contra a vergonha e vergonhosamente confortável na sua própria pele. Um homem livre não é coisa que se veja todos os dias, os rostos voltam-se na minha direção e tenho o apelo de um grave acidente na beira da estrada. De futuro as pessoas vão querer estar junto a mim, eu não irei precisar delas, e elas amar-me-ão por isso, mesmo que não o saibam.