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quinta-feira, outubro 20, 2016

Tal Como Nos Filmes



Isto passou-se no fim-de-semana passado, eu tinha decidido dar uma volta pela festa da paróquia, estava demasiado calor para ficar dentro de casa. A festa continuava a ser no mesmo sítio de quando eu era pequeno. Carros de choque, pistolas de plástico, bancas de bolivianos a venderem cachimbos e bandeiras com imagens de bandas, olho pelo canto do olho para o Jim Morrison, Che Guevara  e o Sitting Bull, mortos e impressos  em polyester no outro lado do mundo, são testemunhos vivos de aonde um pouco de excelência e boa aparência te podem conduzir – A uma estampagem numa t-shirt.

No final do corredor das barracas o espaço abre numa praça, há um grupo de miúdos a partir a louça branca que ganharam nas rifas, enquanto uma banda de brasileiros toca música em espanhol no coreto. Eu procuro um sítio onde me possa encostar a beber uma cerveja, mas principalmente preciso de virar as costas à multidão. A maioria dos sítios, roulottes de farturas, bifanas e cachorros à brasileira têm luzes demasiado fortes para o meu temperamento, o tipo de luzes que se espera encontrar em salas de operações, amplificada pelas paredes de plástico branco e reflectida de volta em cada poro de pele. Franqueza demais para mim, quanto melhor vejo alguém mais estranho e feio me parece (eu incluído), sou um homem que procura a meia-luz, mais um reflexo da minha natureza moderada.

Encontro uma barraquinha em tons honestos de madeira e fornecida do que se pode chamar de luz ambiente. Eu conheço de reputação o “capitão” da operação, O Professor Oliveira é um homem nervoso, um professor reformado e improvável explorador de banca na festa local. Tem o ressentimento típico de quem sente que é mais inteligente que os outros, mas basicamente é um homem com dificuldades em se relacionar, bem no meio de uma actividade nada familiar que no entanto insiste em levar a cabo todos os anos desde que se aposentou. Ele perde dinheiro, perde a paciência, mas persiste, o que não faz muito sentido já que ele não gosta particularmente de pessoas, nem da cidade e muito menos da padroeira.
Encosto-me ao balcão e peço uma cerveja.

- Aqui só servimos em copo de vidro, mas tem de beber aqui ao balcão.
- Por mim tudo bem.
- Neste estabelecimento somos orgulhosamente civilizados, nada de deambular de copo de plástico na mão, esta merda não é a América.
- Pois não.
- Vai querer uma sandes de leitão? – Apontado na direcção do porco cuja cabeça espreitava da sua caixa de cartão.
- Não.
- Não?! Por acaso não reparou no preço? Estou a vender sandes de leitão a um euro!
Olho de novo para o leitão, de olhos rasgados e boca escancarada parecia divertir-se com aquilo tudo.
- Não tenho fome.
-Ótimo! De qualquer maneira estou a perder dinheiro, mais vale que vá para o lixo.

O Professor vira-me as costas e vai direito ao leitão onde prossegue em trinchar o bicho em bocados ainda mais pequenos com repetidos golpes erráticos e irados, de vez em quando metia uma febra à boca e mastigava-a furiosamente como se estivesse mais interessado em castigar a carne do que propriamente saboreá-la. Tornava-se claro o porquê da pouca afluência nesta barraca, esta é afinal de contas uma terra de brandos costumes e os locais não estavam interessados em aturar este tipo de coisa, havia apenas outro cliente para além de mim e dava para ver que estava interessado em ser ouvido.

- Boa noite jovem, está a gostar da festa? 

- Acho que ninguém gosta realmente desta festa.

O homem gostou da resposta, mais não seja porque não lhe cortei a hipótese de continuar a falar. Se tivesse de adivinhar diria que era das idades do Professor, mas aparentava o desgaste de quem passou demasiados anos a beber ao sol. Ele vestia um fato azul temperado pelo tempo, o colarinho da camisa estava engelhado de um modo que fazia pensar que dormira com ela vestida e no topo da cabeça, um chapéu de vaqueiro iguais aos que os bolivianos vendiam por dez euros, ou sete caso leves dois.

- Haaaa sim, sim, é verdade, hahaaaa, sim. O meu nome é Hernani Sardo, um apoiante da nobre iniciativa do Professor Doutor Oliveira. Há muita verdade no que disse, sabe? Toda esta celebração reflecte uma enorme falta de preparação, e isso é fatal jovem, tanto aqui como no teatro. Passei muito tempo nos palcos e sei do que é que estou a falar.

Ele realçou esta última parte escancarando os olhos como que a insinuar para onde esta conversa se deveria dirigir. Quando o fez vi-lhe o sangue raiando os olhos azuis como uma coroa funerária. Eu não estava interessado em ouvir as suas memórias romantizadas no teatro amador, mas sempre tive dificuldade em ser desagradável para com desconhecidos, principalmente quando têm o ar trágico do Sr. Hernani Sardo, apesar disso, limitei-me a sorrir e a beber mais um golo da minha cerveja em copo de vidro.

- Estou também a levar a cabo uma acção de sensibilização sobre a qualidade da água da rede pública, infelizmente não tenho nenhuma brochura comigo, mas sabia que estudos recentes provam que a adição de flúor e cloro na nossa água são a causa do aumento exponencial de doenças como cancro, autismo e pedra nos rins? Digo-lhe uma coisa meu caro senhor, um filtro de água doméstico com rede de micróporos quânticos é provavelmente o melhor investimento que alguém preocupado com a sua saúde e bem-estar geral pode fazer.

- Não está no topo das minhas prioridades Sr. Hernani, trato o meu corpo como um templo e como tal estou aberto ao público, por assim dizer… Se estiver a ser envenenado aos poucos pelo meu governo, não quero ficar para trás e estragar os planos de ninguém, só me iria pôr a jeito para uma morte menos pausada. Fode-te e bebe água, não é o que se diz por aqui?

- E não se importa que possa estar a ser envenenado aos poucos, senhor…

- Roberto Nevada, e não, na verdade estou a contar com isso.

Aquela dose de niilismo zen estava a afectar o meu interlocutor, se não fosse tão obviamente carente de atenção provavelmente desistiria de continuar a conversa, mas deixou-se estar e mandou uma grande dentada na sua sandes de leitão.

- Sei que está a brincar comigo Sr. Nevada, olhe vou-lhe dar o conselho que uma vez dei ao Nicolau Breyner…

De súbito ouve-se um grande estrondo, uma das cadeiras do carrocel soltou-se e foi embater mesmo de frente com a bancada dos bolivianos. Estavam quietos debaixo do metal e da fibra, só se via sangue a jorrar e gente a correr, vi os olhos mortos de um deles entre os escombros. Fiquei ali especado a olhar, enquanto um grupo de homens tentava libertar os corpos. Eu não os podia ajudar, não mais do que os outros que se amontoavam à volta da cena.
Nessa noite enquanto caminhava para casa levei aquele rosto morto e ensanguentado comigo, questionando-me se a experiência de alguma forma me modificaria. Quando era adolescente muitas vezes fantasiava com algum tipo de episódio traumático que libertasse em mim algum tipo de forma extrema, alguma definição de carácter ou de falta dele, mas agora era tarde demais e apesar de não acreditar nessas coisas, disse a Deus que não tinha pedido nada daquilo e que nada daquilo me mudaria.
Só mais um par de índios mortos, tal como nos filmes – Disse eu a mim mesmo antes de adormecer.

sábado, março 05, 2016

A Profecia do Duche Quente



Eu senti-a pela primeira vez durante o banho, a água quente escorria-me pela nuca e no meio do nevoeiro quente uma ideia formou-se no meu cérebro, de que estava a entrar naquela idade em que a morte ganha protagonismo. Não para mim, estava a entrar nos trintas e como fui tardio em tudo, ainda me sentia melhor a cada ano que somava à minha conta pessoal; Pensava na morte do meu pai, que haveria de chegar em breve e mexer com a ligeira calma que vem com a idade, e mal o pensei senti aquele tipo de medo que as pessoas chamam de superstição e ressenti-me das coisas que penso sem querer, temendo que de algum modo as torno realidade.
E tornei, nem dois meses passados e o velhote estava internado. Eu estava em Lisboa quando recebi a notícia, eram os tempos depois do primeiro livro e não andava a escrever nada, em parte porque nada estava a acontecer. Não havia nenhuma daquela energia febril que me levou a lugares estranhos, daquele desdém pela vida que purgava para as páginas como se disso dependesse a salvação. A ferida fora sangrada, o livro foi escrito e agora estava nas estantes desse mundo, encarava-me da mesinha da sala, tão coloquial e vulgar como qualquer outro, a minha alma, esvaída, coada e impressa, eu finalmente escrevera o livro e agora era suposto escrever outro, mas com o quê?
Eu vivera, revivera e no meio da tempestade escrevi, agora não, eu ultrapassei a chama, vivi para contar a história e virei as costas à vida. A narrativa continuou sem mim e agora isto, morte anunciada, logo quando te começas a habituar ao desconforto de ser mais forte que o progenitor, agora que os ressentimentos se esbatem em comparação com toda a merda que tens feito, o teu pai definha e impõe-se que tenhas alguma coisa a dizer acerca disso.
Quando o fui ver ele estava a dormir, tinha a boca ligeiramente aberta e estava mais magro, cheguei-me mais perto dele, tinha o braço direito descoberto e fiquei a olhar para lá porque era mais fácil que encarar-lhe o rosto mirrado. Puxei de uma cadeira e sentei-me à sua cabeceira, era tão estranha esta perspectiva, a de estar fora da cama, acocorado no sono de outro homem. Sentia que estava preso num ritual que não compreendia, que imitava os gestos dos outros crentes, sem no entanto sentir nenhuma da confiança que vem com a fé.
Aprendi algumas coisas naqueles dias, o velhote estava muito fraco, entreabria os olhos por uns segundos, balbuciava meia dúzia de palavras e desaparecia de novo. Não conseguia deixar de pensar que poderiam ser as últimas palavras dele e que não as compreender seria de alguma forma imperdoável. Era isso que me mantinha ali, não havia nada a fazer, o meu único papel era o de testemunhar. O meu pai estava a ouvir a melodia, ele dançava com a Sr.ª Morte, arrastando os pés pelo salão perfeitamente consciente do que aconteceria quando a música acabasse. Morrer, quando feito lentamente é a experiência mais profunda a que alguém pode aspirar, e vê-la a insinuar-se na própria fonte do que me trouxe ao mundo é a total expressão do que significa ser humano pois qualquer que seja o sentido da vida, a consciência da sua finitude parece ser a causa de tudo aquilo que vale mais que meia merda.
Ao 4º dia ficou consciente tempo suficiente para me ouvir, apertava-me a mão com a força possível, dei-lhe um beijo na face e disse-lhe ao ouvido que tinha sido um bom pai, que me ensinara sobre a vida até ao fim e que me dera um bom nome. Ele não disse nada, não havia nada a dizer, o tempo acabara para ele.
Mais tarde em casa senti uma fome enorme, peguei em duas fatias de pão de centeio com uma camada fina de marmelada e uma grande porção de queijo, trinquei-as com uma fome gloriosa engolindo com ânsia enquanto empurrava tudo para baixo com vinho tinto. Depois peguei em papel e comecei a escrever, começava comigo, Roberto Nevada a profetizar sobre a morte do seu pai no meio da névoa de um duche quente.

domingo, fevereiro 14, 2016

Um Anjo no Buraco 18



Foi num sábado que tudo se passou, era meio da manhã de um dia sem nuvens quando John Rawlings e Jim Sterling caminhavam para o 15º buraco da habitual partida de golfe de fim-de-semana. Tinham começado mais cedo que toda a gente e toda a ponta norte do campo estava por sua conta, John estava à frente por duas tacadas, ia contente com a vida, peidando-se enquanto caminhava até à bola, não fazendo qualquer esforço para esconder a satisfação estampada no sorriso idiota que herdou do pai ou a enorme nuvem de flato que libertava ruidosamente enquanto esticava dramaticamente a perna direita.
- Mete os olhos nesta tacada e faz as tuas pazes com Deus – Disse John, posicionando-se para a jogada. É verdade que Jim é o seu melhor amigo, porém também é verdade que Jim faz mais quarenta mil dólares/ano que ele e que a mulher dele tem um traseiro melhor do que o da sua, o que tornava a eminente vitória tão mais saborosa.
John e Jim não teriam maneira de saber, mas estavam prestes a ser as primeiras testemunhas do que se viria a tornar o mais impactante evento da história, e como em tantos outros acontecimentos de grande magnitude mundial, ele começou com algo que literalmente caiu do céu.
“Foi tudo muito rápido. Estava a preparar uma tacada e de repente foi como se o sol tivesse crescido, ficou tudo muito claro, era uma luz branca muito forte, larguei o taco e tapei os olhos com as mãos. Gritei pelo Jim, mas não ouvi a minha própria voz, não sei se foi do choque se da luz, porque a coisa toda não deve ter durado mais que uns cinco segundos, mas durante esse período não se via nem se ouvia absolutamente nada. Eu tinha os olhos fechados e cobertos pelas mãos e ainda assim estava completamente ofuscado. Só me lembro de pensar que era a bomba atómica, e mal acabo de o pensar ouve-se um grande estrondo, sinto o chão a estremecer debaixo dos meus pés e a luz começa a desvanecer-se. Foi aí que o vi pela primeira vez” – relatou John Rawlings.
Sim, estas seriam as primeiras testemunhas, mas em breve a notícia espalhar-se-ia pelo mundo inteiro. John e Jim depois de assegurarem que estavam inteiros são confrontados com a mais incrível visão das suas vidas.
A cratera estava a uns cinquenta metros de nós e dava para vê-lo tão bem como o estou a ver a si, eu caí de joelhos e tentei rezar mas não consegui lembrar-me de nada. Quando olhei para o John ele estava de telemóvel na mão a tentar filmar aquilo” – Relatou Jim Sterling.
Passados dois anos continuamos a não ter um nome melhor do que Anjo para lhe chamar. A ciência não ajudou a explicar o que era aquilo, o que pretendia ou de onde vinha, contudo a igreja acabaria por se revelar igualmente incompetente, o impacto dos acontecimentos daquele dia 27 de Maio de 2016 são inegáveis e no entanto é difícil dizer em que medida nos mudaram enquanto o que quer que raio a soma de todos nós é.
Olhando apenas para os factos, uma figura humana de fisionomia masculina caiu do céu e estatelou-se num campo de golfe em Los Angeles. A coisa, tinha uns dez metros de comprimento e aparentava ter um aspecto perfeitamente humano, exceptuando pelas suas dimensões e pelo par de asas brancas que lhe brotavam das costas. Este anjo caíra e ficara inerte no chão de peito aberto para a relva e asas recolhidas, de costas para o céu.
A notícia espalhou-se depressa, afinal de contas estamos a falar de Los Angeles, esta cidade não conseguiria manter um segredo mesmo que tentasse, e apesar de algum cepticismo inicial, o público em geral percebeu que não se tratava de um elaborado golpe publicitário, quando o Presidente se dirigiu pela primeira vez à nação.
Naturalmente os órgãos de poder foram todos muito cautelosos, o próprio Vaticano não reconheceu o espécime enquanto anjo e pediu prudência aos seus fiéis, esses velhos burocratas dividiam-se entre os que não acreditavam em milagres e os que têm tudo a perder com eles, visto que no seu santo best-seller, anjos caídos não auguram nada de bom. O coelho estava fora da cartola, a questão agora era de onde vinha, estará vivo e se sim, quais as suas intenções? Foram reunidas equipas de cientistas para analisar o fenómeno, eles operavam dentro do perímetro definido pelo exército enquanto que do outro lado das barreiras a multidão crescia a um ritmo alarmante.
Lembro-me de estar em casa a ver as imagens aéreas. A clareira, o corpo inerte, o mar de gente à volta, a minha mãe comentou que parecia o menino na manjedoura, a mim lembrou-me o ralo de uma banheira para onde se esvai a água suja, senti-me aliviado por não estar assim tão perto do momento mais importante da história da humanidade.
Imagino como se devem ter sentido os homens da ciência quando perceberam que algo os impedia de se aproximarem do corpo, uma espécie de cúpula invisível mantinha um raio de dez metros a toda a volta dele, um manto protector que não se via, não se sentia e no entanto parecia irresistivelmente eficaz, dir-se-ia que era feito de vontade pura, ou de fé, mas mesmo aqueles que se diziam homens de fé não conseguiram transpor a barreira, por mais que enchessem a barriga de jejum e a cabeça de rezas.
O tempo passava e a falta de novidades virava alguma da atenção para a multidão, havia milhares que rezavam, choravam e olhavam o céu como se esperando o segundo acto daquela bizarria. Alguns gritavam e falavam de um sinal do fim dos tempos, na televisão o tele-evangelista Rick Masterson causou alguma polémica quando chamou a atenção para a clara evidência de que o Anjo era branco e que caíra em Los Angeles, como que envenenado pelos casamentos homossexuais e clínicas de aborto: “Meus irmãos Deus está descontente com a América porque espera mais dela do que do resto do mundo, ele já sacrificou o seu único filho por nós e agora a podridão que se infiltrou no nosso país está a fazer anjos tombarem do céu. Está na hora de trazer de volta este país para os valores cristãos que o tornaram grande” – Declamou o Reverendo Masterson, terminando o seu sermão com um irónico “Onde estão os ateístas agora com todas as suas verdades científicas e teorias evolucionistas? Para essas pobres almas tenho apenas estas palavras: Arrependam-se”.
Foram dois dias intensamente estranhos, ninguém sabia o que o amanhã traria e por mais assustador que isso fosse, no meio de todas as emoções havia uma excitação geral, um sentimento de que pela primeira vez nas nossas vidas algo realmente grande estava a acontecer. Ninguém podia prever o quão mais estranhas as coisas iam ficar.
“Ele está a mexer, Ele está vivo!”
Começou com um leve agitar de cabeça como quem acorda de um sono longo, depois o seu longo braço direito deslizou debaixo da asa e o anjo levou a mão ao rosto e esfregou os olhos como o mais comum dos homens, a multidão rugia enquanto a imponente figura se erguia, os olhos do mundo estavam naquele campo de golfe na cidade dos anjos, um milagre de dez metros de altura, maior que qualquer homem, um verdadeiro pedaço de Deus e do Sublime.
Coube ao General Anthony Marsh a oportunidade de se dirigir ao Anjo: “Bem-vindo à América, o mundo saúda-o!” A multidão rugiu ainda mais alto atingindo um zénite de fervor que se foi esmorecendo como que esperando uma resposta do anjo. Recordo-me que o meu coração batia muito forte, eu queria muito ouvir a voz d’ Ele.
O Anjo manteve-se em silêncio, olhou à volta, girando sobre si próprio demorando-se um pouco mais no sol para o qual olhou de frente como uma ave de rapina. As suas mãos desceram sobre a túnica branca que lhe cobria o corpo e chegando à extremidade que lhe cobria os joelhos, arregaçou-a para cima, expondo as suas coxas peladas.
A multidão susteve a respiração enquanto o anjo sem vergonha pegou no seu pénis que deveria medir um bom metro de comprido e começou a urinar para a relva. Ele fez aquilo muito casualmente, o mijo saía-lhe com a pujança que se espera de um ser com a altura de um edifício que acabou de acordar de um sono de dois dias, teve tempo até de mirar para a bandeira que assinalava o buraco dezoito, fazendo-a tombar com o seu poderoso caudal virando depois a sua atenção para o arbusto mais próximo. Quando acabou limpou as mãos à roupa e disparou pelo ar em direcção ao céu para nunca mais ser visto.
Não posso falar por toda a gente e não vou sequer fingir que faço a mais pequena ideia do que tudo isto significa. Quando algo de grande acontece, o lado com as mais apaixonadas certezas será sempre a facção com os piores e mais idiotas de nós. O que senti foi que não éramos assim tão grandes, que havia realmente coisas maiores que nós para lá deste mundo, coisas tão mais diferentes que cada um de nós, que a mera visão delas deveria servir para olhar-mos para qualquer pessoa e ver-mos um irmão, um membro da família humana.
Quando aquele estranho mijou sobre o chão da Califórnia, senti que mijava no meu quintal, no quintal de todos nós e fê-lo com o desprendimento dos astros, não porque nos ama ou odeia e sim porque por acaso estávamos no caminho.